Até o fim deste texto, 8 pessoas vão cometer suicídio

A mente de um suicida é um turbilhão. Milhares de pensamentos conflitantes passam pela cabeça antes de se tomar a decisão de dar fim à própria vida. A cada 40 segundos, uma pessoa tira a própria vida. Convidamos a psicóloga Graciele Cavagnoli, especialista no assunto, para explicar o que leva uma pessoa a cometer suicídio:
Zenklub: O suicídio está muito conectado à depressão, mas quais os outros fatores psicossociais que levam alguém a dar fim à própria vida?
Graciele Cavagnoli: Apesar de o suicídio envolver questões socioculturais, genéticas, psicodinâmicas, filosófico-existenciais e ambientais, na quase totalidade dos casos o transtorno mental é um fator importante que necessita estar presente para que, culmine no suicídio do indivíduo, quando somado a outros fatores. Estudos mostram que em 97% dos casos de suicídio caberia um diagnóstico de transtorno mental na ocasião do ato fatal. Esse achado reforça a ideia de ser o transtorno mental grave, como a depressão, um dos principais indicadores de risco de suicídio.
ZK: Por que este ainda é um tema sobre o qual as pessoas preferem não falar?
GC: Quando um assunto é tabu, não o debatemos abertamente, não estudamos, não pesquisamos, contudo todos nós conhecemos alguém próximo que morreu por suicídio ou tentou. O suicídio não é um tema novo na sociedade, uma vez que os primeiros relatos que temos de sua abordagem nos levam à Antiguidade. Ignorado, por medo ou culpa, o suicídio permanece no limbo dos temas que muitos evitam. A falta de informações sobre o tema acaba contribuindo para que o suicídio seja tratado como um tabu e as famílias sejam vítimas de preconceito. Discutir o assunto e lutar contra esse estigma, poderá salvar muitas vidas.
ZK: Como sucede o tratamento de um paciente que já tentou cometer suicídio?
GC: Raramente o suicida busca auxílio ao tentar se suicidar. É geralmente levado por alguém que tem algum tipo de vínculo ou caso tenha se arrependido em meio à tentativa, pode estar muito apavorado, pelas consequências da tentativa para fornecer informações reais.
É importante que o profissional perceba o grau de entendimento do paciente sobre o conceito de morte, como exemplo: a gravidade, a motivação e o grau de consciência do ato suicida, crenças sobre letalidade dos meios utilizados, intensidade e persistência da ideação suicida. Outro fator a ser investigado é o meio que o paciente utilizou para a preparação, para garantir que a morte em si fosse evitada e que um possível resgate fosse efetuado, antes da atual tentativa. Devem-se evitar atitudes de censura ou julgamentos, utilizando uma abordagem de acolhimento e de cuidado o que proporciona maior expectativa de uma evolução satisfatória, tanto quanto à busca de um tratamento psiquiátrico posterior, quanto a uma maior taxa de adesão e menor incidência de tentativas posteriores de suicídio.
ZK: Além do encaminhamento a um profissional, como ajudar uma pessoa que apresenta comportamento suicida?
GC: Bons vínculos afetivos, sensação de estar integrada a um grupo ou comunidade, religiosidade, estar casado ou com companheiro fixo, ter filhos pequenos, tudo isso chamamos de fatores de proteção.
Pessoas com maior envolvimento religioso de um modo geral possuem menores taxas de suicídios, provavelmente por causa do pesado julgamento moral sobre o suicídio e consequente o senso de punição. Sabe-se também que vários fatores culturais influenciam as taxas de suicídio. Dependendo do tipo de sociedade, seus valores podem atuar como fatores de proteção ou de risco. Por exemplo, sociedades que valorizam a interdependência, nas quais existe estímulo para conversas sobre os problemas com diferentes indivíduos e são mais abertas a mudanças de opinião, parecem favorecer aspectos mais protetivos em relação à ocorrência de suicídio. Por outro lado, em sociedades nas quais a independência e a capacidade de tomar decisões são valorizadas e pedir ajuda é visto como um sinal de fraqueza ocorre o oposto.
Uma percepção mais otimista da vida, com razões para se continuar vivendo, opondo-se ao sentimento de desesperança protege contra o suicídio. Por exemplo, apego aos filhos pequenos e o sentimento de importância na vida de outras pessoas. No sexo feminino, a gravidez e a maternidade parecem auxiliar para que as mulheres tenham menores taxas de suicídio, em especial nos anos próximos da gestação. Outra forma de proteção encontrada particularmente no sexo masculino é ter uma ocupação, estar empregado, sentindo-se produtivo e socialmente mais integrado por meio de seu trabalho. De forma geral, o sentimento de “pertencer”, no sentido de possuir forte ligação, seja a uma comunidade, a um grupo religioso ou étnico, a uma família ou a algumas instituições protegem o indivíduo do suicídio. Percebe-se nesse sentido a estreita ligação do fenômeno suicídio com sentimentos de solidão e desesperança.
Quando se fez tudo o que foi possível e mesmo assim a pessoa se depara com o familiar a ponto de cometer o suicídio, o ideal é conversar com a pessoa com muita calma e não deixá-la sozinha, sem se colocar em risco. Ao conversar, procure não falar muito e ouvir mais, já que muitas vezes a pessoa só precisa ser ouvida. Se possível, acompanhe-a a um profissional de saúde e peça orientação. Outra medida é retirar acesso de ferramentas potencialmente destrutivas dentro de casa — como arma, remédios e substâncias tóxicas — para evitar o uso delas em um impulso. Caso ainda o risco eminente, ligue para o 192.
A família e amigos devem ficar muito atentos na simulação de melhora, pois é comum em diversos casos de suicídio. Se uma pessoa que normalmente é deprimida parecer subitamente alegre, é importante acompanhá-la para garantir que ela não tentará o suicídio.
ZK: As maiores taxas de suicídio se concentram entre pessoas com idades de 15 a 40 anos. Você acredita que a cultura da perfeição, tão propalada nas mídias sociais tenha a ver com isso?
GC: A mortalidade por suicídio tem aumentado significativamente nos últimos anos, situando-se entre as dez principais causas de morte, considerando todas as faixas etárias, e entre as duas ou três mais frequentes em adolescentes e adultos jovens.
É importante destacar que o suicídio não é um fenômeno linear, não é inteiramente previsível e tem sua regulação afetada por diversas variáveis no meio ou no sistema social em que está inserido, assim não podemos achar que a culpa esta na questão das mídias sociais. Trata-se de um fenômeno complexo, sendo esta visão fundamental para compreendermos além de sua abordagem e as estratégias de possíveis intervenções no tema.
Sobre a autora:
Graciele Cavagnoli é psicóloga e atende por vídeo-chamada no Zenklub. Psicóloga com experiência clínica e ambulatorial atendendo de forma individual. Atua com foco em doenças psicossomáticas e direcionada ao “problema.” Trabalha de forma ativa com o paciente as questões relacionadas à morte (luto/ suicídio), buscando assim adquirir novas habilidades psíquicas.
Originally published at blog.zenklub.com.br on July 12, 2016.
