A conta dos passaralhos

Um panorama sobre as demissões de jornalistas brasileiros desde 2012

Parte 1 de 2

Elaborada pelo projeto de jornalismo de dados Volt Data Lab, esta é a primeira parte de uma série que inclui dois textos no nosso blog no Medium e visualizações interativas de dados, fontes e metodologia no site do Volt. Foto acima: Paulisson Miura/Flickr
Para acessar a parte 2, clique aqui.

Há poucos anos, parar o carro no estacionamento do prédio onde fica a sede do Grupo Abril era como ir a um shopping às vésperas do Natal. E quem chegasse depois das 11h precisava subir até o quinto andar da garagem, sem cobertura, para conseguir uma vaga.

Agora, é bem possível parar seu carro tranquilamente no antes cobiçado segundo andar. Ao meio-dia. Ao lado do elevador.

No térreo, arranjar uma mesa ao sol perto do restaurante na outrora disputada pracinha externa era trabalho para poucos, especialmente perto do pico no horário de almoço, às 13h. Esse problema não existe mais.

Também pudera: depois de pelo menos 440 demissões na Editora Abril em três anos, sendo 163 apenas de jornalistas em diversas redações, espaço livre é o que não falta no antigo NEA (Novo Edifício Abril).

A editora, em meio a prejuízos, venda e encerramento de títulos, devolução de escritórios em sua sede corporativa e um processo de adaptação para plataformas digitais, foi a empresa jornalística que mais dispensou jornalistas desde de 2012 até o começo de junho, de acordo com levantamento realizado pelo Volt envolvendo mais de 50 redações.

A condição das revistas do grupo não tem sido fácil.

Enquanto a circulação de jornais aumentou no começo de 2015, em grande parte por conta da razoavelmente bem-sucedida migração para plataformas digitais de algumas grandes publicações e no persistente interesse de muitos leitores com o jornal impresso, nas publicações da Editora Abril as coisas não parecem ter sido tão boas nos últimos anos.

A Abril Comunicações, que compreende a Editora Abril, e, assim, títulos como Veja, Exame, Quatro Rodas e outras renomadas revistas, amargou um prejuízo de R$ 140 milhões apenas em 2014. No ano anterior, o saldo negativo na última linha fora de quase R$ 170 milhões.

Foto do estacionamento do prédio onde fica a Editora Abril, em São Paulo, em 2009. Foto: Stella Dauer/Flickr

Para a empresa, a redução de seu prejuízo na comparação anual foi motivo de comemoração. Para seus jornalistas, não.

Eis como o balanço financeiro 2014 da Abril Comunicações descreveu sua estratégia de adaptação aos novos tempos:

“Em 2014, a Companhia efetuou desinvestimentos em empresas e descontinuou títulos com menor retorno financeiro ou com perspectiva de retorno de longo prazo, assim como, naqueles que demandavam maiores investimentos em pesquisas e desenvolvimentos. Como consequência, a estrutura operacional foi redimensionada às novas necessidades com a redução de áreas de suporte e apoio.”

Dá para matar esse parágrafo em uma única frase: vendemos revistas, não investiremos em nada novo e demitimos como nunca.


Os passaralhos

A Editora Abril foi a empresa de mídia que mais fez cortes nas redações nos últimos três anos, mas de forma alguma está sozinha nessa onda de demissões. Onda tão grande, aliás, que foi criado até um apelido entre profissionais do setor há alguns anos: "passaralhos" .

Segundo a agência Pública de jornalismo investigativo, "passaralho é um jargão agressivo para as demissões em massa nos meios de comunicação. Remete a pássaros, revoadas de algo que destrói tudo por onde passa."

Em pouco mais de três anos (2012 a junho de 2015), foram contabilizadas pelo menos 1084 demissões de jornalistas em cerca de 50 redações, incluindo as principais empresas de comunicação brasileiras, a grande maioria por cortes de custos, de acordo com levantamento feito pelo Volt.

Os dados foram obtidos pela contagem do número de demissões a partir de informações de sites especializados, notadamente o Portal Imprensa, o Portal dos Jornalistas e o Portal Comunique-se.

Este é o primeiro levantamento compreendendo demissões de jornalistas em redações brasileiras ao longo de vários anos.

Demissões de jornalistas sobre demissões totais de empresas de comunicação

Esse gráfico foi alterado para facilitar seu entendimento. Veja os dados tabelados utilizados pelo Volt
Acesse aqui os dados interativos dessa pesquisa

O número é certamente maior. Muitas notícias não discriminavam quantos jornalistas foram demitidos, apenas os números totais. Além disso, a informalidade no setor muitas vezes não permite contabilizar, por exemplo, como demissão a dispensa de um jornalista contratado como Pessoa Jurídica (PJ) ou terceirizado, já que ele não é funcionário direto.

