Aguardente

quero adormecer amortizado pela pinga e pelo sol
sonolência ardendo pelo meu corpo
teu cheiro se espalhando pelo lençol
algodão feito nuvens
tédio em 24 parcelas com juros e correção
todas as ausências em mim
todos os restos alheios em mim
tua boca ainda molhada do prazer
te ofereço minha saliva e o dinheiro que não tenho,
meu hálito-aguardente e as noites de carnaval
lágrimas, te ofereço lágrimas e alguma dor
também lhe dou minha língua entre tuas pernas
e alguma coisa de carinho.

quero adormecer amortizado pela pinga e pelo suor…
de vez em quando ela é bonita
noutras noites parece um sonho que vem me assombrar
é tarde da noite e, da cama, você diz pra eu me deitar
mas eu ainda penso em cantos escuros e naquela outra
que ajoelhada me saboreava desassossegos
enquanto eu derretia em frios azulejos.

quero adormecer amortizado pela pinga e pelo limão…
ao seu lado… triste
amando teus pedaços minúsculos,
teus músculos
que se contraem durante o sono,
amando tuas imperfeições; detestando tuas ausências,
máculas, mentiras…

Foto: Antonio Martínez

Originally published at gamella2.wordpress.com on January 19, 2015.

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