O último a desafiar Kibomango morreu no ringue

Como um dos boxeadores mais temidos da República Democrática do Congo se prepara para uma luta inglória: conseguir vaga para as Olimpíadas do Rio 2016

Yan Boechat

Yan Boechat, textos e fotos

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Kibomango chegou suado. Subiu as escadas num trote rápido, pulando de dois em dois degraus. A cada salto, um soco no ar, como se estivesse atingindo um saco de areia imaginário. O capuz do robe vermelho — de um tecido sintético que fazia as vezes de seda — deixava seu rosto encoberto enquanto simulava jabs, diretos e cruzados no começo da manhã de um domingo quente e úmido de abril. Ao redor, crianças observavam, entre inebriadas e entediadas, a coreografia típica dos boxeadores que se preparam para subir em um ringue. À sua frente, um grupo de seis rapazes fazia os preparativos finais para iniciar uma sessão de quase duas horas de treino pesado. Uns corriam, outros pulavam corda, alguns tentavam aprimorar a esquiva.

Com um grito em swahili, a língua da etnia bantu falada por mais de 50 milhões de pessoas nesta parte da África Central, Kibomango fez tudo parar à sua volta. Crianças, atletas e visitantes ocasionais ficaram em silêncio. Enquanto ensaiava um discurso de incentivo a seus pupilos, o boxeador de 37 anos começou a tirar o robe vermelho, que trazia na parte de trás, em amarelo, a inscrição “Italian Stallion”. Sob o manto que lhe empresta a aura de um campeão prestes a ser iluminado pelos holofotes de algum cassino de Las Vegas, veste sapatilhas vermelhas, um short que parece ter sido confeccionado com a bandeira americana e uma camiseta regata branca cavada, bastante usada, com furos por todas as partes.

Kibomango em seu ginásio a céu aberto em Goma

Tanta marra tem sua razão. Kibomango é o boxeador mais respeitado e temido do leste da República Democrática do Congo, o antigo Zaire, um país assolado por uma guerra brutal que já deixou quase seis milhões de mortos nas últimas duas décadas. Por ali corre a lenda de que o último lutador a desafiá-lo morreu no ringue, no nono assalto de uma luta dura, após uma sequência de golpes no melhor estilo Mike Tyson. “Foi uma fatalidade, ele era meu amigo, mas eu sou duro como o Tyson, e ele não resistiu”, contou o lutador à beira de um campo de futebol feito de uma espécie de areia extraída dos campos de lava nas proximidades de Goma, a principal cidade do leste do Congo, na fronteira com Ruanda. “Ele é o campeão, o maior lutador do Congo, talvez o maior lutador da África”, diz Roubert Ndongo, uma espécie de agente/secretário do lutador, que observava com aprovação os elogios.

Kibomango, que tem como nome de batismo Balezi Bagunda, carrega no corpo as lembranças dos tempos em que viveu como soldado no maior conflito armado do mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. No peito, nas costas e nas mãos estão as marcas de cortes que nunca receberam pontos e cicatrizaram pela insistência regenerativa da pele. No rosto, é fácil perceber que as dilacerações jamais foram tratadas por médicos preocupados com a estética. O globo ocular esquerdo foi vítima dos estilhaços de uma granada de mão e se perdeu em um campo de batalha perto de Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo. As pálpebras que restaram — ou parte delas — parecem ter se unido de forma indefinida e, aos desatentos, dão a impressão de que ele está sempre piscando, pronto para abrir o olho que já não existe mais.

Kibomango treina com seus pupilos quase todos os dias

Ele se diz campeão de todo o Congo, apesar das poucas provas de que isso seja verdade ou de que haja um campeonato nacional reconhecido. Agora, diz ele, quer ser campeão olímpico. Treina seis vezes por semana, duas horas por dia, pensando no Rio e em Las Vegas. Enquanto isso não acontece, tem dedicado a vida a evitar que jovens congoleses sejam seduzidos pelas promessas de dinheiro, mulheres e aventura que os quase 30 grupos armados que atuam nessa região do centro da África oferecem diariamente nas ruas de Goma. Em uma guerra tão longa e com tantas baixas, é fundamental para os grupos armados recrutarem soldados. Quando não conseguem novos adeptos, simplesmente raptam crianças nos vilarejos e as obrigam a lutar com um AK-47 nas mãos.

Hoje em dia Kibomango dirige uma espécie de clube amador de boxe na cidade, voltado exclusivamente para meninos ex-soldados, um problema crônico no Congo, e jovens rapazes que queiram se dedicar ao que ele, como muitos boxeadores, chama de a nobre arte. Não cobra nada por isso, apenas a dedicação dos jovens atletas. Todos, como ele, precisam estar às seis horas da manhã em ponto em uma decrépita tribuna de honra do estádio de futebol local. Essas são as regras do Club de L’Amitie — ou Clube da Amizade, em francês. “Só exijo dedicação. Não quero que essas crianças vivam a guerra, não há nada pior que a guerra. Aqui, ao menos, elas têm uma chance de aprender algo, de se sentirem alguém”, diz ele.

