A Saga de Maria Tereza

Como R$ 1,5 milhão terminaram estacionados no coração de Campo Grande e o que tem sido feito para tentar mudar isso.

Por Guilherme Braga Alves, do Nós de Campo Grande


Quem passa no cruzamento da Avenida Cesário de Melo com a Estrada do Monteiro, um dos mais movimentados de Campo Grande, vê uma instalação que chama a atenção. A estação de BRT Maria Tereza, construída no início do ano de 2014, é uma prova concreta do dinheiro público investido e inutilizado. Mas antes de nós olharmos de perto para a estação, é preciso voltar um pouco no tempo.

O PLANEJAMENTO

Dois de outubro de 2009. Em Copenhague, Dinamarca, o então presidente do Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge, anuncia ao mundo que o Rio de Janeiro é sede da primeira Olimpíada sul-americana. Um ano depois, em 2010, a Prefeitura do Rio de Janeiro começa a anunciar de forma mais efetiva que construirá corredores rápidos de ônibus, ou BRTs, na cidade. Um deles é o TransOeste, ligando Santa Cruz à Barra da Tijuca.

Ano 2010. As intervenções na cidade para a construção do TransOeste já são visíveis, e surge a possibilidade de expandir o corredor para Campo Grande. Enquanto nenhum projeto é oficialmente anunciado, surgem dois trajetos possíveis. O primeiro, no sentido norte-sul, teria cerca de 14 km e ligaria Campo Grande à Avenida D. João VI (antiga Avenida das Américas), caminho para a região da Barra. O segundo, com pouco mais de 12 km, ligaria o bairro à Santa Cruz através da Avenida Cesário de Melo, em sentido leste-oeste.

Construção de viaduto na interseção da Avenida das Américas com a Avenida Salvador Allende, em 2011. Parte das obras feitas para a TransOeste.

Nesta época, a segunda opção já contava com via segregada para ônibus, num corredor que era operado pelas vias regulares que transitavam pela região. No trecho norte-sul, havia a Estrada do Monteiro, duplicada, e a Estrada do Mato Alto, até então com pista simples.

A PROMESSA

Finalmente decide-se pela implantação do trecho leste-oeste, até Santa Cruz, aproveitando-se da estrutura segregada já existente. Foi neste momento que enviei o seguinte tuíte ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes:

Meu Rio

Para quem não está acostumado com a geografia da Zona Oeste, dou um exemplo: fazer o passageiro sair de Campo Grande e ir até Santa Cruz para chegar à Barra é como sair do Leme pela orla, ir até o Leblon e então seguir para o Centro pelo Jardim Botânico, ao invés de simplesmente usar o Túnel Novo.

A resposta do prefeito foi essa:

De fato, naquele momento a Estrada do Mato Alto estava sendo duplicada. A obra foi concluída em 2012.

AS INAUGURAÇÕES

Em 2012, o Rio de Janeiro sediou a Rio+20, um evento internacional sobre o clima. Foi neste momento que o primeiro trecho da TransOeste, entre Santa Cruz e o Terminal Alvorada foi inaugurado, com algumas estações previstas para agosto. O trecho entre Campo Grande e Santa Cruz contava com previsão de inauguração para agosto de 2013.

Após a inauguração, a secretaria municipal de Transportes começou a cortar as linhas que ligavam a Zona Oeste* à Barra da Tijuca. A primeira foi a 882, Santa Cruz / Barra da Tijuca, já que seu trajeto era um espelho do BRT. Com o tempo, as linhas entre Campo Grande e Bangu (853, 854, 855 e derivadas) também foram seccionadas, tendo seu trajeto limitado até as estações Magarça e Mato Alto, na av. D. João VI, de onde os passageiros deveriam fazer a transferência para o BRT.

O ano de 2013 entra, nessa complicada história, como o ano do atraso. Isso porque a construtora responsável pelo trecho Campo Grande / Santa Cruz não cumpriu os prazos acordados com a Prefeitura. Ou seja, no fim do ano de 2013 o BRT não ia além de Paciência.

Com o ano de 2014, tudo parecia indicar que finalmente a saga do BRT em Campo Grande teria um fim. As obras nas estações voltaram a acontecer, e no fim do mês de fevereiro, todas, incluindo a estação Maria Tereza, estavam prontas. O BRT chega então à Campo Grande, com o trecho até Santa Cruz.

Mas, e a perna prometida em 2011?

