Crítica | Castlevania

A segunda temporada da série veio para fazer a coisa certa em respeito à cronologia.

Chico Oliveira
Oct 30, 2018 · 8 min read

Castlevania é uma série de animação lançada em 2017, com a segunda temporada agora em 2018. Baseada na série de jogos de aventura em plataforma da Konami. A série é produzida pela Project 51 e Frederator Studios, distribuída mundialmente pela Netflix.

Eu poderia ter falado desta série no ano passado quando quatro episódios de 25 minutos foram disponibilizados pela Netflix, mas o sentimento de que faltava algo persistia. Não parecia o projeto completo, estava mais para um aperitivo, o que podemos fazer de melhor. Um enorme piloto de aproximadamente uma hora. Com o lançamento desta segunda temporada eu não poderia estar mais correto.

Na primeira temporada somos apresentados a Trevor Belmont, o último descendente da casa francesa de caçadores de criaturas da noite. Um beberrão que estava só de passagem pela cidade de Gresit na Valáquia. Temos Sypha Belnades, uma oradora que tem o papel de levar a história pelas cidades através de contos. Por terem um perfil franciscano são perseguidos pelos grandes vilões até aqui: a igreja.

Foi à igreja que caçou e levou a jovem Lisa para a fogueira por bruxaria despertando a ira de seu companheiro o Conde Drácula que ao ensinar medicina a jovem nutriu um amor que deu um fruto: Alucard, um dampiro, ou meio-vampiro. Ela o convenceu a viajar pelo mundo e conhecer mais sobre a humanidade e o que e ampliar seus conhecimentos, mas quando retornou a Valáquia e viu tal situação decretou que em 30 dias voltaria e levaria sua fúria a toda à região.

Uma batalha se intensifica envolvendo Trevor e Sypha o que os leva encontrar o filho perdido de Drácula e Lisa: Assim os três devem ir até o castelo e derrotar o senhor das trevas. Tirando uma passagem aqui e acolá, podemos resumir essa primeira temporada em poucos parágrafos.

Os eventos da primeira temporada ainda existem, mas na segunda e mais recente temporada eles dão lugar a conceitos, explicações e muitos, mais muitos fanservices para os fãs da franquia de jogos da Konami que já tem mais de 30 anos. Mas de que jogo foi tirado esse plot? Na verdade de vários.

Castlevania: A Necessidade de um Retcon

Retcons nada mais são do que pequenos ajustes em uma história já construída com o simples objetivo de, ou amarrar pontas soltas, ou deixas perguntas que poderiam ser exploradas em momentos futuros. É diferente do reboot e do soft reboot, pois esses dois afetam a história como um todo, ou um personagem em especifico. No nosso caso eles apenas, acrescentam elementos à já extensa mitologia da série.

Na primeira temporada da série temos a adaptação dos primeiros momentos do jogo Castlevania III: Dracula’s Curse, lançado em 1989 para NES, que eu já expliquei um pouco na minha analise do jogo Bloodstained: Curse of the Moon.

Porém nesta segunda temporada a equipe fez o dever de casa e incluiu toda a cronologia oficial, ou seja, elementos de jogos como Castlevania: Lament of Innocence, lançado em 2002 para PS2, Castlevania: Curse of Darkness, lançado em 2005 também para PS2 e do clássico cult, Castlevania: Symphony of the Night, lançado em 1997 para PSX. Os dois primeiros fazem assim como o último jogo fazem retcons na história de Dracula’s Curse, acrescentando elementos como a origem de Drácula, a origem do clá Belmond e acontecimentos de antes, durante e depois do jogo dos anos 80. Como é o caso de Curse of Darkness que mostra até mesmo acontecimentos depois da passagem de Trevor pelo castelo.

Uma guerra conta a humanidade

Como vimos no fim da primeira temporada a guerra aos seres humanos foi declarada e os vampiros pretendem dizimá-los ou como dizem “transformar a humanidade em rebanho”. Drácula reúne em seu castelo vampiros das mais diversas regiões do mundo conhecido e dentre eles se destacam o viking Godbrand e Carmilla, personagem presente na franquia desde o segundo jogo, mas aqui ganhando camadas surpreendentemente interessantes.

Além disso, Drácula tem para si dois humanos que dominam a arte de forjar demônios: Hector e Isaac. Hector é o que podemos entender como um necromante que desde criança já tinha uma relação meio mórbida com a morte e foi convocado pelo senhor das trevas com a promessa da criação de um novo mundo onde essa humanidade mórbida e cruel estaria distante. Já Isaac, que curiosamente aqui foi mudado para ou outra etnia, o que foi muito bom por sinal; surge como um fugitivo de uma ordem templária onde sofria, mas resistia por amor ao seu amo. Um amor homossexual que obviamente era repugnada por seu senhor rendendo uma bastante forte na série.

Com o conselho de guerra formado por Drácula, o objetivo é bastante claro. Levar a cabo a humanidade, mesmo que isso signifique impedimentos. Curioso notar que nem mesmo a aliança entre Belmont, Belnades e Alucard torna o conde menos decidido a levar o plano adiante.

