Carne Vermelha e o Risco de Cancer de Mama

Realizar pesquisas relacionadas à nutrição e como os alimentos que comemos afetam nossa saúde não é uma tarefa fácil. Vários aspectos cruciais para o sucesso de uma investigação científica podem estar alterados quando o estudo envolve perguntas sobre nutrição, como por exemplo a incapacidade de estimar com precisão a frequência e quantidade de consumo dos alimentos, a falta de uma hipótese pré-definida, e a co-ocorrência de outros fatores relacionados à doença em questão. Estes desafios infelizmente criam lacunas no âmbito da pesquisa sobre nutrição, o que torna difícil fazer recomendações de sobre certas questões. A associação entre a ingestão de carne vermelha e câncer de mama é uma destas questões.

A hipótese de que a ingestão de carne vermelha pode aumentar o risco de câncer de mama (e de outros tipos de câncer também) já vêm sido considerada por algum tempo. Embora recentemente mais e mais estudos têm mostrado uma associação entre esses fatos, ainda não se pode afirmar, em comprovados termos científicos, que o consumo de carne vermelha cause o câncer de mama. Também as diferentes maneiras de criar o gado e de se preparar a carne vêm sido questionadas. “Será que comer mais carne defumada ou bem passada aumenta o risco de câncer de mama?” “Será que o câncer é causado pela grande quantidade de hormônios presentes nas carnes?” Há muitas limitações para tais estudos, incluindo a dificuldade de avaliar a quantidade correta de carne uma mulher consome, a forma exata que preparam suas refeições, e as sobreposições entre o consumo de carne vermelha e outros aspectos que influenciam o risco de câncer de mama como o peso corporal, o consumo de frutas e hortaliças, a atividade física, o tabagismo e o consumo de bebidas alcólicas. Portanto muitas dessas questões até hoje permanecem sem resposta.

Vários estudos isolados foram feitos onde uma ligação concreta entre a ingestão de carne vermelha e o câncer de mama não pode ser demonstrada. Porém, recentemente, duas meta-análises abrangentes indicaram que o aumento da ingestão de carne vermelha e carne processada está associada a um maior risco de câncer de mama. Uma meta-análise é um estudo retrospectivo, que analisa os resultados de vários estudos e ensaios clínicos sobre o mesmo tema, em conjunto, sendo assim capaz de derivar novas conclusões baseadas em um número maior de pessoas do que cada um dos estudos isoladamente.

Estudos recentes da Universidade de Harvard observaram o consumo de carne vermelha durante a adolescência e início da vida adulta, ao invés de somente nos anos mais avançados de vida de uma mulher quando o câncer de mama tende a aparecer. Estes estudos mostraram claramente que mulheres que comiam mais carne vermelha na adolescência ou início da idade adulta tiveram maior risco de desenvolver câncer de mama mais tarde na vida. Uma porção diária de carne vermelha durante a adolescência foi associada a um risco 22% maior de câncer de mama na pré-menopausa, e cada porção extra por dia durante início da idade adulta foi associada a um risco 13% maior de câncer de mama em geral.

Esses estudos são inovadores também por demostrarem que o aumento no risco de câncer de mama é proporcional à quantidade de carne vermelha ingerida. Portanto, não se trata da necessidade de tornar-se vegetariano ou de não comer carne vermelha em qualquer ocasião, mas sim de que todas nós mulheres reduzamos significativamente as quantidades que ingerimos de carne vermelha desde bem cedo na vida (por exemplo, ingerir somente uma vez por semana, ao invés de duas vezes ao dia).

O consumo de outros tipos de carne e proteína, como frango, peixe, feijão, ovos etc, bem como de ferro, não foi associado a um risco elevado, tão pouco a um risco menor de câncer de mama. Mas a substituição de uma porção diária de carne vermelha por uma porção de aves, peixes, legumes, ou castanhas foi associada a um risco 15% menor de câncer de mama em geral.

É claro que a carne vermelha não foi o único fator de risco para câncer de mama presente nas mulheres destes estudos. Além do mais estes estudos eram somente observacionais, portanto não é possível afirmar que a ingestão de carne vermelha foi a única razão pela qual estas mulheres tem adquiriram câncer. Porém a análise levou em conta a maioria dos fatores de risco de câncer de mama já conhecidos como o tabagismo, consumo de álcool, idade, terapia hormonal e uso de contraceptivos orais, e ainda assim foi demonstrado que a carne vermelha foi um dos fatores importantes de risco de câncer de mama.

