É bastante provável que, ao fim das manifestações, nada de perceptível mude. Teremos uns centavos de redução de passagens aqui e ali, algumas resoluções e CPIs acolá, mas a estrutura, a raiz do problema não será resolvida.

Até porque as causas do movimento ampliado, que vai além dos 20 centavos e do passe livre, são abertas. Não há uma carta de reinvindicações na mesa que possa ser negociada. Não há um interlocutor.

E isso é ótimo.

Isso é ótimo por alguns efeitos que os protestos deixarão nos governantes. O principal deles é o que podemos chamar de síndrome da casa invadida.

Imagine que você volta para casa um dia e descobre tudo revirado, roubado, quebrado. Suas fotos pessoais expostas, gavetas abertas, itens subtraídos. Nos dias, meses e anos seguintes, não adiantará a quantidade de trancas, chaves e segredos, não importará a porta blindada. Você sempre vai dormir sobressaltado. Sono leve. Um olho aberto, ouvidos atentos a qualquer ruído.

No fundo, você saberá que pode acontecer novamente. Sem aviso.

Em menos de uma semana surgiu do nada, sem uma liderança, sem aviso ou previsão um movimento que levou centenas de milhares às ruas. Motivados inicialmente por meros 20 centavos. A casa foi invadida. Na cabeça de políticos e governantes, daqui pra frente, qualquer projeto, qualquer reajuste, qualquer decisão pode dar início a protestos similares.

Pela primeira vez eles se sentirão vigiados, observados por olhos brilhantes de rostos invisíveis na escuridão. Criamos nosso Batman coletivo, cuja mera lembrança de seus ataques repentinos e de sua asa de morcego fazem os bandidos pensarem duas vezes.

Um segundo ponto é tornar pública e generalizada a discussão política. Por alguns dias, jovens e adultos estão debatendo serviços públicos, PEC 37, o papel e a postura dos políticos. Acabou o efeito da anestesia. De súbito descobrimos que as coisas não vão tão bem assim. O complexo de vira-lata às avessas que vivemos nos últimos anos foi superado. Passamos novamente a perceber que temos mazelas, e muitas. Acabou a ilusão de que tudo vai bem, de que somos todos ricos, lindos e famosos. E isso durante uma competição esportiva. Durante uma quase Copa.

Na noite de 18 de junho, William Bonner comunicou no Jornal Nacional que abandonou o plano de apresentar o noticiário da frente dos estádios – procedimento normal do JN na cobertura de grandes eventos esportivos – para voltar ao estúdio, por conta do peso dos protestos na pauta. Em outras palavras: a cobertura dos protestos se tornou prioritária à da Copa das Confederações. Isso é ou não é uma incrível vitória de nosso povo sempre controlado à base de pão e circo?

Como mencionei na autocrítica como publicitário, Manuel Castells já avisava que chegaríamos a esse ponto. O nobre Carlos Nepomuceno lembrou outro texto que ajuda a entender esse momento, o livro “Quem está no comando?”, de Ori Brafman e Rod Beckstrom. Há uma explicação para tudo isso.

Apesar de toda a anarquia, há uma lógica por trás do que estamos vivendo. E isso é ótimo, também.

Poderemos estudar e entender melhor do que se passa. E continuaremos à frente, pois não temos a arrogância e as amarras (rabo preso seria um termo vulgar, embora apropriado) da classe política, tão ensimesmada, autocentrada e autossuficiente demais para tentar ouvir e entender a sociedade.

A casa ainda não caiu, mas agora a gente tem a chave.