Machete Bomb: o rock à brasileira que foge do senso comum

Dono do cavaco da banda curitibana, Madu resgata causos, as influências musicais do grupo e adianta novos projetos em uma conversa repleta de analogias futebolísticas.

Grupo curitibano é uma mistura de rock, samba e hip-hop, formado pelos músicos Vitor Salmazo (vocal), Rodrigo Spinardi (percussão), Rodrigo Suspiro (baixo) e Daniel Perim (bateria) (Foto: Vinicius Grosbelli / Divulgação)

Vocais, bateria, percussão, baixo e cavaco. Uma combinação que à primeira vista lembra mais o som de um grupo de pagode do que uma banda de rock. Pois essa é justamente a formação da banda curitibana Machete Bomb, apostando nas distorções do som do cavaquinho e na mistura do rock com o samba e o rap para criar músicas marcantes e composições repletas de crítica social.

“Quando entramos no palco e aparece o cavaquinho, os caras que não conhecem a banda já olham e falam: ‘qual é a dessa porra de bandinha?’ Então a gente senta a porrada e, de repente, esses caras entram em estado de choque”, descreve Otávio Madureira, conhecido como Madu, o dono do famigerado instrumento. Fazem parte do conjunto também os músicos Vitor Salmazo (vocal), Rodrigo Spinardi (percussão), Rodrigo Suspiro (baixo) e Daniel Perim (bateria).

Ainda que não seja inédita, a proposta do grupo demonstra um esforço nítido em ousar além do senso comum, principalmente no que se refere ao atual momento do rock brasileiro, reticente em fazer aproximações com outros estilos. A trajetória da banda surgiu na contramão disso, quando Madu decidiu que era interessante incluir o som do cavaco. O músico teve suas primeiras incursões com o instrumento na época de seu projeto anterior, o Zacempre, que acabou em 2005.

“Em 2013 conheci o Salmazo, atual vocalista da banda, por causa de um amigo que falou dele. Ele topou e aí eu resgatei algumas músicas antigas, algumas boas músicas ficaram de fora do projeto. No ano seguinte, a gente começou a se encontrar mais. Ficávamos mais em estúdio fazendo letras e tentando juntar a banda, alguns integrantes, achar um time legal para enfim seguir para a estrada”, relembra Madu.

Madu é o dono do cavaco da banda Machete Bomb (Foto: Divulgação)

A história de amor com o cavaco ‘profano’

O músico Otávio Madureira recorda que a ideia de usar um instrumento típico das rodas de samba foi influenciada por uma mudança de conceitos. “Sou guitarrista e sempre fui metaleiro, apesar de ser bastante eclético e gostar desde reggae até uns grind. Mas eu não dava muita bola para som nacional. Foi então que o Sepultura acabou lançando o disco ‘Roots’. Chapei e fui pirando nessa questão da batucada. Comecei a ouvir também Nação Zumbi e a banda Mundo Livre S/A. Fiquei maluco nessa coisa genuína do rock nacional, ainda mais depois de pesquisar sobre essas bandas do Recife. Não era aquela coisa de só guitarra distorcida e letra em português, com cara de música gringa. Tinha muito Brasil ali no meio”.

De tanto ouvir as bandas de rock pernambucanas, a namorada de Madu na época decidiu presenteá-lo com um cavaco. “De tanto que curtia a Mundo S/A, ganhei um exemplar de Natal. Por mim, não compraria e jamais me arriscaria a tocar. Era a guitarra e pronto. Eu pirei de ter um. Abriu possibilidades, afinal, além da influência americana no rock, pode-se inserir algo que é uma assinatura brasileira, aquela coisa mais genuína”, conta.

A história de amor com o cavaquinho não teve um começo muito fácil, como conta o músico. “A partir do momento que peguei o cavaco na mão, eu pensava: ‘porra, isso aqui eu não vou aprender a tocar direito nunca, né?’. Porque o cavaco é difícil pra caralho. Fui lá e pluguei no amplificador e pronto”. A sonoridade do instrumento ganhou efeitos e um aspecto sujo, típico do heavy metal.

