Práticas educacionais em uma organização em rede

Foto: Divulgação.

Tive a sorte de conhecer o Coletivo Difusão durante a pesquisa do mestrado em Ciências da Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em 2010, por meio do Allan Gomes. Após algumas conversas e visitas ao Coletivo, descobri que não poderia não me envolver com o trabalho que eles desenvolviam. Era importante demais para eu ficar como simples espectadora e decidi que também queria fazer parte daquela revolução de ideias, mas também de ação. Assim, me tornei parceira do Coletivo Difusão, o que transformou minha concepção de ação coletiva e levou para outro patamar a perspectiva de sociedade.

Ao longo destes anos, de forma mais presente em 2011 e 2012, foi possível acompanhar diferentes ações do Coletivo, como as “vivências” - espécie de estágio baseado na troca de experiências e no convívio em ambientes colaborativos dentro da estrutura do Coletivo - e as imersões realizadas para debater temas específicos.

Participei do 1º Seminário Interno de Comunicação* que reuniu, por dois dias, membros do Coletivo e outros parceiros, como os queridos Hemanuel Veras e Jorge Eduardo Dantas, para discutir sobre as possibilidades e estratégias de comunicação, contribuindo para potencializar a atuação midialivrista dos membros do Coletivo. Esse debate também desencadeou um processo de planejamento dessa comunicação, o que não existia antes.

*Nota do editor: Esta ação consistiu numa série de palestras e debates para nivelar o entendimento de todos os membros do coletivo acerca das ações de comunicação.

Em 2011, recordo de ter acompanhado a produção do festival Até o Tucupi, articulando parcerias e auxiliando nas atividades de formação, e conseguimos inserir na programação do festival o Seminário sobre Ativismo Digital - evento realizado em parceria com o projeto Maloca Digital do Departamento de Comunicação da UFAM, coordenado pela professora Ivânia Vieira - promovendo a discussão e levando provocações sobre o tema, pela primeira vez, para dentro da academia.

E o que dizer da experiência de participar das coberturas colaborativas das Mostras de Música em duas edições do Festival? A emoção de ver os moradores do bairro Jorge Teixeira colocando suas cadeiras para fora de casa para assistirem às apresentações de bandas locais e de fora de Manaus, em 2011.

Impossível esquecer dos shows de 2012, na Avenida do Samba. Nunes Filho tocando seu repertório numa pegada de rock, acompanhado de uma banda formada por músicos convidados especialmente para esse show. A Gang do Eletro subindo ao palco, após um temporal avassalador e incendiando o público. Presenciar aqueles metaleiros dançando enlouquecidos ao som de Treme foi, certamente, uma das cenas mais marcantes do evento. Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, juro que duvidaria. Deu muito trabalho, mas foi maravilhoso dividir a cobertura dessa edição com os companheiros Thiago Hermido, Andreza Andrade, Aline Fidelix e outros.

Ainda em 2012, o Difusão realizou a segunda edição da MIVA - Mostra Internacional de Videodança na Amazônia, onde tive contato com a videodança. Desta vez, promovendo debates sobre a temática da cultura digital na Universidade do Estado do Amazonas, em parceria com o professor Valdemir Oliveira.

No mesmo ano, o Difusão também recebeu outros Coletivos da região norte para um encontro regional. Conversar com aquelas pessoas e trocar ideias sobre as possibilidades de conectar os estados da região foi uma oportunidade única e empolgante. E realizou debates aproveitando a temática das eleições municipais, na pósTV - canal de webTV, que foi o embrião da Mídia Ninja, transmitido por serviço de streaming - , quando pudemos apresentar as nossas ideias sobre A cidade que queremos, uma campanha nacional de cobertura das eleições municipais realizada pelo Fora do Eixo.

Entre 2013 e 2015, as dificuldades para ajustar as agendas acabaram por me proporcionar o contato menos frequente do que eu gostaria. Ainda assim, fiz algumas participações na pósTV para debater comunicação regional, sociedade, política e questões de gênero e sexualidade.

Acredito que a ideia de desenvolver práticas educativas a partir de vivências, da troca de conhecimentos e habilidades para a construção de um saber coletivo e compartilhado - a proposta da Universidade Fora do Eixo -, trouxe para o Coletivo o desafio de construir um corpo docente multidisciplinar, capaz de abarcar diversas áreas, e mapear as parcerias possíveis. Porém, deixar de pensar a educação apenas como aquela instituída pela sociedade moderna, formalizada, encaixotada e recortada e desmontar essa estrutura não é fácil e exigiu de todos nós um novo olhar e muita experimentação.

Todas essas conquistas e a consolidação do Coletivo Difusão como referência em sua área de atuação somente foram possíveis graças ao compromisso e dedicação de uma turma que admiro muito e de quem espero poder conservar a amizade por muitos e muitos anos: Allan Gomes, Michelle Andrews, Caio Mota, Elisa Maia, Paulo Trindade, Diego Batista, Keila Serruya, Thiago Hermido e Felipe Fernandes, e muitos outros. E não poderia deixar de mencionar uma das pessoas mais iluminadas que já conheci e que, infelizmente, não está mais neste plano, André Oliveira.