NASCE O NÓS DE CAMPO GRANDE

Em meados de 2014, a rede Meu Rio cria o Nós do Meu Rio. Os Nós são núcleos de mobilização de bairro, e diversos foram criados em 2014. Em Campo Grande, eu, o Haylton Leonardo, o João Henrique e o Vinicius Tavares nos unimos para formar o Nós de Campo Grande, que nasceu sob uma escada rolante de shopping no último domingo de julho.

Com o Nós criado, era hora de identificar problemas do bairro e trabalhar para solucioná-los. Foi quando a Maria Tereza, então construída há seis meses, entrou em nossas vidas.

A falta do BRT prometido entre Campo Grande e a Barra e a existência de uma estação inutilizada no coração do bairro nos motivou a lançar a campanha Bota pra Rodar, em agosto de 2014.

A IMPRENSA ENTRA NA BRIGA

Ainda naquele mês, buscando mobilizar a população e atrair a atenção da imprensa, Nós inauguramos a estação Maria Tereza. Munidos de TNT, balões de festa, disposição e bom humor, fizemos um laço gigante, que foi pendurado na estação e cortamos a fita. Só que os ônibus não vieram.

Inauguração da estação Maria Tereza, agosto de 2014. Primeira foto: Jornal Extra. Segunda foto: Meu Rio.

Naquela época, o Jornal Extra, O Dia e o Portal Zona Oeste cobriram nossa inauguração. Como resposta, a Prefeitura informou que o trecho Campo Grande / Alvorada do BRT TransOeste estava no planejamento, mas que não tinha data para a inauguração oficial da estação e da linha, já que a prioridade era a conclusão da TransCarioca.

No mês seguinte, a TV Globo procurou o Nós de Campo Grande e fez uma entrada ao vivo da estação Maria Tereza no telejornal Bom Dia Rio. A administração municipal manteve a resposta anterior: a prioridade estava sendo dada para o BRT TransCarioca, e por isso o trecho de Campo Grande estava em segundo plano, sem prazo para inauguração.

Só que essa desculpa não valeu por muito tempo, já que no mês seguinte a TransCarioca foi concluída. Com isso, o RJTV esteve em Campo Grande novamente e ouviu o Nós, fazendo uma reportagem que mostrou o que todo campograndense que vai para a Barra da Tijuca precisa enfrentar. Diante de mais uma reportagem, a Prefeitura alegou que não poderia inaugurar o trecho, já que não há pista segregada (canaleta) para o BRT no trecho das Estradas do Monteiro e do Mato Alto.

Nós argumentamos que também não há pista segregada em Santa Cruz, no trecho entre a estação General Olímpio e a estação Pingo d’Água. Ainda assim a resposta se manteve.

MATO ALTO OU MAGARÇA?

Após a reportagem do RJTV, nós enviamos um e-mail para a Secretaria Municipal de Transportes solicitando informações sobre o BRT Campo Grande / Alvorada, pedindo uma reunião na Secretaria e apresentando o fato de que o BRT opera em pista compartilhada em Santa Cruz.

Esta foi a resposta recebida:

A Subsecretaria de Planejamento desta Secretaria informou que a ligação Campo Grande — Alvorada por BRT depende de obra de implantação da pista exclusiva (canaleta) na Estrado do Monteiro e na Estrada do Magarça, sendo que o projeto e a implantação estão a cargo da Secretaria Municipal de Obras. O caso do BRT Transoeste sem canaleta entre Pingo d´Água e Santa Cruz não deve ser repetido já que produz atrasos no sistema.

Pela primeira vez surgiu a possibilidade de que o BRT fosse construído na Estrada do Magarça, hipótese nunca apresentada antes e que contradiz a promessa feita pelo prefeito Eduardo Paes, ainda em 2011.

O BRT TransOeste, suas expansões e seus projetos.

Apesar da surpresa, nós solicitamos acesso ao projeto que estaria a cargo da Secretaria Municipal de Obras (SMO).

CADÊ O PROJETO?

Após sermos informados de que o projeto estaria na SMO, nós atuamos em duas frentes. Numa delas, fomos até uma audiência pública com o Secretário, que afirmou não ter conhecimento sobre a linha e que “o Secretário de Transportes vai poder dizer quando vai ter essa linha”.

Em outra frente, foi feita uma solicitação ao projeto da obra via portal 1746. A solicitação, feita no dia 17 de outubro de 2014, só foi respondida em 25 de maio de 2015, da seguinte forma: “Solicitamos que o cidadão entre em contato, diretamente, com o Fiscal responsável pela obra, no trecho mencionado, Engenheiro Carlos Alberto[…]. O mesmo prestará todo o atendimento necessário.”

