Desamor

à primeira vista

É escuro. As paredes são verdes, escuras. O chão tem pó, escuro. O hospital é assim, escuro. E num ápice, essa escuridão invade-nos e tudo nos parece escuro. E, a cada minuto que passa, mais e mais escuro. Nem só de momentos bons, de palmas e de sorrisos vive a missão. Há momentos assim, escuros. E nesses momentos é imperativo parar. É imperativo sair porta fora, respirar fundo, soltar um grito, enfim… descontaminar!

Na primeira manhã, no hospital, a descontaminação não pegava. Ali só há enfermeiros, maioritariamente estagiários, com alguns meses de prática, outros nem isso. Nas primeiras consultas, depois de perceber que preferia não perceber muito do que ali se fazia, estava prestes a lançar a bata ao chão. Dava por vencida a batalha e já nem queria saber da guerra. Mas todos os túneis têm a sua luz, independentemente da sua extensão. Todos têm. Ás vezes, só para picar, está no estagiário com alguns meses de prática. O que parece não querer, não ver, não aprender, não perceber. Mas só parece. Quando achava que estava a falar comigo mesma, ele mostrou-me que esteve sempre ali. Que quis, que viu, que aprendeu, que percebeu a maior parte. Que o papel ao lado dele, onde eu pensava que ele rabiscava, consumindo tempo, eram afinal apontamentos das dúvidas para me colocar. Eu ia desistir, mas ele não. A luva pode não ser branca, mas a chapada soube que nem ginjas.

Hoje regressei ao hospital. As paredes são só verdes e o chão tem só pó. E, neste hospital, esperava-me uma mão cheia dos maioritariamente estagiários. Só conhecia um, a luz. Querem ter aulas porque não podem estar todos na consulta. Uma mão cheia. Todos de luvas, as tais que podem não ser brancas, calçadas. Todos os túneis têm a sua luz, independentemente da sua extensão. Todos têm. Ás vezes, só para picar esta médica com um vastíssimo par de anos de experiência e a fazer voltar à batalha. Podemos não vencer a guerra, mas nada de batas no chão.

Felizmente há quem dê sempre o corpo às balas. Conheci-a no quarto ano da faculdade. Falou-me da dignidade, da humildade, da humanidade na medicina. E eu nunca esqueci. E voltei a estar com ela anos mais tarde. E também hoje. Eu em Empada, ela em Lisboa, a ajudar-me a tratar um menino queimado. Não temos nada do que conhecemos mas estamos munidas de criatividade e de vontade de o cuidar. E se partilhar esta experiência servir de pouco, que tenha servido para a ter comigo aqui, doutora Margarida. Obrigado!

Vamos manter a luz acessa.

Boa semana para todos!

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