Voluntários da Pátria

Quando ouviu o bater de porta, bater de porta de carro novo, e em seguida sentiu a lufada de ar frio, do ar condicionado — Sergio entrara primeiro e afogara-se no celular — lembrou do bater de portas do carro do pai, das aulas de balé, dos dezesseis anos, de quando ainda não tingia os cabelos, quando acalentava esperanças no peito, os lábios de menina borrados de batom vermelho, batom da mãe, da tia, o corpo maior que as roupas, os desejos maiores que a cama. A vida toda por viver… depois a faculdade de psicologia, todo o deslumbre, as crises de ansiedade, os medos. Lembrou-se de Deleuze e Guatttari, “o desejo constantemente une o fluxo contínuo e objetos parciais que são por natureza fragmentários e fragmentados”.

Deu-se conta que sentia uma fome como nunca havia sentido antes. Fome de viver uma vida inteira, a fome de uma vida toda, uma vida que não servia para ser dividida a três, nem mesmo a dois, uma vida que não cabia naquele espaço que lhe sobrara, uma vida que já não era anunciada nos comerciais de TV e nem mesmo era prometida nos púlpitos das igreja pelas quais a mãe a levava ainda criança.

Quando ele volta? — Sergio interrompe o fluxo de pensamentos. Ela permanece calada e pensa em Rafael. Nem Sergio e nem Rafael cabiam ali. Nenhum dos dois seriam capazes de entender a falta que lhe fazia as aulas de balé ou o filho que nunca tivera. Sergio certamente faria troça para lembrar a distância que a idade dos dois guarda e o ventre agora inútil. Rafael andava sempre ocupado, já não enxergava o mundo ao redor, obstinado, havia decidido enriquecer a tudo custo, juntar o primeiro milhão, o segundo e o terceiro.

Moço — a voz ressoa pela primeira vez — entra na Voluntários. Ele vai descer primeiro.

Sabia que Sergio entenderia o recado. De alguma maneira, fora ele o responsável por tudo aquilo. Ele que a perseguiu no trabalho, que insistiu, que irrompeu no seu mundo sem pedir licença, com um ar selvagem, lascivo, sem se importar com qualquer tipo de regra, apenas com a vontade de consumir, de morder, verter, lambuzar-se do alheio. Desde o primeiro SMS sabia que Sergio, depois de satisfeito, a atiraria fora, como um chinelo antigo que já não serve mais. Ainda assim resolveu ir. Tânatos e Eros sempre andaram de mãos dadas. Passaram uma década de amores furtivos e de promessas não cumpridas.

“O amor só é bom se doer” certamente Rafael citaria Vinicius, se acaso soubesse.

Por muito tempo, esquecera-se o que era viver ao sabor dos ventos. Talvez agora lembraria. Estava disposta. Queria se lembrar.

Pra onde agora? 
Pega ali, a orla, a praia — queria ver o sol nascer no Arpoador.
Não quer passar pro banco da frente?

Pensa em hesitar, mas de repente sente uma alegria súbita, espocando pelas têmporas afogueadas. Respira fundo para sentir o medo refestelar-se no ventre murcho, abortivo, caranguejeiro, que jamais vai parir outra vida. Desce do carro e passa para o banco da frente. O carro segue pela orla. O celular vibra na bolsa. O paraíso é uma casa pequenina com os filhos na varanda, resume a canção que toca no rádio do táxi.

*Texto de 2015. O desafio era reescrever este conto: Opala Verde.

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