Acredito que não haja dúvidas quanto a isto: uma boa faca é a principal ferramenta de sobrevivência. Na verdade, não é necessariamente uma faca, mas um instrumento de corte que se adapte ao meio. Na selva amazônica se usa o terçado, no Canadá é o machado etc. Mas de maneira geral, se usa uma faca.
Para os aeronavegantes, as facas tem algumas características que devem ser respeitadas para melhor se adaptarem e não acabarem atrapalhando as atividades dentro dos exíguos espaços das aeronaves.
Antes disso, vou tecer algumas considerações: os fãs das facas podem até torcer o nariz mas (opinião minha) não é necessário usar uma faca que é uma verdadeira obra de arte da metalurgia. Não é raro encontrar militares de carreira que compraram sua facas (normalmente uma Mk2 da Imbel — de boa qualidade mas nenhum primor da cutelaria) durante o curso de formação e permanecerem com ela durante toda a carreira. Se for bem manutenida, quase trinta anos depois a faca vai estar feia, ralada, sem o acabamento preto fosco característico dela, mas ainda cortando e servindo bem aos seus propósitos originais. Por outro lado, numa situação extrema, a qualidade da faca (e do restante do seu equipamento) pode ser o diferencial entre o sucesso e o chafúrdio.
Voltando ao assunto, a principal característica de uma faca para tripulantes de aeronave é o tamanho reduzido. De maneira geral, ela terá em torno de 25 cm de comprimento total. A ideia é ficar presa a uma parte do corpo sem ultrapassar as articulações. Se estiver, por exemplo, presa à canela, não deverá atingir nem o joelho e nem o tornozelo.

Dentro dessa ideia, as primeiras facas desenvolvidas com este fim foram as Air Force Survival americanas, na década de 1960 e usadas até hoje. Elas foram adotadas como padrão para todas as tripulações das forças armadas americanas e, apenas após o ano de 2005 começaram a ser substituídas. Elas são uma adaptação da lendária Ka-Bar, apenas um pouco menores e com o serrilhado na parte superior da lâmina. Notem também que a parte posterior do punho também é mais rombuda, podendo ser utilizada como martelo. Na guarda também existem dois furos (não dá para ver na foto) que facilitam a amarração da faca para usá-la como uma lança, por exemplo.

Outro modelo é a Randall Modelo 15 (Airman). As facas da Randall são um excelente exemplo das “obras de arte da metalurgia” aos quais me referi acima. São praticamente artesanais, muito caras, feitas com materiais de primeira qualidade. Notem, porém, que além do tamanho reduzido, não apresentam outras funcionalidades desejáveis, como o martelo e o serrilhado.
Nos últimos anos surgiu o conceito das facas ASEK (Aircrew Survival and Egress Knife) ou faca para escape e sobrevivência da tripulação. O US Army Aeromedical Research Laboratory definiu alguns critérios para este tipo de faca:
- comprimento de 10,25 pol (26 cm), com lâmina de 5 pol (13 cm);
- poder ser usada como martelo para quebrar o plexiglass do pára-brisa de uma aeronave;
- ter uma lâmina capaz de cortar o alumínio aeronáutico das fuselagens das aeronaves;
- poder ser usada como chave-de-fenda;
- dispor de um afiador na própria bainha;
- dispor de um dispositivo para cortar cintos de segurança (J-knife ou hook-knife)
- o material do punho deve ser um isolante elétrico.
Notem que nem o serrilhado e nem os orifícios para amarração estão nos requisitos da faca ASEK.

Já existem vários modelos, mas os dois mais conhecidos são a Ontario ASEK e a Gerber LMF II ASEK. A Ontario é um pouco mais antiga e foi a primeira faca a ser aprovada para substituir a Air Force Survival knife. Porém, em 2006, surgiu a Gerber. Nesta época, o punho com isolamento elétrico passou a ser mandatório (antes era desejável) nos requisitos da faca ASEK. A Gerber tinha o punho isolado e a Ontario não.
Hoje a Ontario já resolveu este problema e foi escolhida como a faca-padrão para as tripulações do Exército Americano. A Gerber deixou de ser vendida com o seu kit ASEK. Ambas cumprem todos os requisitos. Uma diferença que pode ser notada na Gerber é que o final do punho tem uma ponta, priorizando a função de quebrar o plexiglass em lugar do martelo. Este é bem menor, localizado na parte superior do punho.
Outra coisa que podemos ver é que as facas mais antigas possuem uma bainha comum de couro, para serem usadas presas ao cinto. Esta porém não é a posição mais comum (ninguém pilota com um cinto de equipamentos). As facas mais recentes dispõe de tiras para prender a faca à perna e a bainha, além de poder ser presa ao cinto, pode também ser atrelada aos equipamentos com o padrão MOLLE.
A marca Escuela de Supervivência, Escape and Evasion (ESEE), antiga Randall Adventure and Training (RAT), tem uma grande know-howem cursos de sobrevivência na Amazônia peruana, ministrando cursos inclusive para as forças armadas daquele país e da Colômbia. A empresa fabrica um série de facas voltadas para a sobrevivência.

A ESEE-5 não incorpora as características das facas ASEK, como as descritas acima. Por outro lado, foi desenvolvida visando um emprego em situações de sobrevivência e evasão, especificamente pelo curso de SERE da USAF. Vale a pena dar uma olhada.
A cutelaria Ontario — a mesma da ASEK System, que já citei acima — também fabrica as facas desenvolvidas pela ESEE, em aço D2 semi-inoxidável (as facas da ESEE são de aço-carbono 1095). O preço é um pouco mais acessível e podemos notar pequenas diferenças no design. A equivalente à ESEE-5 é a Ontario RAT-5.

Depois que perdi a minha Gerber no acidente, comprei um ESEE RC-3 MIL. É praticamente uma ESEE-5, porém uma pouco menor, com uma lâmina de três polegadas.
Este artigo foi publicado originalmente no Voo Tático.
Para receber atualizações nos siga no Twitter, Facebook ou se inscreva na nossa newsletter.
Email me when Voo Tático publishes stories
