Cidade reversa

Waldemar RAmos, 2016.
Texto por Alexis Peixoto
Colagem por Waldemar Ramos

A trégua acabou, informa o Capitão pelo sistema interno de rádio. É terça-feira, tarde da noite, os técnicos estão derrubando o último prédio da firma, cancelando as máquinas com vapor quente. O Capitão está ao meu lado, apoiado na perna boa, enxugando o suor do rosto na manga do paletó.

- Os negócios estão definitivamente arruinados — comenta, sem esconder o cansaço. — Precisamos deixar a cidade imediatamente.

Escolho uma expressão de surpresa, mas ele sabe que estou fingindo. A falência iminente das firmas públicas da Cidade Reversa foi capa da edição matutina do Impresso Oculto, com grande repercussão nos bairros nobres. Mesmo os operadores das máquinas — analfabetos sensoriais de berço, ingênuos demais para compreender a amplitude da situação — não falaram em outra coisa durante o expediente. À tarde, a falência foi oficialmente reconhecida pela alta cúpula da cidade e o pânico se espalhou pelas ruas como um jorro quente.

Capotes esquivos nos bairros inferiores. Metralhadoras atirando nos carros públicos em pleno horário comercial. Patrulhas vespertinas de hidroaranhas recolhendo pedestres na beira do rio. Fotografias telepáticas dos tumultos. Metros de massa cerebral borrifados na primeira página.

O Capitão joga fora o toco de charuto e, falando em código, me encarrega de transmitir a ordem de partida ao resto dos funcionários.

- Não há um só em toda a firma que não sonhe em deixar a cidade — diz o Capitão. — Claro que ninguém quer ir a parte alguma por “motivo de força maior”. Você os conhece, é um deles, sabe muito bem do que estou falando.

O caldo das máquinas derretidas escorre em direção aos meus sapatos.

- Estamos diante de uma coisa importante aqui, entende? Quando for dar a notícia, não entre em detalhes — recomenda o Capitão. — Quanto menos souberem, melhor. Puxe o assunto naturalmente e deixe que se acostumem. É preciso evitar o pânico a todo custo.

Concordo em silêncio. O Capitão aprova tossindo e sai de cena, puxando a perna, acendendo outro charuto.

De madrugada, tomamos uma lancha e partimos pelo rio, rumo ao Terminal. Na plataforma de embarque, o funcionário de plantão é um sujeito de roupas vazias e olhos de tesoura, cujo melhor amigo é um cassetete elétrico. Os homens formam fila diante da entrada do tubo. A chuva cai sobre os casacos, rala e pegajosa como cuspe. Nosso secretário de finanças, porco gordo e suarento, tenta furar a fila, mas muda de ideia quando o bastão elétrico do funcionário da plataforma lhe diz umas verdades. Partimos depois que nos livramos do corpo.

Dentro do tubo, o moral segue alto. Ninguém está triste pela partida. As crianças colam o nariz no vidro das janelas, contando os prédios que o vagão vai deixando para trás. Baratas circulam silenciosas pelo teto, cruzando as patas no ritmo da chuva. O Capitão permanece nos fundos do vagão, fumando, ouvindo sem comentar. Os mais velhos distribuem tabletes de doce e trocam lembranças da cidade de antigamente.

O contorcionista da empresa faz um número no qual fica em pé sobre dois bancos, enfia a cabeça entre as pernas e faz um relato dramático de seu aniversário de cinco anos, para deleite de uma plateia de estagiários surdos. Os taxidermistas do birô de propaganda constroem uma estátua com as asas dos mosquitos queimados nas lâmpadas do vagão. Algo se move em meu estômago.

O vagão fica em silêncio por alguns minutos enquanto o tubo cruza a fronteira. Alguém encontra uma garrafa, perdida no meio da bagagem. Bebemos até de manhã. Pela janela, entra uma fita de luz e acorda os sobreviventes. Encarando o teto, me deito no chão, sentindo minhas extremidades amputadas latejarem. As baratas estão quietas agora, mas parece que ninguém se importa.