Expansão e explicações desnecessárias

Ao inserir tantos elementos de tantos jogos na série a chance de dar errado é enorme não é? Errado. O que assistimos são passagens e momentos chaves de todos os jogos e alguns até que enriquecem a franquia como o passado de Hector que é o protagonista de um dos jogos ou mesmo Carmila que aqui tem falas longas e que servem basicamente para questionar pontos cruciais além de revelar uma trama de traição a Drácula. Algo bastante comum para quem está familiarizado com a série de RPGs Vampiro: A Máscara que é claramente uma das influencias da série, o que é irônico já que diversos elementos da franquia Castlevania estão em Vampiro.

Logo os três caçadores vão até o antigo lar da família Belmont e lá somos apresentados a mais do que algum dos jogos ousou contar. A casa foi fundada por Leon Belmont no século XI e guarda séculos de livros, artefatos e temas relacionados às criaturas da noite. O que deixa Sypha empolgada e Alucard desconfortável diante de um mausoléu de semelhantes a ele.

São nesses momentos que temos os poucos momentos engraçados da série com a implicância inicial de Trevor e Alucard que a meu ver é o pronto fraco da trama. Trevor não consegue manter a pose de anti-herói da primeira temporada e lidar com as alfinetadas e Alucard e o seu legado. O que o força de ir de uma ponta sobre “não entender nada do que tem guardado” ali, até a emoção de achar o lendário chicote sagrado “Vampire Killer”, chamado aqui de “Morningstar” ou Estrela da Manhã. A relutância e implicância de Sypha com Trevor pode ser explicada pelo interesse romântico, falta o Trevor babaca da primeira temporada. O caminho dele de zero a herói está tão conturbado que até mesmo seu nome é explicado: Uma homenagem a Trifor, parceiro de aventura de Leon.

Traição no castelo do Lord das Trevas

Um dos pontos mais interessantes da franquia é a ideia do castelo como um organismo vivo que muda a cada vez que Drácula é ressuscitado. A série se aproveita dessa ideia fazendo com o que o castelo possa se teletransportar graças ao poder do conde. Depois de alguns episódios trancafiados nos templo dos Belmond, Sypha encontra um antigo feitiço em adâmico, a língua usada por Adão e Eva no paraíso, que pode selar o castelo em um ponto fixo. Tornando assim possível a invasão.

Enquanto isso plano de manipulação de Carmilla vai de vento em polpa já que Hector conseguiu ser ludibriado. Apesar de Drácula e Isaac saberem do que se trata. O criador de demônios é tolo o suficiente para quando notar os planos reais dela, já ser tarde demais. A cidade de Braila é invadida por ser uma cidade portuária e única saída da Valáquia e capaz de tornar os planos de assassinar o Lord das Trevas possível.

O plano está indo muito bem, mas não contava com a interferência do plano de Trevor, Sypha e Alucard. Hector agora é visto como um traidor juntamente com Carmilla o que dá o pano de fundo para Curse of Darkness que se passa logo após os eventos de Dracula’s Cruse, ou não...

“Ninguém toma de mim o meu castelo”

Sypha trás o castelo justamente para frente do castelo Belmont e a batalha final acontece. Ao som de Blood Tears uma das mais famosas canções da franquia. Apesar de achar que o arranjo não casou muito bem com os pianos, mas tudo bem, vale pela nostalgia. Muito do passado de Alucard e Drácula são colados e o desfecho se proe a passar uma régua em tudo que foi vivido até aqui.

Após isso temos um oitavo episódio servindo mais como epilogo e deixando as pontas necessárias para uma terceira temporada, que a meu ver não deveria acontecer, mas provavelmente irá.

Os motivos são que o cerne de Castlevania é a batalha dos Belmond contra Drácula. Os pontos apresentados por Sypha como as forças que lutavam em Braila, que sabemos que são as forças de Carmilla os motivos de Isaac e a corrupção da igreja não são motivos pra continuar a série. Se por acaso ela seguisse para um rumo de ir ao futuro com Richter e o retorno de Alucard como em Symphony of the Night seriam motivos suficientes pra uma nova temporada.

Concluindo

Castlevania é uma série com uma proposta nunca vista na área de games. Uma animação que é fiel ao material original. Oferece o fanservice na medida e dá profundidade a temas que pouco podem ser tratados em jogos de aventura side-scroling como os da era 8 e 16-bits.

Por outro lado decisões tomadas por Warren Elis como mantem o grupo principal parado por mais da metade da temporada, explorar alguns personagens que pouco fizeram a história e um desfecho que dificulta a continuidade me fizeram perder o interesse em uma possível terceira temporada, se ela acontecer.

Assistam que seu tempo não será perdido e se aceitam um conselho: evitem o último episódio.

Carmila estava certa o tempo inteiro.

UPDATE: Em 31 de outubro no Halloween, no hemisfério sul, a terceira e desnecessária temporada foi confirmada.



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