Após contato com o engenheiro, obtivemos a resposta: “a Estação Maria Tereza foi implantada visando a ligação Cpo Grande-Barra pela Estr. do Monteiro-Estr. do Magarça. Por motivos que desconheço esta ligação ainda não foi implantada”.

“MOMENTO CERTO”

Diante da resposta dada pelo Secretário Municipal de Obras na audiência pública, o Vinicius Tavares, também do Nós de Campo Grande, esteve na audiência pública com o então Secretário Municipal de Transportes, Alexandre Sansão. A audiência foi realizada na Câmara de Vereadores, no dia 30 de outubro de 2014.

Vinicius perguntou sobre a data de abertura da estação. O então secretário disse que ela seria aberta “no momento certo”, ignorando que, para a população de Campo Grande, o momento certo já havia passado desde março de 2014, quando a estação fora concluída.

Você pode ver a pergunta de Vinícius e a resposta completa do secretário no vídeo abaixo.

R$ 1,5 MILHÃO

Em junho de 2015, o jornal O Dia revelou que a estação Maria Tereza custou aproximadamente R$ 1,5 milhão. A mesma reportagem informa que a estação foi construída para atender uma demanda futura e que não há previsão para sua abertura.

Vinicius Tavares, do Nós de Campo Grande, sendo entrevistado pelo RJTV.

No mesmo mês, a TV Globo voltou mais uma vez a Campo Grande e gravou nova reportagem na estação Maria Tereza com o Nós de Campo Grande. As respostas da Prefeitura se mantiveram na mesma linha, de que não há previsão para a implantação do serviço Campo Grande / Alvorada. Ainda, a Prefeitura alegou que havia previsão de construção da linha na época do planejamento, mas que devido à restrições orçamentárias, a prioridade fora dada para o Lote 0 da TransOeste, trecho que ligará o Terminal Alvorada a futura estação Jardim Oceânico do metrô.

INTERNACIONALIZOU!

Jornal La Croix, sexta-feira, 24 de julho de 2015.

Em julho de 2015, o Nós de Campo Grande e a estação Maria Tereza foram tema de reportagem do jornal francês La Croix, que trouxe a mobilização pela abertura da estação como exemplo de luta dos brasileiros pela melhora dos serviços públicos. O jornal destacou que a mobilidade urbana foi um dos temas centrais durante as Jornadas de Junho de 2013, e que o Nós de Campo Grande foi um grupo formado após o evento por jovens que estiveram nas ruas naquele momento histórico.

DESMONTAR A ESTAÇÃO?

O último capítulo — até agora — dessa saga aconteceu em 25 de julho de 2015, quando eu e o Haylton Leonardo, do Nós de Campo Grande, conversamos por aproximadamente 10 minutos com o secretário municipal de Transportes, Rafael Picciani, e pudemos transmitir pessoalmente o desejo dos moradores de Campo Grande de que a estação seja aberta. Em resposta, o secretário cogitou a possibilidade de desmontar a estação e utilizá-la num dos corredores do BRT já em construção na cidade.

Nós não consideramos a alternativa de desmonte plausível, visto que muito dinheiro público foi investido na construção da estação e que há previsão, embora ainda sem data, para que ela venha a ser utilizada onde está. Ao invés de aumentar o gasto público desmontando a estação sem atender os moradores de Campo Grande, a Prefeitura deveria trabalhar para a implantação do BRT.

Ainda, durante a breve conversa, foi feita a promessa para que uma reunião seja organizada entre o Nós, o secretário e os técnicos da Prefeitura, para discutir mais calmamente as possibilidades de ativação do trecho prometido.

* Zona Oeste, neste texto, é definida especificamente como a Área de Planejamento 5.



#BotaPraRodar é uma campanha feita pelo Nós de Campo Grande, que faz parte do faz parte do Nós do Meu Rio, o primeiro programa de formação de núcleos de mobilização local da Rede Nossas Cidades.

Nós também temos campanhas ativas para a garantia de circulação de ônibus durante as madrugadas e para a reativação das linhas que eram operadas pelas empresas Andorinha e Rio Rotas.

Você pode saber mais sobre o Nós de Campo Grande e entrar em contato conosco na nossa página no Facebook: facebook.com/NosdeCG.


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