O total geral de demissões de empresas de mídia — que inclui funcionários administrativos, técnicos ou outros tipos de profissionais fora das redações — também impressiona: foram no mínimo 3.568 pessoas dispensadas em três anos.

Para acessar a metodologia completa da pesquisa, clique aqui.

Demissões de jornalistas nas redações brasileiras de 2012 a junho/2015

Fonte: Levantamento do Volt. N/D significa que não há dados disponíveis | Veja os dados tabelados utilizados pelo Volt

Vale notar que dos seis veículos que demitiram 50 ou mais jornalistas, cinco são exclusivamente impressos ou digitais.

O Grupo Estado e o Grupo Folha ficaram empatados em segundo lugar no ranking das demissões em redações, com pelo menos 65 jornalistas dispensados. Na sequência vêm o Grupo RBS (54), o portal Terra (50) e o jornal Valor Econômico (50).

A RBS, um dos maiores conglomerados de TV do Brasil, também é dona de vários jornais impressos.

Já no total de demissões, incluindo outras profissões, a Abril novamente lidera a lista, com pelo menos 446 demissões, seguida de Record (369), MTV (300), Terra (250), Rede TV! (223) e o jornal O Globo (170).


Menos vagas

Às vezes, uma demissão, mesmo que por corte de custos, não representa corte de vagas disponíveis. Profissionais com salários mais altos podem ser desligados para dar espaço para outros com remuneração inferior. Isso acontece em todas as indústrias, inclusive no jornalismo.

Ao mesmo tempo, pode ocorrer redução de vagas da maneira inversa: o profissional se demite voluntariamente e a vaga acaba não sendo reposta, frequentemente para conter custos.

O mercado total de jornalismo, que inclui contratações de profissionais como redatores, repórteres, repórteres-fotográficos, cinegrafistas, etc. também fora das redações, tem apresentado tendência de queda nas vagas disponíveis desde 2010.

Veja os dados tabelados utilizados pelo Volt aqui.
Veja os dados tabelados utilizados pelo Volt aqui.

Um indicador que atesta isso pode ser visto na série de cinco anos do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), de 2010 a 2014.

Apesar do crescimento de admissões de 2010 até 2012, as demissões cresceram mais rapidamente e o total de vagas (vagas = admissões — desligamentos) para profissionais de jornalismo encolheu ano a ano, encerrando 2014 com saldo negativo de 43 demissões.

Neste ano, até março, as dispensas já superavam as contratações em 57 vagas.

Não foi possível extrair dados precisos do Caged para jornalistas nas redações — nem os sindicatos dizem ter esses dados — já que muitas empresas, assessorias e agências de comunicação contratam revisores e redatores, por exemplo. O Volt contatou quase 30 sindicatos, apenas repassaram dados, embora insuficientes.

Essas ocorrências distorcem os dados positivamente, visto que empresas de comunicação corporativa tendem a contratar mais pessoas do que redações.

Se quiser saber mais sobre a condição da profissão de jornalismo, leia o artigo da agência Pública “A pior profissão do mundo”. Embora seja de 2013, ainda é muito atual.

De qualquer forma, os números do Caged, compilados pelo MTE, dizem muito sobre o cenário de emprego para profissionais de jornalismo como um todo: a tendência de queda nos últimos anos.

Esses dados foram obtidos pelo Volt mediante a Lei de Acesso à Informação (LAI), e foram compilados pelo próprio Ministério do Trabalho e Emprego. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) também repassou ao Volt dados do Caged, mas estes divergiam dos dados da LAI, principalmente porque contavam outras categorias de profissionais que o Volt desconsiderou para a pesquisa.

O ânimo dos novos profissionais com o jornalismo também parece estar minguando. O total de registro de novos jornalistas (MTB) vem despencando no Brasil inteiro, após um aparente surto de novos profissionais em 2011.

Para ser jornalista registrado em carteira (CLT), é necessário ter MTB, segundo regulamentação do decreto 83.284, de 1979. Mas, obviamente, há muitos jornalistas por aí que não o possuem, trabalhando como freelancers e PJs sem registro profissional.


Por se tratar dezenas de empresas e grupos diferentes, além de ter sido um levantamento próprio a partir de notícias não corrigidas, o Volt não contatou as empresas para esse projeto. Caso qualquer empresa queira se posicionar, favor contatar o Volt através do e-mail: info@voltdata.info
O Volt é um projeto independente de jornalismo de dados. Para saber mais, acesse www.voltdata.info ou clique aqui.
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