Faça você mesma

Editor da Zumbido
Jul 3, 2020 · 10 min read

Do Riot Grrrl ao Girls Rock Camp, uma análise sobre a música como ferramenta de empoderamento

O mundo da música, assim como em centenas de outras áreas, é opressivo e, muitas vezes, desanimador para a grande maioria das mulheres. Reflexo de como a sociedade e suas relações foram construídas. Nesse contexto, como é possível construir confiança para criar artisticamente?

“Para John Stuart Mill, tudo o que é hábito passa a ser naturalizado.”

A crença de que a mulher não possui qualidades emocionais, abstratas e intelectuais o suficiente para criar a persegue até hoje. E o ciclo de medo e culpa gerado pela limitação dos espaços artísticos ainda existem [1]. Certamente, não é realista esperar que a maioria dos homens, nas artes ou em qualquer outro campo, veja a luz e descubra que é do seu próprio interesse conceder igualdade completa às mulheres [2].

Portanto, a baixa representatividade feminina nas artes, por exemplo, não possui origem em uma sintomática má vontade masculina ou na confiança frágil das mulheres artistas, mas sim no cerne das nossas estruturas institucionais.

Para John Stuart Mill, tudo o que é hábito passa a ser naturalizado. Por isso, a ausência das mulheres em alguns espaços assim como a sua submissão, refletem um costume universal, e qualquer afastamento desse modo de vivenciar a sociedade não parece natural para a maioria [3].

Não à toa, o mundo criativo é em grande parte o mundo do homem. A profissão de artista exige compromisso, rejeição da família, em alguns casos, e independência. Essas são características de um homem comprometido com a sua arte, mas não de mulheres [4].

Por isso, iniciativas que constroem ambientes seguros para que as mulheres artistas possam criar livremente e não invisibilizar seus talentos são cada vez mais urgentes e necessários.

Através desses espaços, as mulheres conseguem compartilhar os seus trabalhos e trocar experiências para outros processos criativos [6]. Muito além disso, proporciona sustentabilidade na ideia de pensar aquele fazer artístico como uma profissão real e possível.

Capa do zine GUNK, de Ramdasha Bikceem, onde a artista escrevia sobre raça, feminismo e angústia geral da juventude | Imagem: The Paris Review

Riot Grrrl é um movimento que surgiu no início dos anos 90, em Washington, DC. Sua ideia está amplamente conectada à transgressão das funções socialmente destinadas às mulheres. Surgiu como resposta às cenas punk e hardcore que eram majoritariamente masculinas e se construíam e cresciam ali, no fim dos anos 80 e início dos 90.

Implantando em seu cerne a cultura do DIY (Do It Yourself) [7] para desconstruir e redefinir a identidade feminina, Riot Grrrl marcou indiscutivelmente o início da terceira onda do feminismo [8]. Embora os debates partissem de outros iniciados há décadas, uma nova perspectiva foi criada. Principalmente, no que tange a juventude, a sexualidade e o senso de comunidade.

Documentário do canal Polyphonic sobre o movimento que redefiniu o punk

Aos poucos, a contestação sobre o machismo dentro da cena musical evoluiu para a reflexão a respeito do sexismo em toda a sociedade e como isso afeta as mulheres.

Toda produção artística, política e musical deste período, e oriunda do movimento, serviram de aporte para que, a longo prazo, uma geração de mulheres fossem capazes de criar iniciativas que se apropriam do ideal riot grrrl e o projeto Rock ’n’ Roll Camp For Girls surge dentro deste contexto.

O Rock’n’Roll Camp For Girls nasceu em Portland — Oregon como um acampamento de verão em 2001 e foi idealizado por uma estudante de graduação da Portland State University. Dois anos mais tarde com a mudança de local um instituto foi criado, o Girls Rock Institute. Dessa forma, as atividades e o número de mulheres atendidas cresceram, e programas para contemplar diferentes esferas e recortes musicais nasceram.

