Como fui de lavar pratos à Casa Branca em um mês

Minha jornada com os maiores líderes jovens na terra do Tio Sam.

Obs: não sou eu na janela.

Em 2014 co-fundei o Projeto RUAS, hoje ONG, que tem como objetivo “empoderar a população em situação de rua através dos residentes em seu entorno”. Hoje temos 2 bairros mobilizados no Rio com mais de 300 voluntários ativos dedicando mais de 4000 horas por ano para se conectar a população de rua da sua região. Muita coisa linda já aconteceu e vou reservar um outro artigo específico pra falar sobre o RUAS.

Foto durante as atividades do Projeto RUAS na interação semanal entre residentes e população de rua.

Pois bem, no meio de 2016 iniciei um processo seletivo para o YLAI, Young Leaders of Americas Initiative, acreditando no potencial do Projeto RUAS. O programa tem como objetivo desenvolver jovens líderes com ferramentas e conexões que possam ajudá-los a catalizar mudanças em suas regiões. Mas não foi fácil chegar até lá.

Foram ao todo 4000 inscritos e longos 3 meses de testes, duas baterias de entrevistas online, uma delas de bermuda, até eu receber o e-mail que oficializava a seleção.

E lá fui eu. O programa foi divido em três partes:

  • Abertura: 3 dias em Dallas, TX
  • Mão na massa: 4 semanas, em que fomos divididos em 21 cidades diferentes, no meu caso Kansas City, MO
  • Fechamento: 4 dias em Washington, DC

Na primeira e última partes tivemos workshops, painéis, palestras e eventos de networking. Uma tonelada deles. Pra dar uma noção, em Dallas, tivemos temas desde Inteligência Emocional para Líderes até A Importância da Assessoria de Imprensa. Dentre eles, um que vale destacar foi o workshop do Entrepreneurs Organizations onde colocamos na prática o Fórum.

É uma ferramenta fantástica que parece mais um divã para empreendedores.

Funciona como uma roda mensal de desabafo seguindo um protocolo em que os participantes devem ser fundadores de organizações que estão num mesmo estágio de maturidade (o caso de todos que estavam lá). Nela, falamos sobre pontos positivos e negativos de nossa vida pessoal, família e trabalho. Mas tem um grande diferencial. Você divide seus anseios com pessoas que estão falando a sua língua no mesmo momento de vida que você, então o papo é reto e surpreendentemente positivo. Bem diferente de falar pra sua mãe que você vai largar o emprego na multinacional e pedir sugestões de empreendedorismo (te amo, mãe).

Também tivemos sessões inspiradoras com empreendedores que mudaram vidas de milhares de pessoas. Alguns deles foram Sir Richard Branson, Nina Vaca e Ben Rhodes. Sir Branson deu um toque interessante: “Seja lá qual for o problema que esteja enfrentando, torne-o sexy o suficiente para que outras pessoas se encantem com ele, também.” Vou dar mais detalhes do fechamento do programa mais pra frente.

Na parte da mão na massa, os 248 participantes foram espalhados por 21 cidades dos EUA. Nesse momento, foi bonito ver como a cultura faz um papel importante na identidade entre os povos. Em Dallas as pessoas, que antes não se conheciam, naturalmente se aglutinaram por países. Mas quando fomos espalhados, todos nos entrosamos com muito mais facilidade. Eu não esperava formar uma família com nove pessoas de sete nacionalidades quando fui para Kansas City.

Mas quando vemos além do que nos separa em grupos, temos o que nos une como indivíduos.

Aí tem Brasil, Costa Rica, Haiti, Panama, Paraguai, Trinidad & Tobago e Venezuela!

Em Kansas, fui alocado numa agência chamada reStart. Eles são uma ONG focada em população em situação de rua com a missão de “empoderar pessoas e acabar com a situação de rua”. Eles fazem isso principalmente através do programa Housing First, um método inovador e polêmico que se tornou parte do programa federal do governo Obama. Resumindo, o que ele faz é inverter a ordem usual de ajuda à população em situação de rua, priorizando antes de mais nada alocá-los dentro de uma casa. O resto (tratamento de drogas, saúde, psiquiatra, psicólogo) vem só depois. E para o meu espanto tínhamos testado algo parecido com o RUAS e tivemos resultados surpreendentes.

Do dia para a noite a pessoa passa a poder usar o banheiro, descansar num lugar próprio e acumular seus bens. O planejamento pessoal vai de “o que vou fazer nas proximas horas” para semanas ou meses.

