Venezuela, uma rotina de privações

Venezuelanos enfrentam filas longas para comprar produtos básicos e crianças desmaiam na sala de aula por má alimentação

Textos e fotos, Yan Boechat, de Caracas

Publicado originalmente no Valor Econômico em agosto de 2016

O rapaz alto de cabelos loiros escorridos e camisa com as cores da bandeira venezuelana aproximou-se sem muita discrição. Sorriso aberto e caminhar solto, passou perguntando: “O que quer, amigo? Arroz, açúcar, farinha?”. Antes de ouvir a resposta, afastou-se. Voltou e ouviu o pedido. “Um tubo de pasta de dentes. Grande.” Sumiu novamente e, como havia chegado, retornou: mesmo sorriso aberto, mesmo caminhar solto. Parou, levantou a camisa larga tricolor e tirou de dentro do calção azul um tubo de 150g de creme dental, ainda na embalagem de papelão, mas já um pouco amassada. Contou ali mesmo as 15 notas de 100 bolívares que recebeu e, antes de partir, entregou uma sacola plástica ao cliente. Pela etiqueta do mercado negro venezuelano, não fica bem andar pelas ruas com um tubo de pasta de dentes nas mãos, sem embrulho. O artigo anda escasso na Venezuela e naquela tarde quente e ensolarada certamente chamaria atenção na feira livre de Cátia, um dos maiores complexos de favelas da América Latina, com cerca de meio milhão de habitantes.

Depois de percorrer uma longa cadeia de ações ilegais, a pasta de dentes finalmente encontrou seu destino nas mãos de Nelson Alvarez, motorista particular de Caracas que, aos 43 anos, já é avô. Para manter a higiene bucal da família em dia, Alvarez aceitou pagar um ágio de quase 1.000% sobre o preço tabelado do creme dental. De acordo com as estritas regras de controle de preços impostas no país, ninguém na Venezuela pode vender um tubo de pasta de dentes de 150 g por mais do que exatos 158,98 bolívares, algo como US$ 0,15. “A esse preço é impossível, não se encontra em lugar algum. O jeito é vir aqui e comprar com os ‘bachaqueros’. Parece que estamos comprando drogas, mas é só pasta de dentes mesmo”, diz Alvarez.

Grupo de mulheres em uma comunidade que mantém apoio ao Chávismo

Desde que a crise venezuelana passou a ganhar contornos de tragédia cubana pós-débâcle soviético, os “bachaqueros” se transformaram em figura central da economia do país. Batizados em referência a uma saúva muito comum na região de fronteira com a Colômbia, eles são os responsáveis por suprir o mercado negro com os itens básicos que estão em falta. Com eles é possível encontrar de tudo: desde o simples e básico papel higiênico, passando pelo desejado açúcar, até a marca de ketchup americana adorada pelos venezuelanos, hoje artigo de puro luxo. São os “bachaqueros” que também escancaram a hiperinflação que assola a economia venezuelana há quase um ano e que o governo finge não ver. Para este ano ela está estimada em mais de 700% pelas contas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Por isso, raramente é possível encontrar um dos 160 produtos que têm os preços regulados pelo governo com ágio inferior a 1.000%.

Os “bachaqueros” não são figura nova na Venezuela. Desde que Hugo Chávez (1954–2013) assumiu o poder em 1999 e adotou uma controvertida política de controle de preços, eles têm feito parte do cotidiano venezuelano. Primeiro das classes mais abastadas, que encontravam no mercado negro uma saída eficaz para driblar o desabastecimento eventual de alguns produtos. Mas, desde que a crise começou a se agravar após a morte de Chávez e o início do declínio dos preços do petróleo nos anos seguintes, eles passaram a ganhar cada vez mais espaço na economia do país.

Neste ano assumiram papel protagonista e simbólico de um ambiente econômico absolutamente desequilibrado. Na Venezuela de hoje compra-se 200 litros de gasolina com o mesmo valor usado para se adquirir uma garrafa de meio litro de água mineral em um camelô do centro de Caracas, algo como US$ 0,20. Nessa mesma Venezuela, com um salário mínimo compra-se menos do que 5 kg de açúcar. Ou dez tubos de pasta de dentes de 150 ml.