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Fabrice Djeff não gosta de dizer a idade que tem. Mas às vezes esquece disso. Ele foi capturado aos 12 anos de idade em um vilarejo próximo a Goma por um grupo armado que atua nas montanhas do Kivu do Norte, a província que concentra boa parte dos conflitos que ajudaram o Congo a ser o dono do pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo, de acordo com a ONU. Passou dois anos na mata, ora enfrentando as forças do Exército congolês, ora atacando vilarejos como aquele em que passou a infância, ora defendendo-se de grupos rebeldes rivais. “Isso faz muito tempo, tento não lembrar daqueles dias”, diz ele, que garante ter completado 21 anos há poucos dias, apesar da aparência de um homem de quase 30. Como quase todos os kadogos, o termo local para crianças soldados, Djeff não gosta de relatar o que viu e viveu nos seus tempos de soldado. A guerra do Congo é marcada não só pelo absurdo número de vítimas, mas também, e principalmente, pelas barbáries perpetradas tanto pelos rebeldes quanto pelas forças do governo. Estupros generalizados e assassinatos coletivos se tornaram rotina nessa região. “A única coisa que lembro é que aquilo não é vida para um ser humano”, diz Djeff.

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“A única coisa que lembro é que aquilo não é vida para um ser humano”

Espremida entre o lago Kivu e o vulcão Nyiragongo, Goma é uma cidade construída sobre os rios de lava petrificada que cobrem a vasta planície que divide a República Democrática do Congo e Ruanda. As ruas são escuras, assim como as calçadas, as casas e tudo o mais que é feito das pedras vulcânicas e uma espécie de areia preta extraída das áreas próximas ao vulcão. Aos domingos, logo nas primeiras horas da manhã, centenas de jovens, adultos e senhores tomam conta das ruas esburacadas, das quadras improvisadas, dos terrenos baldios, para se exercitar. Correm, pulam, agacham e se contorcem em estranhos alongamentos. Nem os guardadores de carros armados com fuzis AK-47 ou as pequenas caminhonetes equipadas com metralhadoras 0.50 mm que circulam pelas vielas estreitas conseguem dissipar a imagem bucólica dessas manhãs de domingo no coração da África. Por alguma razão, todo o horror da guerra que já matou quase seis milhões de pessoas nessa região parece dar lugar aos sonhos improváveis de todas essas pessoas que acordaram antes dos primeiros raios de sol para treinar boxe sobre a lava escura que cobre Goma.

Desde que o antigo ditador congolês Mobuto Sese Seko organizou a histórica luta entre Mohamad Ali e George Foreman em Kinshasa, a capital do então Zaire, em 1974, o boxe se transformou em uma febre nacional. Pela primeira vez o país africano criado sob os desígnios do rei belga Leopoldo II era palco de um evento que não envolvia morte, torturas ou a barbárie. Pela primeira vez em sua história os congoleses tinham diante de si homens negros que eram astros mundiais. Ali, o vencedor daquela luta épica, tornou-se uma espécie de modelo a ser seguido pelos homens do Congo. Mesmo aqueles que não sonham em se tornar boxeadores vão para as ruas treinar nas manhãs de domingo, repetindo os gestos de Ali nos filmes que divulgavam a luta. “Ele é um modelo para mim e deveria ser um modelo para todos”, gosta de dizer Kibomango.

Apesar da reverência ao ídolo que protagonizou a maior luta de boxe da história, Kibomango busca aperfeiçoar sua técnica para se tornar um lutador tão letal quanto Mike Tyson. Treina insistentemente a velocidade e parece cultivar uma raiva que está sempre contida, mas pronta para explodir. Nos primeiros contatos que fez com a reportagem da 2016, não quis dar entrevistas e nem ao menos ser fotografado. Só após ser convencido — com a mostra de passaporte — de que se tratava de uma revista brasileira, aceitou ser entrevistado. “As pessoas vêm de fora e querem me fotografar porque não tenho um olho, porque os kadogos estão aqui, mas nunca, nunca querem nos ajudar”, tentava se explicar. “Não temos nada, nem luvas, nem protetores, nem sacos de areia decentes. A única coisa que temos nós ganhamos dos brasileiros”, diz.

Kibomango esteve no Brasil há alguns anos a convite da ONG Luta da Paz, que promove o ensino do boxe para crianças carentes na favela da Maré, no Rio de Janeiro. Fundador da organização, o ex-boxeador inglês Luke Dowdney, ouviu a história de Kibomango e o convidou a lutar no País. “Foi especial. Eles nos deram equipamentos, luvas, protetores e faixas”, afirma o congolês. “Temos muito pouco e precisamos de muito mais, mas tudo que temos foram os brasileiros que deram.” A meta agora é voltar ao Rio para disputar a Olimpíada de 2016. Ele sabe que é uma tarefa difícil. “Mas continuaremos treinando todos os dias”, diz.

Yan Boechat

Yan Boechat é jornalista profissional há quase 20 anos. Trabalhou e colabora para diferentes jornais, revistas e sites da grande imprensa brasileira. É também fotógrafo e atua na cobertura de conflitos em diferentes países do mundo.

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    Yan Boechat é jornalista profissional há quase 20 anos. Trabalhou e colabora para diferentes jornais, revistas e sites da grande imprensa brasileira. É também fotógrafo e atua na cobertura de conflitos em diferentes países do mundo.