“Só sei tocar as músicas do Machete Bomb e umas do Mundo Livre S/A. O pessoal que é do chorinho mesmo, bota qualquer Steve Vai no chinelo. Pega o Marty Friedman do Megadeth e come com farinha (risos)! Os caras são canibais. Um instrumento pequeno, braço curto. É preciso muito esforço. Eu boto fogo no louco lá, faço as piras e tal, encho de efeitos… mas cavaquinista de raiz mesmo, não sou. Falta muito chão pra ter as manhas de quem vem do samba mesmo, os caras têm um nível sinistro”, define o músico.

Machete Bomb, que já dividiu palco com O Rappa e Criolo, conta com participações em vários festivais de heavy metal pelo Brasil (Foto: Carlos Poly / Divulgação)

Madureira também elenca algumas influências estrangeiras que ajudaram na construção da sonoridade que fez da banda Machete Bomb uma das mais promissoras da cena independente do Paraná, entre elas a do músico Tom Morello do Rage Against The Machine.

“Sempre fui muito vidrado no som do grupo, mas não como guitarrista. Como músico, geralmente uso um Wha Wha e já está de bom tamanho. Estava mais para Biohazard, Sepultura, Napalm Death, Paradise Lost, Fear Factory e por aí vai. Um Wha Wha já é pedal demais pra quem curte esse som. Também sempre ouvi muito funk, incluindo James Brown (JBs e toda turma, Maceo Parker, Fred Wesley), Curtis Mayfield e The Meters. Duas vertentes que não tinham a ver com o uso de muitos pedais. Mas quando destorci o cavaco, comecei a experimentar e a me inspirar mais no lance do Morello, para os efeitos dentro do cavaquinho. Essa coisa de mudar o som do instrumento, usar o instrumento de uma ‘forma’ que não seja necessariamente a dele”.

A bomba e o gol de mão em dia de clássico

Nos discos “O Samba do Sul” (2015) e “A Saga do Cavaco Profano” (2017), o quinteto Machete Bomb escancara as mazelas da sociedade, a corrupção e os próprios demônios com letras ácidas, debochadas e repletas de crítica social. De acordo com o integrante Otávio Madureira, o objetivo está mais para questionar o status quo e a indiferença do que para abraçar uma causa partidária.

“Sempre tivemos essa ideia de fazer muita crítica política. Mas nós não somos de levantar bandeira, partido, não somos de nenhum lado. Acho que a gente sempre tenta questionar os outros e também a nossa postura. Tentando não falar uma coisa e depois sair fazendo outra. É muito fácil sair cagando regra e chegando cheio de argumentos… quando menos você esperar, você pode ter dado um belo de um tiro no seu pé. Temos músicas que atiram em todo mundo, até na gente mesmo. Tem música que fala mal do Machete (risos). Tem música que senta o pé no governo, na oposição, seja lá quem for. Tentamos sempre ser inoportunos sobre qualquer questão”, argumenta o cavaquinista, citando o rap como principal influência.

E a “gangue” tem munição de sobra. “É aquela pira de botar o dedo na ferida. Tem música mais crítica, que faz piada com alguém, de brincadeira, e outras como a ‘Coivi Oguerecó Yara’, cuja letra aborda a questão de invasão de território. Ao mesmo tempo, tem umas músicas minhas que são sobre as minhas tragédias pessoais, do tempo que eu era doidão (risos). A música ‘Aqui Tá Frio e Vai Chover’ parece romântica, mas na verdade ela fala de vício”, explica Madu.

Nesses anos de estrada a banda já gravou projetos em vídeo durante participações no Nicos Studio, Som do Arame, Audio Arena Originals e ShowLivre, além de dividir o palco com grandes nomes como O Rappa, Criolo, Mundo Livre S/A em shows pelo Brasil.

“A polêmica acaba surgindo naturalmente. As pessoas podem ter a cabeça fechada. Eu mesmo era um cara que só curtia heavy metal e coisa gringa, achava o rock nacional uma porcaria. De repente, o Sepultura me deu um socão na cara e pensei: ‘cara, por que estou pagando pau só pra som de gringo?’. Foi aí que parei e tentei enxergar o outro lado”, acrescenta o cavaquinista.

