A produção não pode parar

Alvo do bombardeio das Forças Armadas da Ucrânia e dos rebeldes separatistas, a maior coqueria da Europa resiste graças à tenacidade e à coragem dos empregados que passaram a viver na fábrica com as famílias para salvar os altos-fornos

Yan Boechat, textos e fotos, de Avdiivka, Ucrânia

Reportagem publicada originalmente na revista Istoé Dinheiro, em maio de 2015

A espessa coluna de fumaça branca que sai compassada das chaminés, a cada cinco ou sete minutos, é o sinal de que, a despeito de todas as probabilidades, a coqueria de Avdiivka continua viva e operando. Maior unidade de produção de coque da Europa, com uma capacidade de 12 mil toneladas por dia, Avdiivka está no epicentro da guerra-civil que devasta o Leste da Ucrânia há um ano e já deixou mais de seis mil mortos, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Apesar de não ser disputada por nenhum dos dois lados, a planta, uma típica obra faraônica soviética do auge da Guerra Fria, acabou caindo exatamente na linha que divide os territórios ocupados pelas Forças Armadas Ucranianas e os do exército rebelde apoiado pela Rússia, que luta pela independência de duas províncias do Leste do País. Desde que a guerra começou para valer nessa região da Ucrânia, em julho do ano passado, Avdiivka já recebeu 165 disparos diretos de artilharia. Foram tiros de morteiros de médio e grosso calibre, mísseis grad ou mesmo granadas lançadas por dispositivos descartáveis, muito comuns por aqui.

Por sorte, e por conta das estruturas construídas para suportar ataques nucleares, apenas cinco operários perderam a vida na fábrica, que emprega três mil trabalhadores, desde que as batalhas começaram. “Nós ainda não entendemos ao certo como continuamos aqui, foram tantos tiros, tantas bombas que caíram a poucos centímetros de tubulações de gás que poderiam colocar tudo pelos ares, tantos incêndios, tanta destruição”, diz Musa Magomedov, um azeri, como são conhecidos os naturais do Azerbaijão, de 45 anos, que dirige a planta de Avdviivka nesses tempos turbulentos.

“Nós somos como tubarões, não podemos parar nunca. Um alto-forno só pode ser desligado uma vez e sabemos que se não ficarmos, será o fim desta fábrica.” Construída para abastecer a crescente indústria siderúrgica soviética do leste ucraniano do início da década de 1960, Avdiivka se transformou ao longo dos anos na maior produtora europeia de coque. Produzido por meio do aquecimento do carvão mineral, o coque é combustível fundamental na fabricação do ferro gusa, elemento básico na indústria siderúrgica. Assim como o próprio ferro gusa, o coque é obtido a partir de um processo de aquecimento em uma câmara hermética, conhecida como alto-forno e que, por características próprias, não pode ter sua temperatura reduzida abaixo dos 800° centígrados.

Se ficar em níveis inferiores, a estrutura entra em colapso. “Cada bateria de alto-forno tem um investimento de mais de US$ 150 milhões”, diz Magomedov. “Se abandonarmos a fábrica, como já quase o fizemos algumas vezes, estará tudo acabado, não haverá mais emprego para ninguém.” Ele, como a maior parte dos três mil homens e mulheres que trabalham atualmente na unidade, vivia, até poucos meses atrás, em uma pequena cidade que deu nome à fábrica. Avdiivka nasceu como muitas das pequenas cidades dessa região na fronteira com a Rússia, que só passou a ser habitada na segunda metade do século 19 com a descoberta de vastos reservatórios de carvão mineral.

Antes disso, lar apenas de algumas poucas tribos cossacas, o Donbas, como toda essa vasta área de planície é conhecida, passou por um intenso período de colonização após a Revolução de 1917. Soviéticos — em sua maioria russos — de toda a URSS foram levados para lá para trabalhar nas minas, nas siderúrgicas e nas plantas de produção intermediária, como a de coque. Ao longo dos últimos 50 anos, praticamente todos que trabalhavam em Avdiivka, moravam na cidade, que chegou a abrigar 35 mil habitantes, antes do conflito. Distante pouco mais de 10 quilômetros do Aeroporto de Donetsk, um dos objetivos estratégicos mais cobiçados dessa guerra, a pequena cidade transformou-se apenas em um monte de escombros.

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Hoje já não há praticamente nenhum civil vivendo ali. Os prédios que não foram destruídos na ofensiva rebelde do último inverno se transformaram em refúgio para os milhares de soldados das Forças Armadas Ucranianas que tentam manter a pequena cidade sob o controle do governo. Para não deixar que a fábrica parasse de funcionar, Magovedov teve de tomar uma decisão drástica: abriu as portas — e os porões — da imensa unidade para que os funcionários e seus familiares se mudassem para lá. Ele mesmo teve de abandonar seu apartamento construído no melhor estilo realismo socialista para viver em um dos abrigos nucleares construídos no subsolo da planta.