Passei 4 semanas lá e meu foco era extrair o máximo de 3 tópicos: captação de recursos, organização estratégica de ONGs e entender como funcionam os programas deles (Housing First como mencionei acima). Para isso, pedi para conhecer a organização como um todo e foi isso que fiz.

No primeiro dia fiquei na cozinha lavando pratos com os funcionários e ficou mais clara a importância do voluntariado.

Sem eles a organização teria um custo de recursos humanos que simplesmente inviabilizaria a operação, sem contar a importância da pluralidade de novas experiências que vem para somar. Para mitigar esses riscos eles têm o Gerente de Voluntário, cargo de extrema importância que tem como objetivo atrair, programar, treinar e direcionar o voluntariado dentro da organização. Uma demanda que ficou mais clara dentro do Projeto RUAS.

Foi interessante também entender que a característica da população em situação de rua nos EUA é parecida com a nossa, mas tem uma causa adicional que contribui pra isso.

O sistema de saúde americano é basicamente privado e foi uma surpresa pra mim compreender que o nosso sistema público pode ser mais inclusivo que o deles.

Não vou saber traduzir em números, mas em conversas com as agências que trabalham com população de rua, entendi que existe uma considerável parcela de pessoas que entram em falência por dar todo o dinheiro para pagar seus tratamentos médicos. Isso me fez refletir no nosso famoso “complexo de vira lata” e o poder e papel da esperança e positividade (que vi muito lá) no funcionamento como sociedade. Eles se entendem como uma nação com potencial e por acreditarem tanto nisso, fazem coisas realmente extraordinárias. Como por exemplo essa:

Kansas City praticamente “zerou” o número de população de rua que são veteranos de guerra reduzindo de dois mil para TRINTA E TRÊS pessoas.

Pra mim isso soou como um rugido de esperança. E isso é muito incentivado por uma das características que ficou muito clara: como eles se valorizam como comunidade. Se filtrarmos toda essa parte de guerra, “greatest nation in the world” e Trump, tem algo de muito inspirador aí. Depois que eles usam o banheiro, eles limpam direitinho a tábua; ficam no lado direito da escada rolante para as pessoas com mais pressa passarem e não fecham cruzamento. Não entendo isso como educação, mas como percepção do todo maior, de unidade. E em cima dessa narrativa a cultura e hábitos foram criadas.

Não me surpreende que uma das oportunidades de mercado nos EUA são suportes de bandeiras.

Eu já falei que visitei o Departamento de Estado dos EUA? Essa instituição é tipo o nosso Ministério das Relações Exteriores. Eles são responsáveis desde interações comerciais, políticas até, como no meu caso, programas para estreitar laços e fortalecer a economia da macro região.

Lá eu tive a SUPER oportunidade de visitar a sala Benjamin Franklin. Ela foi desenhada para receber visitas de estrangeiros e convidados especiais. Só pude entender a dimensão disso depois de conversar com o “ex-VP” de RH dos consulados americanos no Brasil. Ele disse que era a primeira vez que pisou na sala e que só os Secretários iam lá para confabular sobre o futuro dos EUA e sua relação com outros países. Fiquei uns segundos sem saber o que responder até mudar de assunto.

Detalhe pra logo no teto.

Foi um mês inesquecível. Marcante. Único. E todos os adjetivos de impacto que eu poderia pensar. Cheguei ao Brasil extremamente reflexivo e de certo modo ansioso. Tanto pela saudade dos amigos que fiz e agora estão espalhados por aí, quanto por querer o super poder de me multiplicar em sete e aplicar tudo o que aprendi nesses 40 dias (até técnicas de lavar louça). Mas esse eu sei que vai ser o menor dos problemas. A galera do RUAS é da pesada e vai me ajudar a digerir e fazer o melhor disso. Vamos crescer, prosperar e vamos contribuir pra nossa sociedade, disso eu tenho certeza.

Ah, esqueci. Eu não consegui de fato entrar na Casa Branca, mas consegui pra gente um autógrafo de um cara que trabalha lá.

Se você lê isso depois de 20/01/2017 saiba que não é a assinatura do Trump.

Queria muito colocar mais detalhes, mas que tal a gente explorar isso com perguntas nos comentários abaixo? Me fala aí do que você se interessou que eu respondo com prazer!

E vale mandar no e-mail também: msabino@projetoruas.org.br

Frase de efeito final:

“Faça uma carreira de humanidade e você fará uma pessoa maior de si mesmo, uma nação maior do seu país, e um mundo melhor para viver”.
— Dr. Martin Luther King Jr.

BORA!