Trapalhadas em via dupla
Idioma e diferenças culturais

Já escrevi sobre as confusões em que me meti falando espanhol e inglês, mas às vezes, são os nativos que não entendem a nossa cultura. Em uma viagem para o Equador, visitamos o arquipélago de Galápagos. Numa pequena vila numa ilha afastada, o povoado de Puerto Ayora, vejo num restaurante o cartaz: ‘CAIPIRIHNA’. Hã? Apontei para o cartaz e falei ao garçom: “Não é assim que se escreve”. E ele: “ Está correcto, está escrito en portugues.” Insisti: “Sou brasileira. Não é assim.” E ele: “E não falas português?” Desisti.

Em uma viagem para Galápagos — no Equador — ficamos hospedadas em um barco. Para conhecer o arquipélago é melhor essa opção porque a navegação se faz à noite. As ilhas são distantes umas das outras, assim resta mais tempo para conhecer cada uma.
Eu estou mais habituada a ouvir o inglês americano por causa da quantidade de filmes que assisto. Como os americanos e franceses que estavam no barco tinham filhos pequenos, eles sentavam todos na mesma mesa. Na outra mesa ficávamos eu, minha amiga e um casal de australianos e outro de britânicos. Na segunda frase que eles diziam eu já estava perdida sem saber o significado. Depois eles engatavam uma conversa animada entre eles e aí, voltou a frase; “que raio de língua eles falam?”

Acabamos meio isoladas, só nos comunicando com os guias equatorianos que falavam num inglês compreensível para meus ouvidos sul-americanos.
Viajar sozinha não me agrada. Não ter com quem dividir as decisões, a empolgação de algo diferente diminui o sabor da viagem. Mas, viajar falando português entre a gente e depois rapidamente passar ao inglês gera confusões. Em recente viagem ao Marrocos, minha amiga viveu essa situação. Tínhamos falado português e espanhol o tempo todo, pois, nesse país onde se fala muito francês, é fácil para eles falarem línguas de origem latina. Descemos para o café num Riad, um hotel característico onde os garçons só falavam árabe e um pouco de inglês. Ela soltou o pedido: “My egg without elbow, please.” Olhei espantada para ela. “Meu ovo sem cotovelo?” O garçom ficou perdido e eu não entendia o que ela estava tentando dizer, só sabia que não estava correto. Ela explicou, explicou e ele não entendeu. Num intervalo, eu disse: “Elbow é cotovelo.” E ela, para mim: “como se diz gema do ovo?” “Ih não lembro”. Percebendo o erro ela logo aceitou o ovo inteiro. O garçom, com seu parco inglês, provavelmente não entendeu o ocorrido e saiu aliviado quando ficou esclarecido.
Às vezes, o mal-entendido fica por conta de eu me sentir relaxada e não prestar muita atenção. Num restaurante na Espanha, o menu mostrava um prato com muitos ingredientes do mar, inclusive “anguila pequeña”. Entendi como um pequeno peixe. Percorri os diversos outros pratos e eu e minha amiga acabamos optando por esse que tinha arroz e legumes também. Quando o prato chegou, estranhei que havia macarrão verde. Tínhamos caminhado a manhã toda e às duas da tarde a fome era enorme. Provei o prato e adorei. A minha amiga, olhou feio para tudo, comeu o arroz e os legumes e rejeitou o resto dizendo: “não como frutos do mar”. Eu insisti: “coma esse macarrão, está delicioso.” Ela não respondeu, mas pediu logo uma sobremesa grande. Eu devorei o prato salgado inteiro. Quando saímos do restaurante ela comentou: “Sabia que aquilo não era macarrão? Eram os filhotes de enguia?” Fiquei espantada. Pensando bem, pareciam mesmo pequenas cobras verdes! Na hora não me importei. Mas hoje quando lembro, sei que não pedirei enguias outra vez.
Em uma viagem para a África do Sul, o tour era em um ônibus cheio de sul-americanos e espanhóis, com guia em espanhol, claro. Porém, na África do Sul se fala inglês. E, a cada parada, o inglês saía com uma dificuldade tremenda, entrecortado com palavras em espanhol. Acho que meu cérebro precisou criar novas conexões para lidar com três línguas ao mesmo tempo. Falava em português com minha amiga, espanhol com os companheiros do ônibus e inglês nas paradas.

