As missões

do missionário

Deitamo-nos cedo e cedo nos erguemos. Muito salutares por aqui, mas crescer? Ainda não chegou cá nada. Gosto dos amanheceres de Empada. Está mais fresco, cheira a terra e o silêncio imperaria, não fossem os pássaros que ensaiam logo pela manhã. Quando não é dia de ir ao hospital, vou lá na mesma. No caminho, pode acontecer de tudo. Já parei para jogar só um minutinho de matraquilhos, porque tinha mesmo de ser. Já me chamaram porque as calças que tenho vestidas faziam a delicia de quem tirava água do poço e, assim como quem não quer a coisa, queriam que desse uma voltinha. Também agendo consultas pelo caminho, depois de insistir várias vezes que, no meio da rua, é difícil palpar uma barriga. Já me entregaram uma taça de arroz, por acharem que não como e só trabalho. E às vezes, tenho de parar numa casa ou na outra, só para saberem se está tudo bem. Quando não é dia de ir ao hospital, vou lá na mesma, e depois fico no Centro Nutricional das Missionárias da Consolata ou desloco-me a alguma tabanca (aldeia). Em ambos, passo grande parte do tempo em (muitas) consultas, por serem gratuitas (o que não acontece no hospital) e porque a médica é branca.

É claro que podem pensar o quão óbvio é, para um médico, dar consultas e observar doentes, numa missão. E, de facto, ser médico, numa missão de voluntariado, é meio caminho andado. Para começar, as pessoas procuram-nos, são elas que vêm até nós. Sabemos onde e em que área vamos trabalhar, apesar das nuances deste saber. O resto do caminho não andado são os desafios do exercício da profissão que conhecemos, em sítios que não conhecem a língua que falamos, as doenças e os medicamentos que usamos mais frequentemente ou os exames que gostávamos de poder pedir. Mas nem só da área da saúde se conta a história da missão. É uma coletânea com vários fascículos. Mesmo que todo o caminho seja não andado. Não acreditam que missionário é mulher/homem dos sete ofícios? Ora vejam: (sim, a Anita foi a minha inspiração clara!)

Missionário vai à escola!

O ensino é transversal à maioria das missões, não fosse a alfabetização uma área de grande investimento das instituições de voluntariado. Das aulas de línguas, às aulas de informática, à formação de outros profissionais, à organização de bibliotecas. Eu dei uma perninha em aulas de português, mas levei bóias, que essa coisa da filha de peixe podia dar em afogamento. A outra perninha ainda estou a dar, em aulas com os enfermeiros do hospital.

Missionário é criativo!

Ui, esta dava pano para mangas. Nas reuniões com outros missionários, volta e meia surge a questão “Pois, mas tu és médica! Agora eu sou escultor/desenhador/fotógrafo, qual poderá ser o meu contributo?”. Todo! Malta das artes: em 2013, quando parti para a Costa do Marfim, o meu grupo integrava dois desenhadores. E o que fizeram essas almas por lá? Usaram o seu dom, desenharam a nossa experiência e, uma vez chegados a Portugal, publicaram um livro. E isto foi só uma parte pequenina do trabalho deles!

Missionário pinta, reabilita, constrói!

As missões precisam, muitas vezes, deste tipo de trabalho. Ou porque não há uma escola e há um grupo que a constrói de raiz, ou porque há um centro de saúde a precisar de ser pintado. Então e costumam ir muitos construtores civis/pintores em missão? Nem por isso. Mas de construtores e de loucos todos temos um pouco! Pronto, eu fico-me pelo provérbio original que, admito, a minha experiência neste fascículo é nula.

Missionário é dona de casa!

É verdade! Missionário vive na missão. O que é que isso implica? As tarefas domésticas do costume, sem as ajudas do costume. E não falo das mães. Não há máquinas mas há loiça e roupa. E tudo se faz, talvez com uma melhor motivação do que de costume.

Missionário brinca com a criançada!

Uma constante na missão! Há crianças para todas as idades, sempre dispostas a mais um jogo ou brincadeira. São carinhosas, são enérgicas… dizem que são o melhor do mundo! E eu acredito! Fazem-nos levar a missão com um sorriso no rosto!

Missionário vai à igreja ou é catequista (ou tenta, vá)!

Se se trata de uma missão católica, é natural que, às duas por três, sejam chamados a participar na parte pastoral. Esta é uma forma de aproximação à comunidade, de se envolverem. Não é bem a minha forma mas (sim, há um mas!) todos podemos contribuir. Esta semana, por exemplo, vou estar na catequese dos adolescentes. Claro que não vou falar do que não sei ou não acredito. Mas se for para falar dos valores em que acredito, dar a minha opinião, tentar contribuir para a formação dos jovens… vamos lá ser catequistas por um dia!

Missionário é pau para toda a obra!

Por tudo o que escrevi anteriormente, acho que este é o título que melhor define um missionário. Se é para fazer… Quando cheguei à casa das irmãs, em Empada, havia um pi-pi-pi constante. Tinha avariado o botão do frigorífico. Um, dois, três dias. Lancei-me a ele, munida de uma pós-graduação em “frigoríficos e geleiras de levar para a praia” e a coisa resolveu-se. Claro que em Portugal chamaria um técnico, que lá não tenho a mania que conserto botões de frigoríficos… mas a ameaça-de-surdez aguça o engenho!

Missionário também é isto! Disponibilidade para o que aparece e… vão aparecer muitas e muitas coisas. Na missão há lugar para todos. Não importa a idade. Não importa a formação. Não importa a profissão. Não importa o que fazíamos. Importa o que fazemos. Há fascículos mais simples. Há fascículos que têm de ser decifrados. Mas coletânea é isso. O conjunto de todos os fascículos, a panóplia de pessoas que parte, na riqueza das suas diferenças. E a missão ganha com todos mas, definitivamente, com cada um!

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