Vóide

“Quando a máscara cai”, Waldemar RAmos (2106).
Texto por Alexis Peixoto
Colagem por Waldemar Ramos

Sei que não vim comer de verdade. Vejo câmeras e refletores nos fundos do restaurante. O diretor se aproxima com uma lista de recomendações: não devo falar, espirrar, fumar, mastigar ou fazer qualquer som ou movimento que denuncie minha existência. Antes que eu abra a boca e pergunte o que é que há, ele se afasta.

As câmeras começam a rodar. Ação. Vejo o ator que me interpreta, de roupa trocada e recuperado dos ferimentos da cena anterior, sentado à mesa com uma moça de óculos que fala bastante.

A garçonete se aproxima para anotar meu pedido. Abro a boca e descubro que não tenho mais cordas vocais. Resoluto, mexo os ossos e os músculos do rosto, articulo palavras sem som algum. Ela entende e me responde da mesma maneira. Silenciosa, contraindo as bochechas. Sorri enquanto finge anotar meu pedido.

Os produtores estão sentados mais adiante, na mesma mesa. Olham para mim e sorriem em coro.

Do outro lado do restaurante, a moça de óculos continua falando, agora cada vez mais alto, mas ainda não consigo entender o que diz. Só posso imaginar pelo modo como pressiona o indicador contra a mesa que é algo de extrema importância. O ator que sou eu escuta com paciência, mastigando cada parte da garfada separadamente, distribuindo a carne, o arroz e as verduras igualmente entre os setores da arcada dentária. Não tenho voz nem vontade própria, mas ainda lembro de tudo.

A cena que estão filmando agora se passa muitos anos antes, no mesmo restaurante onde levei o tiro que me arrancou fora o estômago. A lembrança do tiro traz a imagem da loira fatal que puxou o gatilho há não mais do que dez minutos. Ou teria sido daqui a dez minutos? Olho para os lados, apreensivo, mas ela ainda não chegou. Ah sim, acho que ela não existe realmente. Ela não existe.

Reconheço com ternura e saudade antecipada o azulejo em que vou bater a cabeça quando cair de costas. Os sujeitos sentados lá no balcão que vão me carregar para fora, com amor e sordidez.

Mas ainda estou aqui, sentado neste restaurante. Esta moça diante de mim? Não conheço. Digo, acabei de conhecê-la. Não consigo lembrar se a convidei para jantar ou se foi o contrário. De todo modo, estou morto de fome. Quero a refeição mais longa do mundo.

Ela pergunta:

- O senhor tem alguma ideia de como vamos embora daqui?

- Absolutamente nenhuma. Pra ser bem sincero…

- Não precisa.

- Por favor.

- Gostaria muito de saber o que vai acontecer a seguir.

- Não importa.

- Pra mim importa. Não custo a morrer, sou uma pessoa doente. Estou ficando velha e já passei da idade de fazer novos amigos.

- Não diga essas coisas. E além do mais, que isso tem a ver?

- Lauro, olha!

O diretor está sentado ao meu lado, as mãos crispadas e a cabeça a ponto de explodir. Pendurado pelas costas por um gancho de açougue, saliva feito um babuíno excitado. Faço menção de levantar e sair da sala, mas ele me pega pelo braço.

- Atenção agora, essa é a grande cena — diz e enterra as unhas cheias de sei lá quantas doenças na minha carne.

Na nuca, um bafo quente. São os produtores que, acabo de lembrar, ocupam toda a fileira de trás. Sorridentes, dão-me tapinhas no ombro, como que para me aplacar da emoção inenarrável que é ver o atorzinho de bosta que me interpreta segurar as tripas, enquanto os figurantes continuam a bebericar cappuccino às três da tarde, folheando jornais em branco.

“Quando a máscara cai”, Waldemar RAmos (2016).

Vinte anos no futuro: com a boca cheia de sangue, deito na calçada do restaurante, pisoteado pelos sapatos dos delicados cidadãos. Tarde de quinta-feira, vinte e dois de novembro, ano segundo depois dos ratos.

Assisto a tudo sentado lá nos fundos. A garçonete traz meu pedido. Está errado, não foi nada disso que pedi, mas não sinto vontade de reclamar. Estou cansado.

E aí decido que é tudo ridículo demais, que não vale a pena e me levanto para ir embora. Assim que o diretor percebe o que está acontecendo, levanta-se da cadeira. Penso que vai vir atrás de mim, mas ele desiste, fica lá parado, olhando-me com aquela cara mole. Os produtores também se levantam, aproximam-se, mas param no meio do caminho, na mesma pose.

Eu também paro. Olho em volta e vejo a garçonete. Tem um revólver apontado para mim. Morena, olhos verdes e mãos firmes.

Tento sorrir. Quase pergunto se ela já foi loira antes. Poderia ser o início de uma conversa excelente. Mas ela dispara; tudo escurece.

Quando a vista começa a clarear, dou de cara com os olhos injetados do diretor. Quer saber minha opinião imediatamente, mas não tem paciência para me ouvir. Mais importante é antecipar minha fala expondo o que ele próprio pensa, ao mesmo tempo em que se justifica pelo exagero da fotografia ou por um enquadramento que possa ter parecido estranho para mim, mas sei que ele só quer que eu o elogie. Está em transe, não escuta sequer a si mesmo, que dirá minhas tentativas de entrar na conversa e dizer-lhe que houve um grande engano, que nada do que acontece no filme é real ou tem a ver com o que eu escrevi. Os produtores me pescam pela gola da camisa, enchem minhas mãos de papéis, fotografias, tabelas coloridas, pequenos aparelhos pontiagudos e pedaços de filme que tenho que ler, assistir e aprovar.

Em meio ao emaranhado de coisas que carrego nos dois braços, noto a mão do ator magricela que acabou de ser baleado, esperando algum tipo de contato amistoso.

Preciso ser cordial e apertar-lhe a mão, mas não temos tempo. Vão me empurrando, até que eu caio sentado e quando dou fé, uma garçonete se materializa de cadernetinha em punho, pronta para anotar meu pedido.

Meu estômago dói. Estou caindo, não vejo ninguém; mas com certeza tem alguém lá. Qualquer um que me puxa pelos braços até a calçada. É cedo, o sol ainda está quente. Não tenho mais dinheiro pro ônibus. Rastejo até em casa.

Subo as escadas, me arrasto até o computador. Começo a digitar um conto em forma de testamento, enquanto enfio pedaços de pão na boca para que o sangue não caia nas teclas.