O sentimento da derrota

Sempre me assustava nas aulas de História como a ditadora brasileira tinha conseguido se estabelecer tão facilmente em 1964. Não era possível que tanta gente apoiasse um regime que traria tanta repressão, morte e deixaria cicatrizes profundas na sociedade. Não tinha ninguém para falar: gente, vai dar merda e esse não é o caminho? A mesma coisa servia para o Holocausto. Ninguém vislumbrou que era uma ideia totalitária, perigosa, que quebrava a sociedade ao meio e deliberadamente excluía tanta gente em nome da soberania?

Claro que existiam essas pessoas contrárias. Mas então como elas se sentiram ao perceber que era inútil tentar abrir os olhos dos seus compatriotas e era impossível frear o trem? Acho que é mais ou menos como quem se opôs ao golpe se sente hoje.

Não há o indício de que após o impeachment virá uma ditadura (pelo menos por enquanto). Nem mesmo que uma ideia tão assustadora quanto o nazismo vai surgir (e espero mesmo que nunca desemboque aí!). Mas é esse sentimento de que algo essencial foi quebrado em mil pedaços e que a gente vai levar muito tempo pra colar os cacos. É o sentimento de fazer parte de um grupo derrotado, não politicamente (não importa o partido que você defenda), mas na defesa dos pilares que tornam uma sociedade democrática. E, principalmente, é o medo de que o que se consumou hoje possa servir de justificativa para se repetir várias outras vezes.

Não, nós não tínhamos uma democracia madura e à prova de balas. Agora, temos menos ainda. O que sobrou foi apenas um país dividido e nas mãos de um jogo político intenso no qual o que menos importa somos eu, você e todo mundo que conhecemos. Sem falar da insegurança de que, a qualquer hora, esse jogo pode se virar contra cada um de nós.