Supermercado de Caracas estão constantemente com as prateleiras vazias

Não é simples entender como o país com a maior reserva de petróleo do mundo possa estar se aproximando perigosamente de uma catástrofe humanitária por falta de alimentos e remédios. E as respostas não se encontram simplesmente em um modelo econômico que afastou o capital externo, tratou de regular todos os passos do processo produtivo e deu pouca importância ao controle da inflação e das contas públicas. Trata-se de uma conjunção de fatores que tem na origem a fartura petrolífera venezuelana que, ao longo do último século, fez com que o país vivesse momentos de extrema abundância e crises profundas.

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A indústria petroleira venezuelana comemorou um século em 2014. Passou a florescer com vigor a partir do fim da Primeira Guerra. Com uma vasta reserva de fácil acesso, já em 1928 o país havia se tornado o terceiro maior produtor — atrás apenas dos Estados Unidos e da União Soviética — e o maior exportador de petróleo do mundo. Em 1935, quase 92% de suas exportações estavam concentradas na indústria petroleira. Rapidamente a produção agrícola começou a cair e o país perdeu o passo na primeira onda de industrialização da América Latina. Os anos 40 não haviam chegado e a Venezuela já vivia seu primeiro caso clássico da chamada “doença holandesa”, ao concentrar toda a receita em moeda forte na exportação de commodities sem fortalecer o parque manufatureiro.

Ao longo do último século, a história venezuelana se repete como uma trágica farsa. Governo após governo, crise após crise, bonança após bonança, a Venezuela jamais foi capaz de encontrar um caminho que a libertasse da dependência absoluta do petróleo. Jamais foi capaz de criar uma indústria que pudesse viver sem subsídios ou uma agricultura forte o bastante para tornar o país autossuficiente. “Estamos vendo agora exatamente o que vimos ao longo do século XX. É um crise típica do século passado, não há novidade”, diz o economista venezuelano Victor Alvarez. Ex-ministro das Indústrias Básicas e Minerais no segundo governo de Chávez, Alvarez tornou-se um crítico ácido das políticas econômicas chavistas. “Continuamos um país rentista, exatamente como éramos antes, sem diferença alguma.”

Maduro conta com o apoio das Forças Armadas

A Venezuela de 2016 lembra muito aquela Venezuela de 1935. Cerca de 95% das exportações do país estão concentradas na venda de petróleo. Historicamente frágil, o setor produtivo foi massacrado por políticas anacrônicas adotadas por Chávez, como o controle de preços e o controle cambial. Num misto de paranoia e populismo, Chávez iniciou também um processo de expropriação de empresas privadas em 2006, que afastou de vez os investidores internacionais, afugentou o investidor interno e reduziu a produtividade industrial de forma dramática. O setor agrícola também foi duramente atingido pelas políticas erráticas de desapropriação de terras. Em 2014 a Venezuela precisava importar mais de 50% do milho que consome, cerca de 30% do arroz, 30% da proteína animal, 100% do trigo e, mesmo com uma costa de 2,8 mil km, importava mais de 40% dos peixes e frutos do mar.

Dados estatísticos na Venezuela são motivo de ampla discussão e muita polêmica. Entre economistas e consultorias venezuelanas há consenso de que o país importa hoje algo entre 70% e 80% do que consome. O governo, por sua vez, garante que essa fatia não passa de 35%. A consultoria Datanálisis estima que haja escassez de 80% dos produtos básicos. “A situação atual é o resultado de um modelo que perdeu sua capacidade de gerar prosperidade e que está preso a políticas de controles que geraram todos os tipos de incentivos para a criação de mercados negros”, diz o economista Carlos Miguel Alvarez, analista sênior da consultoria Ecoanalítica.

