E quando a maternidade não é mágica?

Ser mãe pode ser lindo e duríssimo ao mesmo tempo.

Identificam-se com aquela sensação de estarmos sempre com ar de “dia de limpeza”, o relógio não pára e de 3 em 3 horas e ainda temos tanto que fazer, a mãe e a sogra (algumas doutoradas em maternidade) criticam o banho, a posição do pescoço durante a amamentação, as roupas quentes, a falta de agasalho… Isto desarma até as mais seguras das mães.

Se a nossa auto-estima já se encontra em baixo — viva as hormonas e o blues — com os inputs das doutoradas em maternidade ainda mais.

Para ajudar à festa sentimo-nos fisicamente desconfortáveis, o corpo mudou e o espelho reflete a nossa auto-estima. As relações sexuais são adiadas e o marido também…

Depois dizem-nos que olhamos para o bebé e sentimos o maior amor do Mundo! (Como se uma relação fosse instantânea como os pudins e o amor de mãe fosse um pozinho de perlimpimpim que deitam no momento em que o bebé nasce).

Mesmo que o bebé tenha sido altamente desejado por ambos os pais, não quer dizer que se sinta uma magia quando ele nos é posto nos braços. Inúmeras vezes só temos a real consciência do que é a maternidade e paternidade quando vamos para casa com o nosso bebé.

Além disto temos a sensação de sermos eternamente responsáveis por amar e educar um ser humano, que não conhecemos e que fantasiamos ser bem mais “rosadinho”, “loirinho”, sem pele atópica, sem cólicas, que coma e durma como os bebés “bem comportados”.

O cansaço apodera-se e a apatia de estar 4 meses em casa com ele e com visitas persistentes das doutoradas deixa-nos exaustas emocionalmente, acoplando ainda o sentimento de não termos utilidade profissional (que hoje em dia é um fator preponderante no aumento da auto-estima de muitas mulheres). Depois ele é muito pequenino para o deixarmos com as doutoradas um fim-de-semana, ou até uma noite que seja, e o sentimento de egoísmos? De abandono? De ser cedo de mais para nos irmos divertir?

Deixamos de ser a Maria ou a Francisca e passamos a ser a mãe do João ou a mãe da Matilde. Até na escola nos tratam por mãe (como se mãe fosse um posto, ou um cargo, como os Engenheiros e Arquitetos…). Parece que a nossa identidade (que demora a ser construída e estruturada) desaparece no dia em que o nosso filho nasce.

Depois voltamos ao trabalho — que sentimos ter deixado de acompanhar — e temos a cabeça em dois sítios ao mesmo tempo, na escola onde o deixámos a chorar e no trabalho que temos de acompanhar e voltar a entrar no ritmo. Se falamos muito de bebés e crianças, somos umas mãe galinhas e chatas, se não falamos somos frias e comentam que “não se percebe a Maria, parece que não se entusiasma com crianças”.

Maria, não fique preocupada se não tem uma criança de filme de domingo à tarde, se não recupera a forma como as estrelas de Hollywood, se sente que não sabia que ia ser tão difícil, se está cansada e precisa de uma “folga”, se sente falta de não ser responsável por alguém tão pequeno e indefeso.

Vamos descontrair, divertirmo-nos e aceitar que é difícil (existem cursos e programas, mas nada como experiência na primeira pessoa), não é cor-de-rosa e não somos melhores ou piores por isso. Somos se calhar mais reais com o que sentimos.

E quando temos a sorte de ter doutoradas, amigos e maridos que não querem ouvir as “tretas” cor-de-rosa, mas sim como nos sentimos mesmo — sem nos julgarem — temos um caminho trilhado para uma maternidade saudável e de sucesso, pois nestes momentos somos novamente a Maria ou a Francisca que também é mãe do João ou da Matilde.


Sara Carvalho
COO — 
Yourself Clinic
Empreendedora, psicóloga clínica, formadora e coach é uma amante de pessoas que acredita na gestão através da generosidade e gratidão.

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