Difusão em Audiovisual

A experiência de Sávio Stoco com a produção audiovisual do grupo

Pensar nas experiências audiovisuais no Coletivo Difusão, a partir daquelas que vivenciei, é recordar de um tempo de muito diálogo, aprendizado e atividades.Foi o período de maior produção de vídeos, experimentações e eventos,pelo menos para mim, e, sobretudo de muita satisfação. Pensar qualquer ação cultural para um público requer um amadurecimentoque me deparei naqueles companheiros desde o início quando passei a frequentar o grupo e conviver com seus integrantes,hoje meus amigos.Foi o grupo de artes que desde a minha adolescência eu buscava sem sucesso em Manaus e que, finalmente, em 2008 encontrei e me senti parte dele.

Foi estimulante participar do grupo de estudos em Videodança, interagir com importantes artistas da dança e poder também colaborar refletindo, seja produzindo alguns experimentos ou participando de debates. Nesta iniciativa, que um pouco depois desdobou-se com sucesso em edições do projeto Mostra Amazônica de Videodança, particularmente,foram marcantes para mim as posturas e engajamentos de Valdemir de Oliveira, a criação de Ovídia Dias, Michelle Andrews e a disponibilidade para sempre conversar e assistir de Marcos Tubarão. As reuniões costumavam se dar na laje, quando a sede do Difusão ficava na avenida Rio Branco, bairro da Cachoeirinha — lá pelos idos de 2008–2009.

Registro da II Mostra de Videodança do Amazonas, realizada no ICBEU, no ano de 2009

Mesmo local em que se deram memoráveis projeções do Cineclube Tudo Muda Após o Play que teve consideravelmente poucas, mas boníssimas edições. Uma em especial com a presença do escrito/diretor Márcio Souza debatendo O cão andaluz e L’aged’or, de Buñuel. Adorador de “contar seus causos”, ele nos deliciou falando do encontro que teve com o mestre espanhol durante um voo, apresentado pelo amigo Glauber Rocha. Em outra edição, a parceria continuou e nos propusemos a produzir a estreia mundial da versão digitalizada do seu importante longa-metragem A selva (1972), lançado em DVD pela editora Valer(encartado com o livro Ferreira da Castro: um imigrante português na Amazônia, de AbrahimBaze) e há décadas sem ser revisto em Manaus; evento que se deu no teatrinho do Teatro Experimental do Sesc com uma plateia lotada e interessada em ver, debater e escutar o depoimento do Márcio. Outra aproximação significativa com uma figura emblemática do cineclubismo que remonta aos anos 1960 e 1970 em Manaus — nossos “ancestrais audiovisuais” mais diretos, por assim dizer — foi quando da sessão dos curtas-metragens do sociólogo Renan Freitas Pinto: Rita e Zuazo (1974) e Viagem Filosófica (1974); evento organizado no auditório da extinta livraria Valer. Foi uma honra poder explorar este intelectual e apresentar ao público esta sua importante faceta que ficou um tanto apagada frente às suas realizações acadêmicas das últimas décadas.

Da esquerda para a direita: Estreia da versão digitalizada de ‘A selva’, longa-metragem de Márcio Souza; Conversa com Renan Freitas Pinto sobre sua produção audiovisual; Debate com Gavin Andrews na primeira edição do Etnodoc, parceria com o NAVI

As parcerias que o núcleo audiovisual do Difusão estabeleceu com outras iniciativas pela cidade é também algo a se notar. Estive mais perto das diversas vezes em que essa integração se deu com o Núcleo de Antropologia Visual (NAVI) da Universidade Federal do Amazonas, coordenado pela antropóloga Selda Vale da Costa. Desde aquela época até agora tenho o prazer de frequentar ambos os grupos e talvez ter sido o responsável por essa parceria. Selda lembra com muito carinho até hoje a dedicação da equipe que deu duro se disponibilizando a produzir, pintando de branco uma grande tela na parede dos fundos do auditório do Centro de Artes da Ufam para a ótima projeção realizada com presença do diretor paulista Andrea Tonacci e exibição do antológico Serras da Desordem(2006), aproveitando sua passagem na cidade pela mostra Etnodoc, organizada pelo NAVI. Em outra ocasião, a mesma Selda não acolheu bem a proposta de projeção no teto do Ideal Clube que propusemos para ovídeo-instalaçãosobre a Amazônia da cineasta Lina Chamie. Mandou retirar assim que o viu, durante o coquetel, para o nosso desgosto… Ossos do ofício! 

Foi tendo os amigos do Difusão ao lado que participamos de muitas das edições do Amazonas Film Festival, evento infelizmente tão desconectado do contexto da cidade naqueles anos e que muito mais poderia ter fomentado. Críticos, circulávamos pelo evento, participávamos da mostra de curtas reservada aos realizadores locais e víamos algo que não condizia em quase nada com a nossa realidade e de tantos outros realizadores que passavam o restante do ano sem incentivos governamentais de outra ordem. Em resumo, em minha opinião, tratou-se de um dispendioso projeto para turista ver. Em 2009 dirigi com Michelle Andrews o curta-homenagem Janela para o Outro, em memória ao pesquisador de cinema Narciso Lobo falecido naquele ano. A ideia foi integrar a justa homenagem proposta pela Mostra Amazônica do Filme Etnográfico do NAVI e acabamos inscrevendo o trabalho e ganhando o prêmio do Júri no AFF — na mesma edição que decidiu se calar e não mencionar em nenhuma ocasião de sua programação a perda deste importante pesquisador dos estudos audiovisuais na região, realizador do trabalho de pesquisa tão rememorado entre nós do Difusão, A tônica da descontinuidade: cinema e política em Manaus na década de 60 (1994).

Hoje, em 2016, acabo de lançar um esboço de história da retomada da produção audiovisual que se passou em Manaus nesse início do século XXI, o livro Cine AM: o audiovisual em reportagens e entrevistas (editora Valer). Uma modesta coletânea de textos diversos que se estrutura e inicia justamente evidenciando minha ligação com o Coletivo Difusão: pois inicia com a transcrição integral da esclarecida entrevista feita com Narciso Lobo em 2006 (notem bem, no ano de início do Difusão) por Allan Gomes e Michelle; a mesma utilizada no curta que dirigimos em 2009 — material pertencente ao acervo do grupo. Um depoimento tão significativo deste intelectual; ao que me consta, é item raro, não tendo sido promovido e/ou preservado por outra instituição algo semelhante. E do mesmo acervo digital do Coletivo Difusão, existem muitos outros tantos importantes registros e filmes– trabalho que indica seu engajamento, seus interesses diversificados no âmbito da cultura e sociedade e a forma inteligente com que se orientou durante estes dez anos. O que nos faz pensar que além de todo um repertório de filmes produzidos, debates, oficinas, eventos significativos, também o arquivo audiovisual deste grupo é rico e mereceria um trabalho cuidadoso de preservação e divulgação. É o que desejo para o futuro, além da longa continuidade de sua existência.