Consumidores só podem comprar produtos básicos e regulados em dias específicos

Como boa parte dos críticos ao modelo chavista, ele prefere não atribuir ao petróleo todas as mazelas da economia venezuelana. “É fundamental entender que a queda dos preços do petróleo só fez a situação pior, mas não foi a causa principal. O que realmente fez o país chegar a essa situação foram as políticas de controle de preços, o câmbio fixo, a intervenção estatal em toda a economia e aversão absoluta ao investidor, seja ele estrangeiro ou nacional.”

Com o petróleo registrando mínimas históricas em 2015 e neste ano, além de uma redução contínua na produção por falta de investimentos na Petróleos de Venezuela (PDVSA), a empresa estatal que se dedica a exploração, produção, refino, comercialização e transporte de petróleo, o país simplesmente ficou sem caixa para o que há de mais básico: importar comida para abastecer o mercado. Para honrar os compromissos internos, o governo passou a emitir papel-moeda, o que fez com que a inflação cruzasse os três dígitos sem cerimônia alguma. Para 2017, o FMI estima que o aumento de preços deva superar os 1.500%.

Com taxas de inflação aproximando-se dos quatro dígitos, o bolívar já não vale quase nada

Com pouca produção interna de alimentos e bens de consumo básicos e sem moeda forte, a Venezuela corre o risco de entrar em colapso até o fim do ano, quando precisa pagar cerca de US$ 8 bilhões de juros de dívida externa de US$ 120 bilhões. Com menos de US$ 12 bilhões em reservas, precisa encontrar um caminho para conseguir financiar a importação de alimentos para não perder o controle das ruas. As saídas são todas traumáticas, ao menos para os chavistas: FMI, default ou entregar ainda mais petróleo aos chineses, detentores de aproximadamente 50% da dívida externa do país. A título de comparação, o Brasil hoje conta com mais de US$ 375 bilhões em reservas e a Argentina, cerca de US$ 25 bilhões.

O resultado dessa tempestade perfeita são as cenas que marcam a Venezuela hoje: supermercados desabastecidos, filas imensas em busca de produtos a preços subsidiados e os indefectíveis “bachaqueros”, prontos para suprir qualquer demanda. Os saques já começam a se tornar rotina e o contrabando de produtos vendidos a preços irreais, como a gasolina ou os alimentos a preços controlados, para os países vizinhos, em especial a Colômbia, torna a situação ainda mais complicada. As dificuldades para se conseguir alimentos romperam as fronteiras sociais e atingem praticamente toda a população do país.

A funcionária pública aposentada Anita Tápias, de 62 anos, é um exemplo desse processo de empobrecimento agudo. Até a hiperinflação corroer seu salário, conseguia praticamente tudo do que precisava recorrendo aos “bachaqueros”. Mas, desde o início do ano, as coisas mudaram. “Simplesmente não temos mais a quantidade de comida que tínhamos antes”, conta. “É algo absolutamente inusitado, jamais, nem nos nossos piores pesadelos, imaginamos que chegaríamos a uma situação como essa. Eu já perdi 10 kg neste ano.”

A aposentada Anita Tápias, de 62 anos, diz que já perdeu 10 kg em 2016: “Simplesmente não temos mais a quantidade de comida que tínhamos antes”

Hoje os rendimentos que tem com o marido, o também museólogo Camilo Tápias, chegam a 70 mil bolívares, cerca de US$ 70 no câmbio negro. A Venezuela tem um complexo sistema cambial, com três diferentes cotações. Duas delas são controladas pelo governo e obedecem regras e valores distintos. A chamada oficial protegida cota o dólar a 10 bolívares, 0,10% do valor da moeda americana no câmbio paralelo, estimada em 1 mil bolívares. Apenas venezuelanos que oferecem garantias ao governo de que vão importar produtos básicos e escassos têm acesso a esse câmbio. A segunda cotação controlada pelo governo é chamada de Simadi. É teoricamente flutuante, mas tem valor distinto do paralelo. Por ela, US$ 1 vale cerca de 650 bolívares. A taxa Simadi é usada em transações comerciais, como conversão em cartões de crédito. Praticamente ninguém a utiliza, preferindo o vasto mercado negro. Como o governo se recusa a emitir notas com valores superiores a 100 bolívares, carregar US$ 10 em moeda venezuelana requer bolsos largos.

