O Brigadeiro Sampaio e o Cadete Dionísio Cerqueira, durante a Guerra da Tríplice Aliança

O que o Brigadeiro Sampaio falou a Dionísio Cerqueira?

No início deste ano, não me lembro exatamente em qual ocasião, um general me fez essa pergunta:

O que o Brigadeiro Sampaio falou a Dionísio Cerqueira?

Esse general sempre diz que estudamos pouco a nossa própria história militar e usa essas pequenas perguntas para comprovar essa ideia. É claro que saber detalhes como nomes, datas e números não dão uma visão adequada da história; a ideia é chamar a atenção para o contexto que em tudo isso aconteceu.

A ideia funcionou comigo; tenho que confessar que eu não sabia a resposta. O Brigadeiro Sampaio é o patrono da Infantaria e sua história é bem conhecida por todos. Por outro lado, eu não sabia muita coisa além de que Dionísio Cerqueira havia sido um oficial do Exército que combateu na Guerra da Tríplice Aliança. Muito menos de que os dois eventualmente se encontraram e conversaram.

Fui procurar a resposta. Descobri que Dionísio Cerqueira havia escrito um livro; provavelmente a resposta estaria nele. Descobri também, algum tempo depois, que o livro dele é considerado um dos melhores relatos da guerra escrito por um de seus participantes.

Como a possibilidade de eu ter que responder a pergunta novamente era próxima de zero, apenas deixei o livro na minha interminável lista de “para ler”. Agora em dezembro, surgiu a oportunidade de comprá-lo.

Reminiscências da Campanha do Paraguai - 1865 - 1870 foi publicado originalmente em 1910. Após isso, foram publicadas algumas outras edições, a maioria pela Bibliex. A última delas (essa da foto) é de 1980.

O autor colocou suas lembranças no papel praticamente quarenta anos após o término do conflito. Ele próprio faz essa ressalva que nem todas as suas lembranças podem estar nas datas corretas ou na mais perfeita ordem cronológica.

Apesar disso, é um relato fiel da difícil vida nos acampamentos, das amizades, de atos individuais de heroísmo ou covardia que se perderiam se não fosse pela sua narrativa e da visão que os oficiais mais novos tinham do conflito. Dionísio Cerqueira foi honesto (ou parece ter sido) a ponto de manter o livro de acordo com as suas lembranças, mesmo anos após a guerra, quando situações que ele não entendia bem quando jovem já haviam sido esclarecidas.

O livro tem um tom ufanista, que é relativamente comum nos relatos militares daquela época. Por outro lado, ele não esconde falhas que cometeu e desvios de conduta que presenciou.

Outro ponto de destaque são as referências históricas que o autor usa ao longo do texto. Estas sim eu acredito que foram sendo acumuladas ao longo de toda a sua vida; dificilmente ele — com apenas dezoito anos — teria toda a bagagem cultural que demonstra. Não faltam citações ou referências a Napoleão, Von Moltke (o Velho), Clausewitz e até mesmo Heródoto e Xenofonte. São comuns as comparações de manobras ou batalhas históricas com as situações com que ele se depara no Paraguai.

É um livro de memórias e, assim como qualquer outro desse tipo, ele traz uma visão pessoal de uma pequena parte da história. Quem é militar certamente irá reconhecer tradições e procedimentos que já eram cumpridos naquela época ou que surgiram na guerra e permanecem até hoje.

Antes que me esqueça…

Depois [Sampaio, que era cearense], quase sorrindo, perguntou-me:
— Você é filho do Ceará?
Achou-me talvez com a cabeça chata.
— Não, Senhor, senhor general, sou baiano.
E quase acrescentei — “por graça de Deus”.
[…]
Foi a primeira e a última vez que tive a honra de falar com aquele exemplar homem de guerra.

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