“(…)por que e como os discursos culturais dominantes devem ser desafiados.”

Ele utiliza a criação e a execução de música como um meio para as campistas se empoderarem, enquanto, simultaneamente, participam de uma forte comunidade com outras meninas e adolescentes.

Usando a participação ativa como ferramenta educacional mais valiosa, o acampamento se apropria dos valores e práticas do movimento Riot Grrrl. Além disso, conscientiza as participantes sobre por que e como os discursos culturais dominantes devem ser desafiados [9].

Foi a partir de 2007, ano que o projeto foi tema central do documentário Girls Rock! The Movie [10], que mais camps começaram a surgir em outros países. Hoje, existem pelo menos 117 projetos semelhantes espalhados pelo mundo e organizados através de uma comunidade internacional chamada Girls Rock Camp Alliance [11], onde todas essas mulheres podem encontrar um ponto de apoio e trocar experiências entre si. Em 2016 também nasceu o Ladies Rock Camp, destinado a mulheres na fase adulta e com os mesmos propósitos.

Cartaz do documentário Girls Rock! The Movie de Arne Johnson e Shane King | Imagem: Internet Movie Database (IMDB)

Quando falamos sobre Riot Grrrl os principais nomes que associamos são das bandas Bikini Kill e Bratmobile. Foram elas que escreveram os primeiros zines e músicas dentro do viés do que viria a ser o movimento.

Em 1991 Kathleen Hanna [12], líder da Bikini Kill, escreveu e publicou o manifesto [13] intitulado Riot Grrrl no zine Girl Power. No texto ela encorajava outras garotas a escreverem seus próprios manifestos, a criarem bandas, gravarem seus próprios discos, construírem espaços próprios de debates e reflexões. Essa mobilização foi fundamental para que uma rede de contatos fosse criada dentro dos EUA e a médio e longo prazo se espalhasse para outros países, como o Brasil.

Em 2013, Kathleen Hanna relendo o The Riot Grrrl Manifesto publicado em 1991 | Video: Bicephaly Pictures

Se na América do Norte, dentro do recorte sonoro Riot Grrrl, Bikini Kill, Bratmobile foram primordiais para o surgimento de tantas outras bandas, por aqui, foi a paulistana Dominatrix que cumpriu esse papel a partir de 95.

Foram elas que lançaram Girl Gathering, considerado o primeiro álbum [14] de uma banda composta somente por mulheres a inserirem na cena punk brasileira o argumento riot grrrl. Ponto chave para que o movimento ganhasse força e mais bandas surgissem em São Paulo.

No fim da década de 90 a internet já era realidade e foi terreno fértil para que crescesse pelo país o discurso Riot Grrrl em forma de zines, festivais, shows e ações. O que possibilitou que a Dominatrix seguisse na estrada até a virada dos anos 2000.

Dominatrix se apresentando no Lady Fest em outubro de 2007 | Foto: Rodrigo Bertolino

Flávia Biggs se identificou com o ideal e atitude da música punk no início dos anos 90, mas aos poucos percebeu que o espaço destinado às mulheres era restrito e desrespeitado. Um movimento com um norte libertário, no fim das contas, reproduzia os aspectos patriarcais e machistas da nossa sociedade.

Para mim, pra minha vida, foi essencial, para a mulher que eu me tornei, para a cidadã que me tornei, ter tido esse contato com a música, com o rock’n’roll, com o feminismo punk. A oportunidade de tocar um instrumento, fazer um som que pudesse expressar as minhas ideias e me empoderar através da música.” (Flávia Biggs, 2019)

Em 2001 passa a ser a guitarrista da Dominatrix e dois anos mais tarde sai em turnê pelos EUA com a banda Haggard, do selo Mr. Lady. Uma das integrantes da Haggard era parte da diretoria do Rock’n’Roll Camp for Girls, em Portland, uma das cidades que a turnê passou. Foi ali, que Flávia teve o primeiro contato com o camp.

