Trecho de “O Rugido do Leão — Uma Introdução ao Tantra” — “The Lion’s Roar — An Introduction to Tantra” (Tradução)
…“prajna”, que significa “conhecimento”. “Jna” significa “inteligência” e “pra” significa “premium”, “superior”, “maior”. Esta é a palavra em Sânscrito, e a palavra Indo-Européia vem daí. [inglês: “Know” (português: “Conhecer”), “gnosis’, “cognição”, etc, são etimologicamente relacionadas a “jna”.]
…prajna, which means “knowledge.” Jna means“intelligence” and pra means “premium,” “higher,” “greater.” That’s the Sanskrit word, and the Indo-European word comes from that. [Know, gnosis, cognition, etc., are etymologically related to jna.]
Prajna é o conhecimento premium, o conhecimento superior e maior de todos. É premium num sentido de um combustível premium que você pode pedir em um posto de combustível. Há uma escassez de combustível nestes dias, mas tenho certeza de que não há escassez de prajna. É uma coisa contínua. Prajna, conhecimento discriminativo.
Prajna is the premium knowledge, the highest and greatest knowledge of all. It’s premium in the sense of premium gas that you can ask for at the gas station. There is a gas shortage these days, but I’m sure there is no shortage of prajna. It’s ongoing stuff. Prajna, discriminating knowledge.
Prajna, para adicionar mais uma palavra ao nosso dicionário Budista, é um processo de olhar. É a maneira mais superior de olhar para a realidade. É como fazer um conhecido (no sentido de escolher um colega, um companheiro de trabalho.). Você está trabalhando duro suficiente então você contrata sua própria inteligência para trabalhar com você. Você cria um coleguismo com você mesmo, você cria um ‘conhecido’ para trabalhar com você — conhecimento.
Prajna, to make a further entry in our Buddhist dictionary, is a process of looking. It is the highest way of looking at reality. It is like making an acquaintance (in the sense of picking a colleague, a fellow worker). You are working hard enough so you hire your own intelligence to work with you. You create a colleagueship with yourself, you make an acquaintance to work with you — knowledge.
Aqui nós nos deparamos com um conflito com a tradição Cristã relativo à sabedoria mística. De acordo com a tradição Cristã, ou qualquer tradição teísta, sabedoria vem primeiro e conhecimento vem depois. Mas no Budismo, conhecimento vem primeiro e sabedoria vem depois.
We run into a conflict here with the Christian tradition concerning mystical wisdom. According to the Christian tradition, or any theistic tradition, wisdom comes first and knowledge comes afterward. But in Buddhism, knowledge comes first and wisdom comes later.
Uma vez eu assisti um programa de televisão sobre arte clássica italiana — Michelangelo e Leonardo da Vinci, e assim por diante. Era feito belamente. Era apresentado por algum lord Inglês ou outro, que falava belamente. Um argumento que ele apresentou era que a fim entender arte no mundo ocidental, você tem que olhar para ver. Este é a abordagem de uma experiência mística teísta: Olhar a fim de ver. Ver é considerado como uma descoberta; olhar é o método primário. Isso parece óbvio: Se você quer ver, você tem que primeiro olhar. Muito sensível; muito científico. Antes de você tirar conclusões, você coleta informação com o computador. Quando o computador diz portando e tal e o caso é assim e assado, então você começa a ver. Você olha para ver.
Once I watched a television program on Italian classical art — Michelangelo and Leonardo da Vinci, and so on. It was beautifully done. It was presented by some English lord or other, who spoke very beautifully. A point he made was that in order to understand art in the Western world, you have to look in order to see. That is the approach of a theistic mystical experience: Look in order to see. Seeing is regarded as a discovery; looking is the primary method. It seems obvious: If you want to see, you have to look first. Very sensible; very scientific. Before you draw conclusions, you gather information with the computer. When the computer says thus-and-such and so-and-so is the case, then you begin to see. You look in order to see.
Mas em tradições não teístas, como o Budismo (e neste ponto, a única religião tradicional não teísta que nós temos neste universo é o Budismo), a ideia é ver para olhar. Olhar é considerado como muito mais importante, porque você não pode abandonar o mundo, você não pode abandonar os relacionamentos.
But in the nontheistic traditions, such as Buddhism (and at this point, the only nontheistic traditional religion we have in this universe is Buddhism), the idea is to see in order to look. Looking is regarded as much more important, because you can’t abandon the world, you can’t abandon relationships.
Primeiro você tem que ver. Projeções são necessárias para você poder trabalhar com você mesmo. Tendo se relacionado com suas projeções propriamente — claramente e completamente — tendo visto coisas como elas são, você começa a escrutinar, você começa a olhar. Quando você olha, você descobre todos os tipos de qualidades sutis das coisas como elas são, sutileza sobre sutileza, detalhes fantásticos das coisas como elas são, fantasticamente coloridos.
