O Post-it e a criatividade
Por Guilherme Scarabelin*

Art não era exatamente o tipo que alguém esperaria encontrar no coral de uma igreja.
Grande e desengonçado, sua figura simplesmente não se encaixava no ambiente. Naquela noite de 1977, ao se levantar para cantar, as aparências se confirmaram: Art esbarrou nas partituras, levando os papeis ao chão. Ao ver o caos, ele só desejava uma forma simples de colar todas as folhas para que aquilo não acontecesse novamente. O que poderia ser apenas um inconveniente à noite de cantoria, entretanto, se transformou em um momento transformador para sua vida e para a trajetória da empresa para a qual trabalhava. Art Fry, engenheiro químico da 3M, se lembrou da invenção de um colega de trabalho. Em 1966, o Dr. Spencer Silver criou um adesivo que aderia às superfícies suavemente, podendo ser facilmente removido e recolocado. E assim surgiu o Post-it.
Desde então, a história virou lenda, mas prossegue sendo um verdadeiro tesouro para quem quiser entender os segredos por trás da criatividade. Em tempos de disrupção e da busca desenfreada por soluções criativas para os clientes, acabamos caindo no engodo de que a única saída é pensar fora da caixa. Ou seja, de que a única forma de nos diferenciar no mercado é criar algo totalmente novo, nunca antes visto. Mas não é assim que a criatividade funciona. As principais soluções criativas, os melhores produtos, os mais inovadores artigos e livros nunca são completamente disruptivos. Eles são conexões novas de ideias já existentes. A história de Art é apenas um exemplo de como uma solução nova pode surgir apenas porque alguém teve o brilhante insight de ligar os pontos. No fundo, a máxima “Nada se cria, tudo se copia” tem um pouco de verdade.
Porém, para isso, é necessário repertório. Uma proposta criativa de Relações Públicas, por exemplo, nunca sairá diretamente do playbook de RP. Afinal, todos têm acesso a isso. Pergunte-se: O que de novo você pode trazer ao conhecimento convencional de comunicação? Qual referência e vivência apenas você tem? Quais pontos apenas você seria capaz de conectar?
“Criatividade é apenas conectar coisas”
Steve Jobs
Construir esse repertório é simples, mas exige foco e determinação. Leia livros de áreas completamente diferentes da sua, conheça pessoas e ambientes novos, tenha a mente aberta o suficiente para se expor. Assim, novas portas se abrirão e a criatividade não parecerá um esforço; as ideias simplesmente virão. Para as empresas e agências, a lição é similar. Vale a pena ter pessoas com perfis variados na equipe e colocá-las em uma sala para discutir ideias. Afinal de contas, nenhuma solução inovadora virá de um brainstorming composto de especialistas de uma área só. Portanto, da próxima vez que se encontrar perdido, olhe para os vários Post-its colados em sua mesa e encontre inspiração na experiência de Art, buscando ligar os pontos.
* Guilherme Scarabelin é executivo de contas na Zeno em São Paulo.

