Discoteca Básica Sentimental #1

Clara Averbuck apresenta Nina Simone Sings The Blues

O que aprendi com "Nina Simone Sings The Blues"

Encho a boca para falar que muito do que sei nesta vida aprendi com a Nina Simone. Mas assim, é tudo. Todas as áreas. E muito disso foi com o disco Nina Simone Sings The Blues.

Primeiro eu aprendi que mulher podia cantar blues. Eu não sabia. Eu nunca tinha ouvido.

Quer dizer, a primeira música na voz dela que eu escutei foi no carro de um namoradinho e na hora em que começou a tocar “I Put A Spell On You” eu parei tudo o que estava fazendo — e, nessa idade, lá pelos 16, a gente não para por pouco.

“QUEM É?”

“Nina Simone.”

Ele deve ter tentado continuar alguma coisa que começamos ali, mas, sinceramente, nem do rosto e nem do nome dele lembro mais. Lembro da Nina ecoando em mim. Lembro de entrar em casa e recorrer imediatamente aos discos dos meus pais para ver se tinha alguma coisa — eram muitos discos, e não, não tinha! Que desespero!

Sabe o que mais não tinha naquela época? Internet. Então eu não podia baixar uma musiquinha sequer dela. Pois fui atrás, descolei uma coletânea (“Saga Of The Good Life And Hard Times”) e todo um mundo se abriu pra mim. O que era aquela voz, aquele piano, o que eram aquelas letras? Muitas das músicas de protesto dela estão nesta ótima coletânea e muito aprendi ali, também, mas escolhi falar de blues. Da blueswoman Nina.

De antemão, já quero dizer que todas as músicas desse disco acabam comigo e meu espaço é restrito, ou falaria delas por horas, uma por uma, frase por frase, acorde por acorde. Mas não posso. Então vamos na ordem:

“Do I Move You” foi uma música com a qual me identifiquei na hora. Era uma mulher chamando um homem na chincha. Dizendo: e aí, eu mexo com você?

Do I move you, are you willin’
Do I groove you, is it thrillin’
Do I soothe you, tell the truth now
Do I move you, are you loose now
The answer better be (Yes, yes)
That pleases me

Nina Simone por Lourenço Mutarelli_acrílica sobre tela

Eu sempre fui assim. Aliás, outro dia me perguntaram “por que você é assim, né?”, nesse sentido mesmo. Acho que posso dizer que é uma das coisas que aprendi com a Nina. Se eu quero, eu vou atrás. Nada de bela, recatada e do lar. Podia ter respondido: porque ouvi muita Nina Simone, querido.

Mas isso não se resume a amor, sexo e seus enroscos. Porque quando você vai mexer na história da Nina sabe que para ser uma mulher negra naquela época você já tinha que nascer resistência. Não que hoje seja muito diferente. Se você não for um homem branco, o mundo já não vai te privilegiar. Mas já foi pior, sabemos disso e é por isso a minha escolha de um disco de blues. Blues é resistência. É música dos negros que tentaram calar e saquear. Muitos foram calados de fato, outros tiveram sua música roubada, mas não ela. Jamais ela. Aliás, costumo dizer que qualquer música que a Nina canta, vira dela. “Ne Me Quitte Pas?” Desculpe, é da Nina. “I Put A Spell On You?” Desculpe, eu te amo, Screaming Jay Hawkins, mas a Nina pegou. E tantas outras.

“Backlash Blues” foi uma das primeiras músicas a me tirar do meu mundinho branco do Sul do Brasil e me fazer entender conflitos raciais, estruturas de poder e afrontamento. Pois é. Teve que vir de fora. De dentro eu entendi depois, e com outros sons e de outras formas. E digo mais: taí uma música que se desenrolou como uma profecia. Ficou e toca até hoje. Está tocando neste momento. Vai tocar para sempre. Ela fala com o Mr. Backlash, a Entidade-Estado que não a respeita, aumenta impostos, congela salários, manda os filhos para a guerra, dá casas e ensino de péssima qualidade para a população negra, latina e estrangeira. E diz: Mr. Backlash — o que você acha que eu tenho a perder? Eu vou te deixar com o Backlash Blues, e é você que vai ter “o blues”, não eu, espere e veja. “Blue”, em inglês, é azul, é música e é tristeza. Estamos esperando o Mr. Backlash provar seu veneno e morrer de desgosto com negros e mulheres no poder, mas infelizmente parece que ele só ascende. Mas aí eu penso que essa ascenção é uma reação aos avanços e que hoje a Nina estaria orgulhosa demais pela marcha das mulheres que teve nos EUA com falas da Angela Davis e de tantas outras ativistas negras importantes, com tanta gente na rua, com tanta resistência.

Eu preciso falar do disco e estou falando de política. Ok, imaginem que digito com uma mão e a outra é um punho erguido. É assim mesmo. Não tem como dissociar.

Aí teve “Blues for Mama”. Se não foi essa música que plantou a semente do feminismo na minha pessoa, não sei mais o que pode ter sido. A Nina de mãos dadas com a minha mãe são as culpadas. A Nina cantando para outra mulher que o ex-marido dela era um imbecil e que, além de a ter deixado toda roxa de tanto apanhar, não anda atrás dele na rua e anda por aí achando que é mulher mas agindo feito homem, só arruma confusão. E que ele já tem outra mulher pendurada no braço dele e coloca toda a culpa nela. Rapaz. Essa música me despertou a fúria com que ela canta “E aí, o que você vai fazer?” e eu pensava minha nossa, isso está acontecendo agora, não na música apenas, quer dizer, o negócio de andar atrás não mais que pelamor, né, mas isso, ISSO ainda acontece. Aqui. Agora.

É. Responsabilidade da Nina também eu aprender que mostrar vulnerabilidade não significa demonstrar fraqueza porque o tanto que eu já ouvi “I Want a Little Sugar In My Bowl” rebolando pelo quarto em momentos de carência e dizendo que preciso, sim, de doçura na alma, de calor no corpo, de alguém para abraçar, what’s the matter, daddy, come on, save my soul, eu cantava pelas paredes da casa.

Quer dizer, em um disco só posso sintetizar como aprendi força, resistência, alteridade, fragilidade, romance, ação, gana. Tem outras músicas incríveis nesse disco como “Since I Fell For You”, “In The Dark”, “The House of The Rising Sun” e “Buck”, mas eu escolhi especificamente as que são da autoria dela, pois sim, senhoras e senhores, ela era uma mulher que compunha as próprias letras e as próprias músicas genialmente no piano, modalidade na qual, apesar de ter estudado na Julliard School, uma das mais exigentes escolas de música, foi impedida de ingressar no Instituto de Música Curtis na Filadélfia. Por quê? Por ser negra.

O mundo foi cruel com Nina, que, mesmo tendo perdido parte de sua sanidade ao longo da vida, foi muito gentil conosco, deixando uma obra impecável e que nunca vai morrer. Diferente do Mr. Backlash, que, para seu desespero, está com os dias contados.

Nina Simone por Lourenço Mutarelli_acrílica sobre tela

Clara Averbuck é escritora, tem sete livros publicados e já teve a obra adaptada para cinema e teatro. Já escreveu para inúmeros sites, revistas e jornais e hoje é uma das editoras do site Lugar de Mulher, criado em 2014 e que foi um dos principais agentes a fomentar o debate sobre as questões de gênero no Brasil. Tem também um canal no YouTube e uma dezena de projetos que vai, sim, tirar do papel até um dia desses.