First you have to see. Projections are necessary in order for you to work with yourself. Having related with your projections properly — clearly and thoroughly — having seen things as they are, you start to scrutinize, you start to look. When you look, you discover all kinds of subtle qualities of things as they are, subtleties upon subtleties, fantastic details of things as they are, fantastically colorful.
Dizer que você tem que ver a fim de olhar é uma afirmação tântrica. É muito sutil e muito precisa. O que pode acontecer com nós é: Nós olhamos a fim de ver. Nós primeiro olhamos e temos um flash de algo fantasticamente bonito. Nós olhamos para algo e ficamos deslumbrados pelo algo. Nós ficamos deslumbrados e começamos a ver visões psicodélicas do universo. Fantástico! Wow! Então nós supostamente temos que ver o que quer que isso seja. Mas ver não é importante mais, porque nós já olhamos. Nós perdemos tantos detalhes sutis, porque nós olhamos. A abordagem Budista para perceber os fenômenos é ver para olhar, não olhar para ver.
Saying that you have to see in order to look is a tantric statement. It is very subtle and very precise. What might happen to us is: We look in order to see. We look first and have a flash of something fantastically beautiful. We look at something and get dazzled by it. We get dazzled and begin to see psychedelic visions of the universe. Fantastic! Wow! Then we are supposed to see whatever it is. But seeing isn’t important anymore, because we have already looked. We lost so many subtle little details,because we looked. The Buddhist approach toward perceiving phenomena is to see in order to look, not look in order to see.
Esta é uma definição de prajna que guia para o tantra. Entender isso é importante quando se trata da tradução de certos termos. Nós traduzimos “jnana” como “sabedoria” e “prajna’ como “conhecimento”. Um monte de eruditos traduzem “prajna” como “sabedoria” ou “prajnaparamita” como “sabedoria ida além”. A ideia de ver para olhar é mais próxima dos ensinamentos de Don Juan, a abordagem Indígena Americana. Primeiro você vê coisas, percebe coisas. Eu vejo um monte de rostos aqui. Cabeças sem óculos, cabeças com óculos. Então eu olho para ver quem eles são. Eles estão ouvindo esta fala.
This is a definition of prajna that leads toward tantra. Understanding this is important when it comes to translating certain terms. We translate jnana as “wisdom” and prajna as “knowledge.” A lot of scholars translate prajna as “wisdom” or prajnaparamita as “wisdom gone beyond.” The idea of seeing in order to look is closer to Don Juan’s teaching, the American Indian approach. First you see things, perceive things. I see a lot of faces here. Heads without glasses, heads with glasses. Then I look to see who they are. They are listening to this talk.
Castaneda fala sobre ver um chacal ou um coiote. Don Juan colocou um pano branco em algum lugar, então depois removeu o pano, e ao fazer isso removeu uma paisagem inteira. Isso tinha algo a ver com o princípio do coiote. É muito interessante, muito próximo do Budismo tântrico. A coisa inteira é baseada em ver.
Castaneda talks about seeing a jackal or a coyote. Don Juan placed a white cloth somewhere, then later moved it, and in doing so removed a whole landscape. It had something to do with the coyote principle. It’s very interesting, very close to tantric Buddhism. The whole thing is based on seeing.
Por exemplo, em relação à ideia de escolher um local, um lugar onde você vai se sentar e ser você mesmo. Ao fazer isso, uma vez que você começa a olhar, você se torna muito estranho. Se você vê um local, você deveria se arranjar adequadamente nele e então começar a olhar.
For instance, in relation to the idea of choosing a spot, a place where you are going to sit and be yourself. In doing this, once you begin to look, you become very awkward. If you see a spot, you should arrange yourself suitably in it and then begin to look.
Este parece ser o ponto em discutir prajna como uma preparação para discutir tantra. A experiência pertinente de prajna também acontece no nível mahayana. Olhar é ‘demandante’, se você olhar prematuramente. Mas ver é ‘não-demandante’ se você faz isso apropriadamente. A sensação de bem estar que nós falamos sobre toma lugar.
That seems to be the point in discussing prajna as a preparation for discussing tantra. The pertinent experience of prajna also takes place on the mahayana level. Looking is demanding, if you look prematurely. But seeing is undemanding if you do it properly. The sense of well-being that we talked about takes place.”
Chögyam Trungpa (Boulder, Colorado, EUA — Dezembro de 1973)
Livro: “O Rugido do Leão — Uma Introdução ao Tantra” — “The Lion’s Roar — An Introduction to Tantra”
Parte Um: “Seminário dos Nove Yanas”, Capítulo Três: “A preparação para o Tantra” — “The preparation for Tantra”
Texto completo em inglês: https://goo.gl/oQzhlN