Na verdade, de certo modo, o conjunto já conta que parte da plateia vai subestimar a banda por causa do cavaquinho. “A questão do gol de mão em dia de clássico é gerar a polêmica, é incomodar mesmo. E se alguém achar ruim, a gente aumenta o som, grita mais, manda geral se fuder e mete gol pra dentro. É gol de mão em dia de clássico e foda-se. O importante é marcar o gol”, crava Madu. No papel de atacante, o músico ensaia até novas jogadas. “Estou criando alguns efeitos novos. Inclusive, estou pensando em pegar outros instrumentos, experimentar com o fandango daqui do Paraná, para tentar zuar também”.

Um soco no senso comum, grupo trabalha em novas experimentações musicais para surpreender os fãs (Foto: Vinicius Grosbelli / Divulgação)

Novos projetos, shows e músicas

O conjunto prepara algumas novidades para os próximos meses. “Estamos montando um show novo com músicas inéditas que ainda vamos lançar, inclusive vídeos novos”, adianta Otávio Madureira. Por enquanto, o grupo trabalha com o single “Agogo Nagô”, que deve fazer parte do próximo material de estúdio.

Outros projetos em desenvolvimento incluem uma música com a participação de um integrante de uma banda de heavy metal nacional, e também versões remixadas e acústicas de algumas faixas conhecidas do repertório do Machete Bomb. A ideia dos remixes foi de tirar o som pesado do cavaco ‘profano’ e da porrada da percussão e da bateria, para realçar as influências do rap. “Tem uns beat old school, tem uns ‘modernão’, várias influências nossas, com participações de alguns beatmakers parceiros… fiz até um remix de funk, com três minutos de solo de sax, trompete e trombone”, explica.

Nas versões acústicas, a proposta é trazer a sonoridade clássica do cavaquinho. “A ideia é mostrar o lado ‘samba’ da banda, com o cavaco totalmente desplugado, sem pedal nenhum”, complementa o músico e produtor musical Otávio Madureira.

Retomando a metáfora futebolística, o cavaquinhista pontua a necessidade de fugir da comodidade. “É preciso sempre entrar em campo e jogar pra sair ganhando, mesmo dando chute pra fora, canelada, gol de mão, só com os piores no seu time. O lance é arriscar e sair pro ataque. Eu não entendo porra nenhuma de futebol, mas é por aí a nossa ideia (risos). Se você não tentar se virar, meu irmão, até o juiz vai estar torcendo contra você”.

Ao menos, seriam considerados como jogadores atrevidos e debochados. “Enquanto você está falando mal do samba e do cavaquinho, o Pepeu Gomes está botando Marty Friedman [guitarrista do Megadeath] no bolso. E para quem nunca ouviu o som do Machete Bomb, sei lá… vai escutar Sepultura, é bem melhor, porra”, encerra Madu, rindo.

Dividindo o palco com grandes nomes da música

Otávio cita como um momento marcante da carreira o show com o Criolo e O Rappa, no Rio de Janeiro. “Foi muito do caralho. O Rappa sempre deu muito apoio para a banda. O Xandão é muito parceiro, o cara é nota onze. Tocar para um público que é fã ensandecido dos caras, como os fãs do O Rappa e do Criolo são, na capital do samba, chegando com um cavaco na mão pra abrir o show deles, só com as suas músicas, num palco gigante, para cerca de dez mil pessoas, e no final a galera aplaudir. Então, foi muito foda. Você tem aquela sensação como se estivesse jogando completamente fora de casa, mas está jogando bem e até o torcedor adversário está te respeitando. Aprendemos muito com a forma de trabalho deles também. A equipe dos caras é do caralho e foram muito parceiros com a gente sempre nos shows que fizemos juntos com eles, a gente acaba aprendendo sobre o outro lado profissional de uma banda e sua ‘crew’ só de estar ali perto”.

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