Cientistas acreditam que as mulheres estejam mais suscetíveis a alterações da mama devido à ingestão de carne vermelha durante a adolescência e início da idade adulta pois neste período as glândulas mamárias ainda estão sendo formadas, e as células mamárias estão se proliferando rapidamente, sendo assim mais sensíveis à exposição de substâncias cancerígenas.

O risco de câncer de mama associado à ingestão de carne vermelha parece também ser mais elevado entre mulheres que consumem pílulas anticoncepcionais.

Vários mecanismos vêm sendo investigados com o intuito de explicar a relação entre a ingestão de carne vermelha e o câncer de mama. Mais frequentemente vem sendo considerado que comer carne vermelha pode causar câncer de mama:

  • Devido a subprodutos ancerígenos formados durante o cozimento em altas temperaturas (ou seja, grelhados ou churrasco). Sabe-se que o processo de cozinhar carnes a alta temperatura produz substâncias chamadas “mutagênicos”, que têm a capacidade de penetrar nas células dos tecidos humanos, incluindo as dos seios, e causar mutações. Mutações são transformações das células que fazem com que elas se multipliquem de forma incorreta, gerando células cancerígenas e, eventualmente, o câncer. O grupo mais comum destes agentes mutagénicos são as chamadas “aminas heterocíclicas”, e seus efeitos prejudiciais sobre o ADN têm sido observados em vários estudos. Estudos demonstraram que as mulheres que consistentemente consumiam carnes muito bem passadas tinham um risco 4,62 vezes maior de câncer de mama do que a de mulheres que consumiam as carnes ao ponto ou mal passadas. O risco de câncer de mama também se elevou com o aumento da ingestão de carnes muito bem passadas quando comparado com a ingestão de carnes somente bem passadas.
  • Devido a resíduos de hormônios presentes na carne vermelha, oriundos dos hormônios exógenos fornecidos aos bovinos de corte para estimular seu crescimento. A maioria dos cânceres de mama são influenciados e estimulados por hormônios (estrogênio e progesterona). Ao consumir carne com uma quantidade maior de hormônios poderíamos estar potencialmente “alimentando as células cancerígenas” e promovendo o seu crescimento.
  • Devido a um estado de inflamação crônica nos tecidos que pode ser causado por uma reação do nosso sistema imunológico (o nosso “sistema de defesa “) contra uma substância que costumava pertencer a espécies humanas anteriores à nossa, e que ainda está presente na carne vermelha, chamada de ácido N-glicolilneuramínico ou Neu5Gc. Mesmo se já não produzimos mais o Neu5Gc, nossos corpos ainda contêm um anticorpo para ele (anti-Neu5Gc), e esta substância também pode entrar nas células, o que poderia potencialmente gerar a inflamação.

Alguns outros mecanismos explicando a possível interação entre a carne vermelha e o câncer também vêm sendo considerados pela pesquisa, tais como a produção de compostos N-nitrosos (NOCs), a ingestão de ferro heme presente na carne, e produtos de oxidação macromoleculares.

Mesmo sendo os resultados da pesquisa ainda não conclusivos sobre este tema, suficientes estudos têm mostrado uma potencial ligação entre o consumo de carne vermelha e câncer de mama. O suficiente para que sejamos ao menos cautelosos sobre o assunto. Além da ligação com o câncer de mama, a carne vermelha tem também sido relacionada com várias outras doenças tais como a diabetes, doenças cardiovasculares, outros tipos de câncer e muitas outras. Portanto se partirmos do ponto de vista de que “onde há fumaça há fogo”, nos parece razoável considerar que a redução da quantidade de ingestão de carne vermelha tem efeitos positivos sobre a nossa saúde em geral. Mas quanto mais baixo este consumo deve ser ??? O departamento de saúde pública no Reino Unido informa que devem ser consumidos um máximo de 70g por dia de carne vermelha ou de carne processada, ou 500g semana, para manter uma dieta saudável e prevenir doenças.

Também tem sido constatado que a produção de carne vermelha é um processo muito oneroso para o meio ambiente, consumindo grandes quantidades de água e contribuindo para aumentar o aquecimento global. Assim, ao reduzir a carne vermelha de sua alimentação você não só estará ajudando a sua própria saúde, mas também àquela do nosso planeta.


Todas as informações mencionadas neste texto foram extraídas de avaliações de pesquisas científicas. Todas as referências aos artigos e livros consultados podem ser encontradas aqui.


Written by (escrito por) Mariana Casella dos Santos @mariana_casella

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