Hoje, cerca de duas mil pessoas, entre funcionários e suas famílias, estão espremidas em abrigos, nos escritórios vazios ou mesmo nos porões usados para manter caldeiras de aquecimento de água. Vivendo em meio a uma profunda crise econômica desde o início da guerra, ter um local para viver, comer e trabalhar parece ser uma opção boa o bastante para boa parte dos operários na Ucrânia. “Não há mais nada, só guerra. Prefiro ficar aqui, trabalhando com as bombas passando sobre minha cabeça do que enfiado em uma trincheira matando meus irmãos”, diz um operário que prefere não se identificar e que se mudou para a fábrica com sua mulher e dois filhos pequenos.

Entrar em um dos diversos edifícios da fábrica é sempre uma surpresa. Nos escritórios, planilhas de produção se misturam a gaiolas com passarinhos, itens de higiene pessoal e pequenas TVs. Volta e meia, um grupo de crianças passa correndo por alguma escada. “É uma situação impensável, algo que nunca imaginamos que poderia acontecer, mas o que vamos fazer, assim é a vida em tempos de guerra”, conta Andrey Dergachov, de 47 anos, diretor do departamento de controle de qualidade de carvão, enquanto brinca com uma menina de 7 anos que passa por um dos escritórios, escondendo-se de uma colega.

Dergachov também vivia em Avdiivka. Em dezembro, no entanto, seu prédio foi atingido diretamente por morteiros e ele decidiu que era hora de partir. Para o seu escritório levou o filho de 27 anos, também operário da fábrica, a mulher, e uma filha de apenas 10 anos. “Não gosto dos porões, optei por ficar em cima e eu e meu filho conseguimos alguns sacos de areia para proteger as janelas dos estilhaços”, diz ele, sem esconder a tristeza no sorriso aberto. Desde fevereiro, Dergachov conseguiu enviar a filha e a mulher para uma espécie de centro de refugiados em Dnipropetrovsk, uma das principais cidades da região, sob controle do governo ucraniano.

Ele teve sorte em conseguir tirar a filha do ambiente agressivo de Avdiivka. Os emaranhados de tubulações de metal, chaminés expelindo fumaça de uma multiplicidade assustadora de tons de cinza e o cheiro forte de betume parecem amplificar o som da artilharia incessante. No dia em que a reportagem da DINHEIRO esteve em Avdiivka, em março passado, os disparos de ambos os lados eram intensos e contínuos. Em alguns momentos, as bombas pareciam estar caindo a poucas centenas de metros da fábrica. “O som está alto, mas assim é melhor”, diz Dergachov. “O problema é quando não se escuta o som, apenas se sente o impacto. Acho que estamos seguros hoje.”

Maria Korelchuk, de 30 anos, não conta com a mesma sorte do diretor de controle de qualidade. Operária da fábrica, ao lado do marido, ela não teve outra opção que não fosse levar os três filhos para viver no porão de um dos edifícios administrativos. “Em novembro já não havia mais aquecimento em nosso apartamento e nos mudamos para a casa de amigos”, diz ela, também moradora da cidade de Avdiivka. “Poucas semanas depois, descobrimos que os soldados tomaram nosso apartamento e que já não há mais nada lá”.

Maria montou sua casa improvisada ao lado de uma caldeira empregada para aquecer a água para o banho dos operários. Ela divide o local com outras 20 famílias, quase todas com crianças. “Uma vez por semana nós ligamos para os professores deles, que se mudaram para outras cidades”, diz, ladeada pelos filhos. “Eles nos passam algumas atividades e nós damos aulas para elas, mas não é a mesma coisa, sabemos.” Em situação tão precária, Avdiivka é apenas uma sombra do que foi no passado recente.

Desde que foi adquirida pelo oligarca ucraniano Rinat Akhmetov no processo de privatização que seguiu ao desmantelamento da União Soviética, no início dos anos 1990, a fábrica ampliou sua capacidade de produção e permitiu que a Metinvest, o conglomerado siderúrgico criado por Akhmetov, se expandisse de forma acelerada. “Mas agora as minas de carvão estão do outro lado do front, junto aos rebeldes, e o acesso ferroviário até as siderúrgicas é intermitente”, diz Alexey Bobyr, diretor do departamento de produção da fábrica.

“Dos nove altos-fornos que temos, apenas cinco estão em operação e estamos produzindo apenas cinco mil toneladas por dia”, afirma. Avdiivka, como não poderia deixar de ser, está perdendo dinheiro. A companhia teve um prejuízo de US$ 33 milhões em 2014. “Mas podemos dizer que foi um ano bom, pois ao menos a fábrica continua operando e, continuamos vivos”, diz Magomedov, o chefão da coqueria. “Não sei até quando vamos continuar aqui, até quando esta fábrica vai continuar operando. Vamos vivendo dia após dia, esperando que a paz volte para cá”.


Yan Boechat

Yan Boechat é jornalista profissional há quase 20 anos. Trabalhou e colabora para diferentes jornais, revistas e sites da grande imprensa brasileira. É também fotógrafo e atua na cobertura de conflitos em diferentes países do mundo.

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Yan Boechat

Yan Boechat é jornalista profissional há quase 20 anos. Trabalhou e colabora para diferentes jornais, revistas e sites da grande imprensa brasileira. É também fotógrafo e atua na cobertura de conflitos em diferentes países do mundo.