E o sotaque sul-africano não facilitava nada. Quando chegamos ao hotel, próximo ao local do safári, bem no coração da África, o som do inglês piorou muito. No meio daquela gente toda falando espanhol, ouvi atrás de mim: “Sorri. Sorri.” Estranhei. Não havia mais brasileiros no tour, e em espanhol seria “sonria”. Olhei para trás e um africano com um carrinho cheio de malas tentava passar pelo corredor onde eu estava. O significado veio de imediato. Ele estava pedindo licença para passar e eu não tinha reconhecido a palavra “sorry”(sóry) pronunciada de maneira tão diferente.
Continuando a viagem visitamos a cidade do Cabo, linda e simpática. Contratamos um taxi para que fizéssemos um tour contornando o litoral e visitando ao famoso Cabo da Boa Esperança. O motorista era nativo do Zimbábue e tinha aprendido inglês quando criança. Falava devagar e isto facilitou muito o meu entendimento. Fiz muitas perguntas e recebi muitas informações a respeito da cidade, do país dele e da África do Sul. Ele me falou que o país tem onze, isto mesmo, onze línguas oficiais, sendo o inglês e mais outras dez línguas africanas regionais. Isto faz com que eles mesclem palavras de diferentes idiomas e criem outras derivadas da mistura com o inglês. A conversa transcorreu de forma fluente e eu traduzia para minhas companheiras de viagem.
Paramos para almoçar. O guia nos disse que, depois do almoço, iríamos degustar vinho ao lado do restaurante e que não haveria cobrança adicional. Porém, quando nos dirigimos para a degustação, a atendente informou que havia um mal entendido e que havia uma taxa, independente do preço do almoço. Insisti, em inglês, que o guia nos dera diferente informação. Não houve jeito. Então, o guia que estava logo atrás se aproximou e eu, um tanto irritada com o equívoco, comecei a falar em português com ele. Em virtude de ter passado a manhã inteira conversando com ele, meu cérebro me deu um golpe e interpretou que, sendo ele uma pessoa conhecida, falava português. Ele e a moça me olharam espantados sem entender porque eu estava falando com ele em português.

Depois de momentos de confusão linguística, meu cérebro reconectou, superou as taças de vinho tomadas no almoço, comecei a rir e mudei a linguagem.
Em uma viagem a Lisboa tive uma sensação diferente. Escutava o português de Portugal e meu cérebro — desta vez sem vinho — a princípio não aceitava como sendo a minha língua nativa e parecia que eu precisava falar alguma outra língua. Eu me sentia confusa e percebi que o som do português que eu falava era muito estranho. Aquela maneira de falar, inserindo muitos “pois pois” me fazia pensar que eu estava dentro de um programa humorístico, onde se fazia um sotaque português exagerado. Aos poucos fui me ambientando e isto desapareceu. Então pude tomar vinho tranquilamente.
Viajamos para os Açores, dias depois. Nas ilhas, isolados pela distância do continente, seus habitantes falam um português onde as vogais quase não são pronunciadas. A mim, parecia — realmente — um outro idioma. Assim que chegamos o taxista que nos conduziu começou a responder minhas perguntas e falou da indústria do “lait”. “Hã?”. Somente depois que ele falou de queijo e manteiga é que percebi que a palavra era leite. Em outro dia, quando fomos assistir a uma corrida de touros na Ilha Terceira não entendi nada do que os nativos falavam entre eles, pois a sonoridade e a velocidade da língua a tornavam incompreensível. As coisas eram faladas pela metade e como numa língua desconhecida eu só captava palavras soltas.
Ainda, na Ilha Terceira, nos Açores, um encontro com um casal belga me deu uma experiência muito especial. A língua nativa dos dois era francês, mas ele falava bem o inglês e ela espanhol. Também falavam alemão como o meu namorado. Conversei em inglês com ele, em espanhol com ela e meu namorado conversou em alemão com os dois. Em alguns momentos os idiomas se intercruzaram e recebi perguntas em alemão e fiquei esperando meu namorado traduzir para o português. Ou questionei em espanhol quem só falava inglês e recebi um olhar de estranhamento até modificar a fala. Foram quinze minutos de conversa num estilo cidadãos do mundo sob uma chuvinha fria do meio da manhã, perto de um monte que, significativamente, se chama Monte Brasil.
Viajar é um maravilhoso esporte. Caro, mas cheio de aventuras. Basta ter disposição e nenhuma vergonha de errar, tentar de novo, até acertar. O mesmo vale para a viagem pelo mundo das línguas. As palavras nos levam, nos trazem e nos divertem. Afinal, como se diz desde o tempo da minha avó “quem tem boca vai a Roma”. Será que vai pra China também?
E quem não teve momentos de estranhamentos como esses? Você já?