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Formada em artes plásticas na Universidade Central de Caracas e com cursos e especializações em Paris, Anita era diretora do Museu de Belas Artes. Rechaçou Chávez desde que ele assumiu o poder e apoiou o golpe fracassado para apeá-lo do poder em 2002. Anita faz parte da classe média venezuelana que, ao longo da última década, fez uma oposição dura e radical ao projeto de transformar a Venezuela em um símbolo do socialismo do século XXI. Diferentemente das camadas mais baixas da população, Anita não foi beneficiada pelos numerosos programas sociais que melhoraram o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Venezuela de forma considerável nos últimos 15 anos. De um país com IDH médio, de 0,635 (quase o mesmo da Namíbia) em 2000, a Venezuela transformou-se em um país com IDH mais elevado, de 0,762 em 2014, três posições acima do Brasil, por exemplo.

Ao longo dos últimos 15 anos a Venezuela se tornou um país de IDH avançado, mas as conquistas estão cada vez mais ameaçadas

Anita caminha agora para se tornar mais uma venezuelana pobre. Depois de anos de redução acentuada de famílias vivendo abaixo da linha de pobreza, a Venezuela observa um rápido crescimento neste quesito. De acordo com um estudo realizado pelas principais universidades venezuelanas, entre 2014 e 2015 o número de lares que passaram a ser classificados como pobres cresceu 53%. De acordo com a pesquisa publicada pelas universidades Simon Bolívar, Católica e Central, ao fim do ano passado 75% dos lares venezuelanos eram pobres. Os números estatais são diferentes, mas mostram a mesma tendência. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), no primeiro semestre de 2015, 33% das famílias venezuelanas estavam abaixo da linha de pobreza. No fim de 2012, o ano com o menor volume de pessoas passando por dificuldades na Venezuela na série histórica do INE, esse percentual era de 21%.

Anita passa por dificuldades, mas ainda dispõe de bens e uma rede de relacionamento que não a deixam cair na miséria efetiva. No Dia dos Pais, comemorado todo terceiro domingo de junho na Venezuela, parentes e amigos deram de presente a seu marido uma cesta contendo 1 kg de açúcar, 2 kg de arroz, 1 kg de farinha de trigo e 1 litro de óleo de cozinha. “Foi uma alegria sem fim, havia semanas que não tínhamos açúcar e arroz.”

É uma situação difícil, mas muito diferente da vivida por José Pastor Rodríguez, de 78 anos. Carpinteiro aposentado, Rodríguez mora sozinho em um dos muitos edifícios populares construídos por Chávez a partir de 2011 e ofertados a preços muito baixos para a população pobre do país. Batizado de Gran Mission Vivenda, o projeto se assemelha muito ao Minha Casa Minha Vida, destinado às faixas de renda mais baixas da população brasileira. Em uma manhã quente de julho, Rodríguez deixou sua casa no centro de Caracas às três da madrugada para fazer fila num mercado em uma região de classe média da cidade. “Vou comprar o que estiverem vendendo, qualquer coisa”, dizia ele, às 10 manhã, no começo da fila que se formara nas horas anteriores.

Rodríguez não se lembra da última vez que comeu carne, mas diz acreditar que o país é vítima de guerra econômica perpetrada pelo empresariado local a mando dos EUA

Com uma pensão de 15 mil bolívares por mês, o mesmo valor do salário mínimo, Rodríguez não tem condições de recorrer aos “bachaqueros”. Precisa adquirir os produtos pelos preços regulados pelo governo. Para consegui-los, tem direito a ir uma vez por semana aos supermercados, como todos os cidadãos do país. O dia permitido para fazer compras dos produtos com preços tabelados é determinado pelo número final de sua cédula de identidade. Cidadãos com carteiras de identidade com final 0 e 1 podem fazer compras nas segundas-feiras. Com final 2 e 3, nas terças, e assim por diante.

