Conferência Digital Media Latam 2019: Primeiro dia de debates

Hoje, segunda-feira, 11 de Novembro, aconteceu o primeiro dia do evento WAN-IFRA LATAM 2019 no Hotel Grand Hyatt, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Registro aqui as minhas impressões após este dia de questionamentos para o futuro das comunicações.

Organizada pela Associação Mundial de Editores de Notícias (WAN-IFRA), o Digital Media LATAM é a conferência mais importante da região sobre transformação digital da indústria jornalística. É a sétima edição do evento, a primeira no Brasil, com o apoio da ANJ.

Os desafios da transformação estratégica

O painel inaugural foi entre O Globo, representado pelo seu diretor geral de mídia impressa, Fred Kachar; e Jean-Luc Breysse, Vice-CEO do Group Figaro, da França. A pauta era sobre os desafios que os gerentes de mídia enfrentam na realização da transformação estratégica.

Fred Kachar iniciou debatendo as formas de monetização da produção de conteúdo editorial: “No Brasil existe uma barreira de custo com logística para crescer a circulação do impresso. Extrapolar essa fronteira, economicamente, é muito difícil”, explica Fred.

O Grupo Globo tem em torno de 60 milhões de visitantes mensais, sendo que 1/3 já estão cadastrados para acessar a barreira Paywall. A aposta de Fred Kachar é no crescimento das assinaturas digitais para substituir a publicidade tradicional dos veículos impressos.

Para tal, a orientação é produzir o conteúdo para captar assinantes. Fred relata que o Grupo Globo produzia 8.000 matérias por mês e hoje fazem 6.000; entretanto, a audiência subiu.

A meta é “ter uma redação 100% financiada por assinaturas digitais”. Para o diretor do Grupo Globo, esse é um “indicador de sustentabilidade financeira para a empresa”. Fred Kachar ressalva que “toda essa transformação é sem negligenciar o impresso”.

O jornal Le Figaro foi criado na França, em meados de 1820. Jean-Luc trouxe toda essa bagagem para o debate, alertando que a transformação digital não acontece do dia para a noite. Hoje, o Grupo Figaro só está atrás de Google, Facebook e Microsoft em audiência.

Os pilares para essa mudança, segundo Jean-Luc Bressye, foram: investimento na excelência editorial, adaptação, extensão da marca e estratégia diversificada. Em 5 anos, o Grupo Figaro opera além da mídia tradicional e tem mais de 130 mil assinantes digitais.

Andiara Petterle, VP de produtos e operações do Grupo RBS, questionou Jean-Luc Breysse sobre o que podemos aprender com o que está acontecendo na França, com o Google, em relação a reprodução de conteúdo sem compartilhar as receitas com os produtores.

Jean-Luc foi categórico, explicando que o Google abusa de seu monopólio, toma decisões unilaterais, se recusa a pagar o justo e ainda ameaça reduzir a visibilidade dos resultados para quem não aceita suas políticas de dominação do tráfego gerado na rede.

A pergunta de Andiara, mediadora da mesa, para Fred Kachar foi sobre como o Grupo Globo reage aos ataques do governo brasileiro. “We keep doing our job”, respondeu Fred; emendou dizendo que a empresa busca a verdade e publica uma diversidade de opiniões.

O Futuro Digital para os grandes veículos do Brasil

O segundo painel do dia discutiu as estratégias para análise de dados da audiência. Camila Marques, editoria de digital e audiência da Folha, Irineu Machado, gerente de notícias do UOL e Maria Fernanda Delmas, editora executiva da Editora Globo formaram a mesa.

Os questionamentos passaram por como é definido se o conteúdo é de qualidade? E como medir se está alcançando o esperado ou se não tem sucesso? Irineu Machado disse que analisar a repercussão qualitativa, não somente a quantitativa, é fundamental

Antes, no mundo impresso, o comportamento do leitor era estudado no achismo; agora, no mundo digital, é a partir das ferramentas, relatórios e métricas. É possível saber até onde o leitor está lendo. A conclusão do debate é da Maria Fernanda Delmas:

No mesmo momento, André Furlanetto, diretor de marketing do jornal A Gazeta, do Espírito Santo, apresentou o painel “Do papel ao digital, mantendo a relevância e a influência com os leitores”. André mostrou tecnologias para ganhar audiência no site, tais como AMP e PWA.

Josh Schwartz, chefe de engenharia, produto e ciência de dados da empresa Chartbeat, complementou o debate com dados estatísticos e tendências globais das audiências digitais. Josh investiga como o engajamento dos leitores tem se transformado nos últimos anos.