No ano de 2005, Flávia, que além de guitarrista, a essa altura já era socióloga e educadora, resolveu ser voluntária em Portland e assumiu as funções de produtora e instrutora de instrumento. A experiência foi essencial para que ela percebesse o potencial de rede e comunidade que o camp proporciona às meninas e as mulheres voluntárias.

Quando retornou sua primeira iniciativa de trazer aquele mesmo potencial que ela enxergava no projeto para Sorocaba, cidade que nasceu e reside, foi criar, ainda em 2005, a Oficina de Guitarra para Meninas.

As aulas eram ministradas na escola em que lecionava sociologia e foi a primeira semente do que viria a ser o Girls Rock Camp Brasil [15]. Primeiro camp da América do Sul a replicar a mesma experiência criada no Rock’n’Roll Camp for Girls, nos EUA.

Cartaz produzido no Girl Rock Camp Brasil 2019 | Foto: Reprodução/Facebook — Girls Rock Camp Brasil

A primeira edição do GRCB aconteceu em 2013 e reuniu mais de 50 voluntárias. Essas mulheres, entre artistas e profissionais da música, vieram através de chamamento público e também da rede que Flávia formou ao longo de sua carreira como artista. Foram atendidas 60 meninas.

As campistas de 7 a 17 anos têm uma semana para aprender um instrumento, formar uma banda com suas colegas, escrever uma música original e executá-la para o público. Além das vivências musicais, são oferecidas oficinas de expressão corporal, serigrafia/stencil, composição musical, fanzines, defesa pessoal, imagem e identidade, entre outras experiências.

“Não é sobre formar novas artistas em uma semana, mas sim sobre construir autoconfiança.”

O Girls Rock Camp é realmente único em seus esforços para oferecer às meninas um autoempoderamento extremamente necessário. Segundo Flávia, é, acima de tudo, utilizar a música como forma de celebração da autoestima dessas meninas e dentro do processo de confiar em si mesma, existe também o processo de se confiar na banda e nas amigas que elas criam. Portanto, valoriza a autoestima, mas também a sororidade. É fortalecido tanto o sentido de coletivo, quanto de representatividade, pois passam a ter referenciais nas mulheres adultas e artistas que estão ali lado a lado com elas.

No que diz respeito às transformações das campistas, Flávia diz que a maioria das meninas chegam tímidas e sem conhecimento musical. Mas na metade da semana já estão com amizades construídas. A percepção de que a banda está dando certo e que estão conseguindo realizar as atividades são fatores que também anima e as transforma.

Showcase no Girls Rock Camp Brasil 2019 | Foto: Reprodução/Facebook — Girls Rock Camp

A metodologia de ensino de instrumento do GRC é direta, baseada no DIY, e permite que mesmo sem conhecimento sobre música seja possível performar ao vivo. Portanto, não é sobre formar novas artistas em uma semana, mas sim sobre construir autoconfiança, de modo que essas meninas sintam segurança para executar e realizar outras atividades que criem afinidades ao longo da vida. É um trabalho capaz de abrir outras portas, mesmo que elas não se enveredem para a música.

O acampamento desafia as campistas a assumirem riscos com suas identidades, tanto como mulheres quanto como artistas (ALI, 2012). Assim, o GRC possui capacidade de ampliar os parâmetros disponíveis para uma produção positiva dessas meninas. Ele ensina a explorar a criatividade e potencialidades.

O camp se transformou em Instituto Cultural Girls Rock Camp Brasil. O espaço físico e fixo possibilitará que, assim como a iniciativa irmã estadunidense, as atividades e os atendimentos sejam ampliados ao longo do ano todo. Devido a pandemia o instituto não pôde ser inaugurado. Entretanto, a equipe se mobiliza para criar ações virtuais diariamente e também abriram uma campanha de financiamento coletivo [16] para que o espaço seja mantido.