O controle de preços foi a forma de o governo responder à inflação e tentar garantir alimentos a preços subsidiados à população mais pobre. Mas o resultado foi o inverso. Eles são raros e boa parte do que chega ao país é desviada por uma eficaz rede de corrupção para o mercado negro. De acordo com estimativas do próprio governo venezuelano, cerca de 40% dos produtos de primeira necessidade que entram ou são produzidos no país têm os “bachaqueros” como destino final. No planejamento oficial, os produtos deveriam chegar diariamente aos supermercados. Mas quase nunca é assim. E nunca se sabe o que vai estar à venda. No dia em que conversou com o Valor, Rodríguez disse que sonhava comprar ovos, arroz e frango, mas compraria o que estivesse à disposição. Mesmo que não necessitasse do produto, poderia vendê-lo no mercado negro. “Faz muito tempo que não como carne. Na verdade, eu nem me lembro mais da última vez que comi carne de verdade”, dizia ele, sentado em uma banquetinha de plástico que trouxe de casa.

Rodríguez mantém-se fiel ao chavismo. Como muitos de seus pares, diz acreditar que o país é vítima de uma guerra econômica perpetrada pelo empresariado local a mando dos Estados Unidos. “É uma guerra, eles escondem a comida para tentar acabar com a revolução”, diz ele, emulando o mantra oficial, repetido à exaustão pelo governo em programas de TV, discursos ou propagandas. Para aplacar a saudade da carne, Rodríguez conta ter uma receita especial: corta o plátano, a banana verde consumida em vastas quantidades no país, em tiras bem finas, coloca bastante sal e condimentos, e a cozinha como se fosse um guisado. “Fica especial, se você não se lembrar que é plátano nem percebe, acha que é carne mesmo”, diz.

As dezenas de misiones estão espalhadas por todo o país e servem como meio de controle político pelo governo

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que haverá queda acentuada no consumo de calorias na Venezuela neste ano. Informalmente, representantes do organismo já admitem que a ingestão diária média dos venezuelanos vai cair de 2,9 mil calorias para 2,5 mil calorias. Ainda não significa que o país entrará oficialmente no mapa da fome. Mas há muita gente na Venezuela hoje com dificuldade para fazer três refeições diárias. Pesquisa das Universidades Central de Caracas e Católica Andres Bello, as duas mais tradicionais da Venezuela, estima que mais de 80% dos venezuelanos estão comendo menos neste ano do que no ano passado. Nas escolas públicas de Caracas, são comuns os relatos de alunos desmaiando durante as aulas.

Rosana Berbesi, de 28 anos, professora do quarto ano do ensino fundamental da Escola Andy Aparicio, tem presenciado casos de desmaio com cada vez mais frequência entre seus alunos. A primeira vez que deparou com a situação foi em janeiro. Era uma tarde quente e os alunos estavam em fila, antes de entrar em sala, cantando o hino venezuelano, quando uma de sua alunas perdeu o equilíbrio. “Ela tentou se sentar em um banco, mas não teve tempo. Caiu ali mesmo.” A estudante não havia tomado café da manhã e nem almoçado. “Desde então os casos foram se repetindo e estamos vendo os alunos menos atentos, mais dispersos e nota-se que estão mais magros”, diz a professora da periferia de La Vega.