Josh Schwartz também relatou que os agregadores de notícias são cada vez mais relevantes para levar tráfego aos sites de notícias. Porém, ainda não são representativos na conversão de audiência em assinaturas, por isso é preciso adaptações para atender os novos canais.

Os programas do Google para promover o ecossistema

Já era esperado para hoje o anúncio dos vencedores do primeiro Innovation Challenge do Google News Initiative. Coube a Luiz Henrique Matos, chefe de parcerias globais do Google no Brasil, anunciar as empresas que receberão aporte financeiro e mentoria.

Foram 30 os projetos selecionados na América Latina, dos quais 10 são brasileiros. Os enfoques são diversos, desde a utilização de dados e inteligência artificial, até o financiamento de novas plataformas de produção de vídeo e distribuição.

A partir disso, Luiz Henrique também pode defender o Google das críticas recebidas, compartilhando números impressionantes da gigante da tecnologia. São 24 bilhões de cliques gerados pela busca do Google todos os meses para sites de notícias.

Luiz Henrique também apresentou programas que o Google oferece, tal como o Google Subscription Lab, uma consultoria para parceiros “que já tenham modelos de assinaturas lançados e gostariam de uma melhor compreensão de como aprimorar a oferta de produtos”.

O modelo de anunciantes versus assinantes

Luiz Henrique passou o bastão para Arun Venkataraman, líder de estratégia global do GNI, que, junto de Camila Marques da Folha, Juan Pardinas — diretor editorial da Reforma (México) e Paula Miraglia — Nexo Jornal, compuseram a nova mesa de discussão.

A pauta seguiu abordando os novos modelos para o financiamento do jornalismo nos meios digitais. A Folha de São Paulo implementou o modelo Paywall em 2012; A editora de digital e audiência, Camila Marques, revelou que já captaram mais de 235 mil assinaturas.

Juan Pardinas conta que o jornal a Reforma teve um paywall destemido durante 16 anos. Só os assinantes podiam ver o conteúdo. Agora, na contramão dos brasileiros, Pardinas pensa que está na hora de mudar e vão abrir pela primeira vez parte do conteúdo gratuitamente.

O Nexo Jornal nasceu fora do modelo tradicional de publicidade, focando o conteúdo para a conversão de assinantes. Paula Miraglia acredita que as pessoas ainda não estão dispostas a pagar por conteúdo e busca entender o que as motivaram a assinar o Nexo.

O próximo conferencista foi François Bonnet, diretor editorial do Mediapart, da França. Alcançou 170 mil assinantes, representando 95% do seu faturamento anual. O site não conta com nenhum tipo de publicidade e apresentou lucros nos últimos oito anos consecutivos.

François revelou que o Mediapart não tem subsídios privados nem estatais e trabalha somente com o modelo Paywall. Os três primeiros anos da empresa fecharam no prejuízo. Hoje o faturamento com assinantes chega na casa de 16 milhões de euros anuais.

40 anos de ANJ e reconhecimentos

A renomada Miriam Leitão, jornalista e colunista do O Globo, conduziu a celebração de aniversário da ANJ — Associação Nacional dos Jornais, fundada em 1979, e a cerimônia de entrega do Prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa, para o ministro do STF Celso de Mello.

Miriam lembrou dos fatores que a levaram a receber o prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa em 2017, quando sofreu intolerância de militantes partidários. Dedicou o prêmio a todos os colegas da imprensa que tiveram suas liberdades de manifestação impedidas.

Não faltou menção à dois jornalistas que faleceram recentemente. Miriam se emocionou ao homenager Clóvis Rossi, decano da Folha, e Ricardo Boechat, lembrado de forma muito saudosa por ela. Destacou sua frase célebre: “Pessoas com medo não mudam o país”.

O VP da ANJ, Francisco Mesquita Neto, exaltou a premiação do ministro Celso de Mello: “São 30 anos de decisões inequívocas em defesa do jornalismo, como quando disse que qualquer tipo de censura é ilegítima, mesmo se ordenada pelo poder judiciário”.

“Nada mais nocivo, nada mais perigoso do que a pretensão do Estado de regular a liberdade de expressão, pois o pensamento há de ser livre, permanentemente livre, essencialmente livre”, afirmou, em uma de suas sentenças históricas, o ministro Celso de Mello.

O presidente da WAN-IFRA, Fernando Madrazo, concluiu: “O que podemos fazer é usar nossa ferramenta profissional, que é a palavra, para denunciar as violências e as violações das liberdades de expressão. A censura, com formas novas ou antigas, está retornando”.

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Programação e design para sistemas, aplicativos e projetos digitais.

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Fernando Bombassaro

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Porto Alegre/RS — Brasil. Coder. Entrepreneur

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