- Se deixar esse menino na escola só aprende marxismo’

Liga e desliga

Próteses psicológicas

“Os afectos podem ser interpretados como próteses psicológicas, as mais antigas próteses, de uma fisiologia transparente: não se vêem como a pedra se vê, mas as ligações advinham-se, arquitectam uma fisiologia de indícios, onde os restos que ficam atrás podem ser brutos e sólidos como fotografias, pequenos objetos — tudo multiplicações do fio clássico, mitológico: a partir de um conjunto de carne e derivados, em ligeiro desequilíbrio (o corpo humano), saem fios, dezenas de fios. Se os seguirmos encontramos família, amigos, objetos, hábitos: eis as próteses clássicas do corpo. Próteses afectivas.” (TAVARES, Gonçalo M.)

Eram 3 horas da manhã enquanto tateávamos, entre os corpos da madrugada, então nossa volta. A noite foi simplesmente incrível. Não só a noite como também o som foi bom, num espaço energeticamente goodvibe e eu me pergunto: onde estávamos todo esse tempo que não percebemos o mundo borbulhando? Eu o sentia e era meu, tudo era meu. De dia precisamos de duas voltas do mundo dos sonhos para acordar daquela noite: o celular desperta: pela segunda vez a distância e me obriga a levantar.

- Onde está minha bolsa? Não, não era o meu. Pedrooo, acorda! Vamos perder a hora.

Corremos pra Uruguai. Eu já tinha o bilhete que por acaso comprei no dia anterior. Era o metrô novo (batmóvel carioca, segundo uma amiga). Fomos procurando um lugar mais para trás enquanto passávamos por pessoas com as previsíveis camisetas da CBF e vestidos amarelos-e-verde-esperança, até que nos instalamos no meio. Tava mais vazio do que eu imaginava.

- “Saiu do armário a coleção copa do mundo

alguém disse enquanto pegamos o fone de ouvido e caderno, livro;

enfim estávamos na terceira ou quarta música quando pergunta:

- Sério que a gente só andou uma estação?”

Por que fomos à passeata do último dia 16 de agosto?

Convivemos com a presença do outro o tempo todo esbarrando em ruas, em praças, noticiários e timelines — mas o fato é : simplesmente queríamos ver. Queríamos ver se os cartazes eram tão estúpidos quanto os compartilhados no facebook, se o pessoal realmente adorava o Olavo de Carvalho e pra ver, enfim, a cara de quem pede, aos gritos, uma nova intervenção militar.

O convívio com o outro nos faz perceber que na verdade sempre estamos em todos os lugares, em todos os círculos: em uma lembrança: uma frase e uma história: seu tio, louco, a falar num grupo da família no whatsapp:

Sim, somos obrigados a conviver. Se atentarmos bemencontramos família, amigos, objetos, hábitos’, em perfeita discordância, subjetividades — caminhando aflitas, tentando se orientar entre os corpos, projetando sua imagem histérica e lançando essa onda no mundo.

A essa altura da vida, eu já estou diluída em todos os lugares.

q psicodélico,

O protesto

Guardo desse protesto do dia 16 de agosto lembranças em forma de imagens. Os gritos ecoantes materializados em cartazes e o calor do sol nas rosadas e bronzeadas peles de duas margens distintas da mesma copacabana: o asfalto anti-petista e a areia de culto ao mar.

-Já chegamos a mais de milhão de pessoas!

Anunciava o megafone. Talvez se contássemos os banhistas que pouco estavam interessado com o zunido, teríamos esse número aproximado.

- Por uma educação libertadora, voltada à economia!
-O exército é a polícia do povo!

Continuavam aos berros, seguidos de uma música que exaltava tetas e a figura da mulher, presidenta. Uma criança falava em um dos carros de som. Articulando soltas palavras: “-não”, “fora”, encerrando a apresentação desse espetáculo de domingo com a criança prodígio, um homem dizia: “Se deixar esse menino na escola ele só aprende marxismo”

Nos deixaram na escola. Eu aprendi, aprendi e aprendi.

- O que?
- Lá sei?
- Eu voltei nua, mas não crua
- Sim
“A burguesia, historicamente, teve um papel extremamente revolucionário. Em todas as vezes que chegou ao poder, pôs termo a todas as relações feudais, patriarcais e idilicas (…) e não deixou restar vínculo algum entre um homem e outro além do interesse pessoal estéril, além do ‘pagamento em dinheiro’ desprovido de qualquer sentimento” (ENGELS, F.; MARX, K. O Manifesto Comunista. Tradução Maria Lucia Como. — [Edição especial] — Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2011. (Saraiva de Bolso), p. 13)

Karine Maia e Pedro Saliba

Humanos, um mano, toca ai