Rosana Berbesi presencia casos de desmaio por má alimentação de seus alunos com cada vez mais frequência

Em junho e julho, as mangueiras que cobrem as ruas de Caracas já estão carregadas. Os frutos ainda não estão completamente maduros, mas, mesmo assim, são alvo dos caraquenhos sem dinheiro para almoçar. É comum ver pessoas com grandes varas de bambu tentando alcançar as mangas mais próximas das copas, as mais maduras. Pelo menos três vezes por semana

Yeimi Godoy, de 21 anos, almoça mangas. Funcionária de uma loja de sapatos já quase sem produtos à venda, ela reclama do cansaço. “Estou fraca, tenho uma filha de 7 meses e ainda amamento, almoçar mangas não está me fazendo bem.” Yeimi ganha o mínimo, 15 mil bolívares, como quase todos os trabalhadores sem especialização no país. Recebe, ainda, outros 16 mil bolívares em tíquete de alimentação. Mas o dinheiro não é suficiente para ela e a filha. “Não tenho tempo de ir para as filas e a cesta básica que o governo nos dá não dura três dias”, conta. Para comer uma refeição simples na região da Sabana Grande, um calçadão comercial na região Oeste de Caracas, Yeimi dificilmente gasta menos do que 3.000 bolívares, algo como 10% de seus ganhos mensais. “Quero ir embora, não aguento mais viver aqui, quero ir para o Panamá, lá tem emprego, tem comida, tem futuro”, diz.

Mensagem de uma mãe justificando ausência do filho na escola

Como a vasta maioria da juventude — cerca de 70% dos jovens venezuelanos dizem querer uma mudança de governo, segundo a consultoria Datanálisis -, Yeimi deseja transformações e diz não acreditar mais nas promessas do governo. Apesar de ver a oposição com desconfiança, para ela é hora de o chavismo partir. “Veja como está nossa vida, com [Nicolás] Maduro [presidente da Venezuela desde 2013] tudo piorou. Não temos comida, estou comendo manga no almoço”, diz ela, moradora de Cátia.

Yeimi faz parte do estrato venezuelano que foi amplamente beneficiado pelas políticas de transferência de renda que Chávez passou a implementar no país em seu primeiro governo e que se aprofundaram ainda mais nos anos subsequentes de altas recordes do petróleo. Com recursos da PDVSA, o governo criou uma miríade de programas sociais em todas as áreas imagináveis. Batizados de “Misiones”, eles foram responsáveis pela distribuição de alimentos, carros, casas populares, atendimento médico, urbanização de favelas e uma serie de benefícios à população mais pobre.

Os anos de Chávez no poder foram extremamente beneficiados pela alta do petróleo. Durante os 13 anos em que esteve no comando do país, o preço do barril subiu quase 1.000%. Ao longo desse período, a Venezuela exportou o equivalente a US$ 960 bilhões, algo próximo a cinco vezes o valor de seu PIB nominal em 2014. Foi com esse dinheiro que o caudilho venezuelano se transformou em um líder regional de peso. Com o caixa abarrotado, passou a subsidiar a venda da commodity para Cuba e para países da América Latina e do Caribe, além de prestar auxílio financeiro aos países amigos. Internamente promoveu um amplo programa de transferência de renda com suas “Misiones”. Durante seu governo foram criadas mais de 40 delas, que hoje continuam em operação, mas sem o mesmo fôlego de outrora.

Funcionários de uma das centenas de fábricas expropriadas pelos governos de Chávez e Maduro

O capital político amealhado pela distribuição das riquezas do petróleo entre as classes mais baixas garantiu a eleição de Maduro em 2013 e o prolongamento do chavismo sem a figura mitológica de Chávez. Mas bastou um ano de preços em queda para que a quase década e meia de conquistas se transformasse em uma derrota acachapante nas eleições parlamentares de dezembro de 2015, quando a oposição ficou com cerca de 65% das cadeiras da Assembleia Nacional. É impossível desconsiderar os estragos provocados pelas políticas de controle absoluto da economia pelo Estado, as perseguições políticas, a corrupção endêmica e a flexibilização da Constituição no limite da legalidade para a sobrevivência da “revolução bolivariana” neste resultado.

Mesmo com crise tão brutal e com índices de aprovação abaixo de 20%, Maduro tem a seu favor uma máquina partidária poderosa, o apoio maciço das Forças Armadas e o Judiciário sob seu controle. Além disso, os anos de propaganda intensa e um culto à personalidade de estilo soviético reforçam a narrativa entre as classes mais baixas de que há uma revolução em curso — e de que ela está sendo duramente atacada pelos inimigos de sempre: as oligarquias venezuelanas e as potências mundiais, EUA à frente.

