100

ou sem!

Chegas. Ficas. Partes. É este o resumo de uma missão de voluntariado. O “ficas” pode ser um mês, um ano, o que for… mas partes.

Antes de vir, uma das missionárias com quem vivi um mês na Costa do Marfim disse-me: “deixo-te uma frase de um bom e grande missionário da Consolata:

A missão é sempre a 100%. Sais daqui a 100%, estás lá a 100% e regressas a 100%. Se partes a 99% então ficas: é o melhor para todos.

João, always a 100% onde estiveres”.

Gosto do 100%. Gosto do número cem. Mas também gosto de sem. Para estares a cem, precisas de estar sem pressa, sem um plano 100% delineado, sem tudo traçado. Precisas de estar de braços abertos, de fazer o que aparece, de te deixares levar, de “seres” missão.

Tudo isto sem esquecer que partes. Tu partes mas há quem fique. E porque é que isto é importante? Na minha opinião, porque deve condicionar algumas das nossas acções. Como assim? Vou tentar ilustrar com um exemplo na área da saúde (vá-se lá saber porquê!).

Era uma vez a doença A que era tratada com o medicamento X desde sempre. Num certo dia, chega alguém que decide tratar a doença A com um medicamento/procedimento Y muito mais eficaz e apreciado por todos mas que não é reprodutível- por exemplo, porque não é possível ensinar ou porque o medicamento vai terminar. Então, durante o período em que “o alguém” está presente tudo corre pelo melhor. Entretanto “o alguém” parte. Quem fica, não pode mais aplicar o medicamento/procedimento Y e volta X. Para além da meia dúzia de pessoas que beneficiou do Y, o que é que fica? Fica a população que já lá estava, a ser tratada como já era mas que agora sabe que há melhor do que o que lhe é dado. E é justo “o alguém” ter dado o melhor, tirado a seguir, e diminuir o valor de quem sempre lá esteve? Não me parece.

Hoje reunimo-nos com o médico de Bubaque, que é também o director regional de saúde do Arquipélago dos Bijagos (onde Bubaque está inserido). Falámos sobre o que nos trouxe aqui, sobre o que gostávamos de fazer.

Depois passámos a manhã no centro nutricional. Vimos mais de uma dezena de crianças. Ao nosso lado, o enfermeiro Tino, de olhos esbugalhados, a sugar cada coisa que dizíamos, a procurar perceber as contas que fazemos quando damos um antibiótico. A tentar perceber quando valorizamos ou não “o corpo quente”. Antes de chegarmos, havia já recolhido o nome e o peso todos os miúdos e organizado uma lista.

Depois das consultas sentou-se ao nosso lado e ficou a ver a Eunice falar sobre sintomas, sinais, medicamentos, doses e afins com um interesse que emociona. Pelo meio, repetiu “obrigado” pelo menos cem vezes. O Tino está 100% connosco e é justo que “o deixemos a 100%”. Com o que sabemos, com o que temos e com o que ele já sabe, o que pode aprender e fazer.

Boa tarde a todos!

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