Apresentação no Girls Rock Camp 2019 | Foto: Reprodução/Facebook — Girls Rock Camp

Toda vez que uma mulher ousa tocar uma guitarra, pegar nas baquetas, subir em um palco e dizer o que pensa no microfone, ela está ocupando um lugar que foi historicamente negado a ela.

Portanto, quanto antes mostrarmos para as meninas a importância da autoestima e do empoderamento, mais cedo elas acreditarão que podem transformar a sociedade em que estão inseridas.

Através de projetos e ações como o GRC isso é possível. Além do impacto positivo individual e coletivo que possuem, eles são necessários para que estatísticas mudem e a representatividade feminina na música seja real e consistente, “porque acredito com todomeucoraçãocabeçacorpo que garotas constituem uma força revolucionária que podem, e irão, mudar o mundo de verdade.” [17]

[1] FERNANDES, Larissa. Falta de representatividade feminina no cenário musical. 2017. Acesso em: 20 out. 2019.

[2] NOCHLIN, Linda. Why Have There Been No Great Women Artists? The center for programs in contemporary writing. UPENN. 1971. Acesso em: 23 nov. 2019.

[3] NOCHLIN, Linda. Why Have There Been No Great Women Artists? The center for programs in contemporary writing. UPENN. 1971. Acesso em: 23 nov. 2019.

[4] PIIRTO, J. Why are there so few? (Creative women: Visual artists, mathematicians, scientists, musicians). Davidson Institute. 2000. Acesso em: 16 jan. 2020.

[5] USC (University of Southern California)

[6] FERNANDES, Larissa. Falta de representatividade feminina no cenário musical. 2017. Acesso em: 20 out. 2019.

[7] DIY — Do It Yourself (Faça Você Mesmo). Um dos principais ideais do movimento punk.

[8] ALI, Nayla. From Riot Grrrl to Girls Rock Camp: Gendered Spaces, Musicianship and the Culture of Girl Making. Networking Knowledge: Journal of the MeCCSA Postgraduate Network, v. 5, n. 1, 24 Fev. 2012. Acesso em: 23 jan. 2020.

[9] ALI, Nayla. From Riot Grrrl to Girls Rock Camp: Gendered Spaces, Musicianship and the Culture of Girl Making. Networking Knowledge: Journal of the MeCCSA Postgraduate Network, v. 5, n. 1, 24 Fev. 2012. Acesso em: 23 jan. 2020.

[10] Trailer de “Girls Rock! The Movie”

[11] https://www.girlsrockcampalliance.org/

[12] The Punk Singer

[13] Manifesto em português

[14] RIBEIRO, Eduardo. Uma história oral do Dominatrix. Vice. 2017. Acesso em: 26 fev. 2020.

[15] https://www.catarse.me/campbr

[16] https://www.catarse.me/campbr

[17] Kathleen Hanna, no manifesto Riot Grrrl

Thabata Arruda é pesquisadora musical e criadora de conteúdo. Acumula 16 anos na música. Inicialmente como coralista e mais tarde transitando para as áreas de produção cultural, executiva e pesquisa. Há dois anos dedica-se à curadoria e pesquisa com foco em mercado, comportamento, hábito e identidade musical. Já falou sobre esses temas no Memorial da Penha (SP) e em eventos como Música Mundo (BH), Mostra Integradas de Artes (Poços de Caldas), SP Tech Week (SP), FEBRE (Sorocaba) e FIMS (Curitiba). Sua última investigação sobre representatividade feminina em festivais de música foi publicada pela Zumbido (Selo Sesc). Atualmente, cria conteúdo e estratégias para as redes sociais do canal Foras de Série e escreve sobre entretenimento no blog da Moving Girls, maior comunidade sobre empreendedorismo feminino do país. É criadora da Conteúdo de Música e da comunidade Ouça Música Independente.

ilustrações por Alexandre Calderero — “de boa”

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