Nas escolas da periferia de Caracas, desmaios e ausências de crianças por falta de comida são cada vez mais comuns

“Nos últimos meses, o governo assumiu o controle da distribuição de alimentos e criou um sistema que privilegia basicamente seus partidários, além de reabrir ocasionalemte a fronteira com a Colômbia para que as pessoas comprem bens de primeira necessidade”, diz Nicholas Watson, especialista em Venezuela da consultoria Control Risks. “De certa forma, isso reduziu os riscos de protestos em série como vimos em 2014, mas a situação ainda é muito tensa.”

A oposição tenta realizar um plebiscito revogatório até o fim do ano, para que novas eleições sejam convocadas. Em um momento de fragilidade como este, o governo tem criado empecilhos para evitar o “recall”. Pela Constituição venezuealana, se o plebiscito for realizado no ano que vem, assume o vicepresidente indicado por Maduro. O que, na prática, pouco mudaria. “Não vão permitir que isso ocorra de jeito nenhum, não há a menor possibilidade”, diz o diplomata de um país vizinho. “A estratégia desse governo é controlar as ruas e rezar para que o preço do petróleo suba novamente. Se isso ocorrer, não se engane, ainda teremos muitos anos de chavismo.”

Os olhos de Chávez observam tudo, em toda a Venezuela

As ruas de Caracas andam tensas. Não só pelos saques reprimidos violentamente que volta e meia acontecem ou pelas intermináveis filas em busca de alimentos. Desde o agravamento da crise, a cidade entrou em uma espiral de violência que a coloca como uma das mais violentas do mundo, de acordo com organizações não governamentais que mapeiam a criminalidade no país.

Há mais de uma década, o governo venezuelano simplesmente não divulga estatísticas sobre o número de assassinatos. “Todos os números são aproximados, não temos ideia do número exato de assassinatos”, diz Sandra Guerreiro, repórter do jornal “El Nacional”. A ONG Observatório Venezoelano de Violência estima que em 2015 a taxa de homicídios por 100 mil habitantes tenha chegado próximo a 120 mortes em Caracas e a 90 assassinatos na Venezuela. “Neste primeiro semestre, contamos mais de 2 mil corpos no necrotério”, afirma Sandra.

A repórter acompanha a violência em Caracas há 30 anos e há uma década vai todos os dias para a porta do necrotério da cidade. É ali, conversando com parentes das vítimas e alguns funcionários, que consegue descobrir quantas pessoas foram assasinadas. “É simples entender o que acontece. Antes se matava por dinheiro, por amor, por desavenças, agora se mata por fome”, diz Sandra.

Parentes de vítimas e jornalistas passam as manhãs no IML de Caracas em busca de informações

Caracas é uma cidade acuada, vivendo espécie síndrome de pânico coletiva. Nas ruas, nos metrôs, nos ônibus, ninguém usa o telefone celular. Quando o uso é indispensável, o aparelho é escondido entre as mãos, para que ninguém descubra sua marca. A partir das oito da noite, as agitadas ruas da cidade ficam desertas. Os centros comerciais fecham as portas, poucos bares permanecem abertos aos mais raros boêmios caraquenhos. “Todos estão com medo”, diz Nelson Alvarez. “Quando um tubo de pasta de dentes custa o equivalente a 10% do que um trabalhador leva um mês para ganhar trabalhando, há que se ter medo.” (Colaborou Marsílea Gombata)

Levado pelas companhias petroleiras americanas, o beisebol é o esporte nacional da Venezuela

Yan Boechat

Yan Boechat é jornalista profissional há quase 20 anos. Trabalhou e colabora para diferentes jornais, revistas e sites da grande imprensa brasileira. É também fotógrafo e atua na cobertura de conflitos em diferentes países do mundo.

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