O que você faz quando tudo dá errado?

por Ale Nahra

Ale Nahra (Foto: Robson Silva)

(este texto é derivado da palestra que fiz no WIAD São Paulo em 18/02/17)

Erre rápido, erre com freqüência — dizem os gurus das start ups. Errar significa que a empresa está ousando, inovando, shipando, testando, prototipando. Errar é massa.

Mas essa glamourização do erro não vale para pessoas físicas. No mundo do trabalho, parece que ninguém erra. A gente morre de medo de errar e lida muito mal com o erro. Ninguém gosta de errar e de admitir que errou.

No entanto, a gente erra. Merdas acontecem mesmo quando temos um planejamento, um roteiro, uma agenda toda certinha. É só alguém levantar a mão e dizer “mas…”. Daí acaba o roteiro e bagunça o planejamento todo.

Houve uma vez em que eu fui apresentar uma análise de usabilidade para executivos de uma grande empresa e, ao chegar lá, descobri que havia analisado o site errado. Não dava tempo para voltar e fazer novamente. Na minha frente, uma sala cheia de c-levels querendo ouvir algo muito excepcional — afinal, o que essa guria pode me dizer sobre o meu produto que eu já não saiba? E a guria ainda por cima erra.

E o que eu fiz quando tudo deu errado?

Primeiro, admiti o erro. Abri o workshop dizendo: “mil desculpas, mas de fato eu analisei a URL errada”. Isso ajudou a quebrar um pouco do clima pesado. Então eu contextualizei: mostrei por que o erro aconteceu. Mostrar o que levou ao erro pode ajudar a descobrir falhas no processo e corrigi-las (isso é bem diferente de dar desculpa furada. Não vale dizer que o computador deu pau, o cachorro comeu a lição de casa ou que o despertador não tocou).

E aprendi muito.

Eu finalmente internalizei a frase da foto que abre a matéria. NADA está sob controle — então pare de querer controlar e relaxe. Não tem controle, amô. Mesmo que a gente planeje tudo direitinho.

E outra: nós, os designers, falamos muito de empatia. Temos que ter empatia com o usuário, nós dizemos — o usuário, aquele ser abstrato que está lá longe. Assim é fácil ter empatia. Mas ninguém pensa em ter empatia com o coleguinha ao lado, ou com o antagonista no trabalho. Como o gerente de projeto que quer que eu entregue 10 wireframes até às 10 da noite, com a executiva da conta — sempre mais alta, mais magra e mais elegante que eu — que quer me fuzilar porque eu analisei o site errado do cliente dela; com o cara da TI que acha que o usuário é burro porque não consegue usar a interface ótima que ele programou.

Aquele dia, eu olhei ali praquelas dez pessoas que olhavam pra mim com olhares de expectativa e percebi que estávamos todos no mesmo barco. Todos ali eram pessoas querendo viver uma vida plena. Eu, o cliente, a executiva da conta, o cara da TI, o gerente de projeto que pega no meu pé. O cobrador do ônibus. A garçonete que de cansada está grosseira. O varredor de rua.

Todos queremos realização pessoal e profissional: ser reconhecido, cumprir a meta, ganhar o bônus, a promoção, o aumento.

E quando você vê que está todo mundo no mesmo barco, percebe que a única maneira de todos conseguirmos o que queremos é colaborando uns com os outros e sendo gentil.

Em uma situação dessas, é melhor optar por construir. Não seja aquele cara que senta na arquibancada observando de longe com ar blasé e detonando tudo e todos. Não seja aquela pessoa que hiperventila. Que se estressa e quer pedir a cabeça do coleguinha. Vamos sair dessa situação juntos, por favor.

Tem lugar pra todos se a gente for junto.
o slide mais fofo, o parêntese amoroso ❤ foto da Fernanda Mercedes

(vocês podem estar achando que isso que eu to falando é uma viagem

amor, colaboração, gentileza —

porque vivemos o capitalismo e o capitalismo não é assim.

Mas eu acredito em novos modelos de fazer as coisas no mundo. De fazer negócios, de trabalhar, de ganhar dinheiro. E eu não quero esperar o mundo mudar pra mudar depois. Eu quero ser um agente da mudança. Eu quero começar a viver assim agora. Eu acho que um dia essa selvageria competitiva da economia e dos ambientes de trabalho vai ter que mudar. Pra isso, alguém tem que começar a mudar — por que não eu? Por que não você mesmo?)

Ale Nahra (Foto: Robson Silva)

Todo mundo erra. Todos os dias, 7 bilhões de pessoas ao redor do planeta provavelmente vão errar pelo menos uma vez. E o nosso trabalho não é cirurgia de cérebro. Ninguém morreu porque eu analisei a URL errada. Mas mesmo cirurgiões de cérebro erram. Henry Marsh é um cirurgião de cérebro e escreveu um livro. Segue um trecho da resenha do livro dele, que saiu na Folha de São Paulo:

Após 15 horas de cirurgia para retirar um tumor gigante na base do crânio de um paciente, o neurocirurgião sente que entrará no ranking dos melhores médicos do país. Está confiante. A operação vai bem, ele para a cada duas horas para comer e fumar um cigarro. Música, de Bach até Abba, ressoa na sala de cirurgia. Resta um último pedaço do tumor. É arriscado tirá-lo e o correto seria parar, mas os peixes grandes da cirurgia sempre mostram em suas palestras imagens pós-operatórias sem resíduos — então este médico resolve ir em frente.O movimento provoca um esguicho estreito de sangue. O dano é irreversível. O paciente era um professor de quase 60 anos que nunca mais acordou. O médico é o inglês Henry Marsh, que relata com uma crueza espantosa erros como este cometidos por ele durante sua carreira no livro “Sem Causar Mal” (nVersos).

Henry erra, e seus erros matam e deixam gente em coma. E ele é corajoso o suficiente para admitir e escrever sobre. Henry reconhece sua vulnerabilidade e não foge dela.

Como diz a pesquisadora americana Brene Brown:

Vulnerability is the birthplace of innovation, creativity and change.

Nós seres humanos temos a tendência de filtrar sentimentos. Só queremos sentir as coisas boas, não queremos sentir as coisas ruins. Mas, se você começa a filtrar sentimento, daqui a pouco não está sentindo nada. Vai virar um ser blindado, todo preso dentro de si mesmo, querendo controlar o mundo. Não é possível ser seletivo com sentimentos. Se você se fecha para a vulnerabilidade, se fecha também para o imenso leque de experiências humanas disponíveis para nós na vida.

Só tem uma coisa que eu tenho que fazer: o que vim pra esse mundo pra fazer. Tenho que dar o workshop, vir aqui e falar essas coisas hippies pra vocês, escrever sobre agroecologia, ir lá e conseguir dinheiro pro mutirão de castração dos bichos da favela. Tenho que dar o melhor de mim, todos os dias. Brilhar, lacrar, baby. Mas o resultado disso eu não tenho como controlar.

A vida não é controlável.

Mas nem por isso eu vou deixar de fazer o que eu tenho que fazer.

O que eu fiz quando tudo deu errado?

Eu fui sincera e honesta e não fiquei tentando fingir que nada tinha acontecido. Admiti minha vulnerabilidade. E assim consegui angariar um pouco da empatia daquelas pessoas e consertar a situação.

O que mais eu fiz quando tudo deu errado?

Fiz uma palestra e esse texto. Não existe experiência que não sirva pra nada, por mais desagradável que seja.

Veja no vídeo a segunda metade da palestra do WIAD: