Quando Kali participou da criação

Editor da Zumbido
Aug 21 · 17 min read

Quatro mulheres fundamentais para o desenvolvimento da música instrumental brasileira. Por Carla Dias

A capa do LP de estreia do Kali foi produzido pela Oz Comunicação Gráfica e assinado por André Poppovic, Giovanni Vannucchi e Ronald Kapaz | Foto: Reprodução

Lembro de fechar a porta da sala e o som lá de fora desaparecer. Entre o final de 1993, e boa parte de 1994, esse foi um ritual que mantive, aos sábados, depois do expediente. Naquele silêncio, eu colocava um disco para tocar e me sentava no chão, diante de dezenas de elepês enfileirados, ansiosa por conhecê-los, um a um. Foi assim que a música instrumental passou a fazer parte, de vez, do meu gosto musical.

Entre os elepês que marcaram as horas que passei naquela sala estava Kali.

Uma das divindades mais enigmáticas, Kali carrega o sentido de transformação pontuado pela destruição do ego, com o intuito de se alcançar o renascimento por meio de mudanças. Foi da deusa hindu que algumas instrumentistas e compositoras emprestaram o nome para batizar seu grupo e disco.

Renata Montanari, Gê Côrtes, Mariô Rebouças e Vera Figueiredo participaram de um período de transformação da música popular brasileira. Com origem em uma São Paulo que buscava variedade cultural, o Grupo Kali em muitos aspectos venceu obstáculos, descartou rótulos e despontou no cenário da música, trazendo ao mundo uma obra significativa. E o seu valor, como toda obra relevante, vem carregado da história de cada uma de suas integrantes.

“Semanalmente, o grupo se apresentava em bares do tradicional bairro do Bixiga, entre eles o Persona e o Sanja. Foi assim que ficou conhecido do público, e os músicos que apreciavam sua música apareciam para dar canjas.”

Do início ao disco

A música instrumental estava em alta quando o disco Kali foi oficialmente lançado, em 1986.

O Grupo Kali surgiu em 1982, em São Paulo. Antes do lançamento do disco, o grupo chegou a ter um número maior de integrantes, mas, a certa altura, decidiu-se manter a formação original de quarteto, com guitarra, baixo, piano/teclado e bateria.

Nesse ano, comprometida com uma viagem internacional de trabalho, Vera não pôde participar do grupo, tendo passado um ano em Madri, Espanha. Em 1983, estava de volta ao Brasil e encontrou o Kali sem baterista. Vera então assumiu o posto.

Apesar da dificuldade para conseguir tocar em bares e participar de festivais, o grupo mantinha uma intensa agenda de shows, resultado do empenho de suas integrantes em levar aos palcos a música em que acreditavam. Conquistar o próprio espaço foi também conquistar o respeito de colegas de profissão e produtores. Assim, não tardou para que o Grupo Kali garantisse um lugar entre aqueles que despontavam no meio instrumental.

Quando as gravadoras começaram a sondá-las, e a considerarem a gravação do que ainda era somente o projeto do primeiro disco, surgiram algumas propostas, mas o grupo não as aceitou por não se afinizarem com o conceito artístico do Kali, que queria tocar música instrumental, e mais, que essa fosse uma música pautada na versatilidade e muito bem interpretada.

Os ensaios do grupo aconteciam na casa onde Vera dava aulas, no bairro da Pompeia. Em 1990, essa casa se tornou o IBVF Brasil, conceituada escola de música, reconhecida como uma das melhores no ensino da bateria.

Durante os anos que antecederam o lançamento do disco, o Kali tocou em diversos lugares. Semanalmente, o grupo se apresentava em bares do tradicional bairro do Bixiga, entre eles o Persona e o Sanja. Foi assim que ficou conhecido do público, e os músicos que apreciavam sua música apareciam para dar canjas.

Nesse meio tempo, Walter Santos e Tereza Souza criaram o Nosso Estúdio, que ficava na Rua Bocaina, no bairro paulistano de Perdizes. Para eles, essa foi uma resposta aos produtores da época, que costumavam interferir no fazer artístico dos músicos. O casal defendia a liberdade criativa do artista.

A princípio, o trabalho do músico e da letrista era voltado à área da publicidade. Mais tarde, essa parceria, de vida e artística, deu origem ao selo Som da Gente, a primeira gravadora independente a manter um catálogo exclusivo de artistas do segmento instrumental.

Ao conhecerem a música do Grupo Kali, e observarem o quanto vinha se destacando pelo trabalho desenvolvido, Walter e Tereza o convidaram para gravar o disco. O convite foi aceito de imediato.

Com um considerável repertório autoral, as integrantes do Kali se viram na difícil tarefa de escolher quais músicas seriam gravadas. Assim, decidiram passar uma semana na casa de Vera, em Atibaia, ensaiando e preparando o material que faria parte do disco. A rotina do período de pré-produção consistia em ensaios diários para acertar os arranjos das músicas. Elas queriam chegar no estúdio prontas para as gravações. Foi um período importante para o entrosamento do grupo, não apenas no aspecto musical, mas também pessoal, devido à maior aproximação entre as integrantes.

No estúdio, o grupo teve liberdade para escolher a melhor forma de gravar cada música. Contou ainda com a ajuda fundamental do técnico de som, Marcus Vinicius, o Vinicão, também produtor musical do disco. Todas as integrantes do Kali falam com muito carinho sobre Vinicão, ressaltando como ele foi importante no período de gravações.

No Jornal O Globo de 1 de abril de 1986 | Foto: Reprodução/Musicosmos

O repertório

Contendo nove faixas, o disco foi originalmente lançado em formato elepê, trazendo salsa, frevo, funk, samba, balada, pop, diversos estilos que flertam com a marca registrada do jazz: a improvisação. Kali é uma viagem de diversas camadas, pontuadas por arranjos coletivos, assinados pelas quatro integrantes do grupo.

Além das faixas autorais, alguns dos mais respeitados músicos colaboraram com o disco. É do guitarrista Teddy Bürlochen a autoria de “Spiralen”. A flautista, arranjadora e compositora Léa Freire, que participou de uma formação anterior do grupo, assina a faixa “Da Tequila”. Rique Pantoja, arranjador, pianista e compositor, um dos criadores do grupo Cama de Gato, é autor de “Pitu”. O guitarrista, violonista, compositor e educador Rui Saleme, um dos fundadores do Grupo D’Alma, compôs para o disco a faixa “Balada pras Mina”. “Upa, Neguinho”, famosa composição de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, já fazia parte do repertório do grupo havia muito tempo. Incluí-la no disco foi uma escolha natural.

Entre as autorais, é de Mariô Rebouças “Papai Sabe Tudo”, enquanto Renata Montanari assina três das nove faixas: “Ubachuva”, “Funk do Tank” e “Locomotiva”.

“Papai Sabe Tudo”, o grupo já a tocava em seus shows. O arranjo da música foi “amarrado” na semana em que as integrantes passaram juntas na pré-produção, dedicadas somente ao repertório do disco. “O solo que tem no meio da música, tocado em uníssono pelo piano e guitarra, foi composto em Atibaia”, diz Mariô. A música traz uma forte influência da linguagem pop/fusion que o grupo escutava na época. “Beatles, The Mamas & The Papas e outros que influenciaram a minha geração. Minha escuta musical, nessa época, estava muito voltada para o som de Al Jarreau, George Benson, Stevie Wonder, Spyro Gyra, Yellowjackets, Weather Report, Chick Corea etc., além dos brasileiros Zimbo Trio, Elis, Gal, Bethânia, Gil, Caetano.”

Mariô também conta que o disco reflete muito da linguagem da época, trazendo som de sintetizadores, efeitos e timbres eletrônicos. Naquele período, ela estava muito envolvida com a exploração de recursos tecnológicos.

O título da música foi uma homenagem ao ex-marido de Mariô, que na época era seu namorado. Ele sempre ajudava o grupo a resolver os problemas que surgiam: “Tudo o que a gente não sabia fazer, ou como resolver, eu perguntava para ele, que se dispunha a ajudar. E ele ajudava de fato, sempre com soluções práticas e eficientes.”

“Quando o disco foi lançado, Mariô estava grávida, de sete para oito meses, e passou por um momento de grande conflito porque queria tocar, dar continuidade ao trabalho com o Kali, mas sem prejudicar o grupo ou impedir que ele se apresentasse.”

Já Renata sempre gostou de compor. Para o Kali, ela apresentou várias de suas composições. Algumas acabaram fora do repertório do grupo. Outras, as mais elaboradas, foram mantidas e algumas incluídas no disco.

Kali foi gravado em 1985 e o show de lançamento aconteceu na Sala Adoniran Barbosa, no Centro Cultural São Paulo, em 1º de fevereiro de 1986. Com Kali, o grupo se apresentou no circuito paulistano de bares, chegando aos grandes redutos da música de São Paulo, entre eles Aeroanta, Sanja, Teatro Lira Paulistana e Dama Xoc, e também de outros estados, como Jazzmania, no Rio de Janeiro, e Cabaré Mineiro, em Belo Horizonte.

Quando o disco foi lançado, Mariô estava grávida, de sete para oito meses, e passou por um momento de grande conflito porque queria tocar, dar continuidade ao trabalho com o Kali, mas sem prejudicar o grupo ou impedir que ele se apresentasse. No final, deu tudo certo, e ela participou dos shows e eventos de divulgação do disco, incluindo a apresentação no badalado Jazzmania.

A filha de Mariô nasceu em maio de 1986. A partir daí, a integrante do Kali não conseguiu mais acompanhar a agenda do grupo. “Depois de pensar muito, eu acabei saindo do Kali e passando meu lugar para a Lis de Carvalho. Sofri muito com essa decisão, ao mesmo tempo em que estava feliz e curtindo a maternidade. São escolhas que a gente tem que fazer em alguns momentos.”

Cais de Milton Nascimento bem que podia estar no repertório do debut, mas felizmente foi registrado neste vídeo raro duma apresentação posterior do Kali no Centro Cultural São Paulo em 1988 | Imagens: YouTube/Paulo Rapoport

A música instrumental antes da internet

Imagine um mundo sem internet. Nada de streaming, nem a variedade enorme de vídeos, nem podcast. Nada de chat para bate-papos sobre aquele assunto que fisgou o interesse, aguçou a curiosidade. Nada de e-mail, envio de arquivos, redes sociais para compartilhamento.

Antes da internet, os interessados em música dependiam do que lhes era oferecido. Havia muitos artistas que se destacavam, mas também aqueles que, sem o suporte de uma grande gravadora, acabavam limitados a determinados espaços, sem condições de ampliar o alcance de sua música, ainda que sua obra fosse extraordinária.

Os que cultivavam o desejo pelo novo dependiam da indústria, mas também tinham interesse pela novidade, e a buscavam onde fosse possível. Assim, assistiam aos shows que apareciam na sua região, com pouca ou nenhuma informação sobre o artista. Às vezes, tinham sorte, mas o contrário também era frequente.

Fanzines eram as newsletters daquele tempo. Fitas cassetes, geralmente gravadas por amigos entusiasmados com a música que escutavam, eram as playlists.

Não se trata de trazer o passado para o presente, a fim de compará-lo com o que está disponível hoje e decidir qual época foi a melhor. A tecnologia se tornou uma ferramenta importante, criando espaço para que artistas de diferentes culturas e estilos apresentassem suas obras ao público do mundo, permitindo que se tornassem independentes em diversos aspectos. Também vem alimentando, com obras significativas, um acervo musical em contínua construção, que pode ser acessado por qualquer um que queira conhecer um pouco mais sobre a música do mundo, assim como sobre aqueles que a criam e a interpretam.

“[…] um período em que conhecer algo novo era um projeto que exigia dispendiosa energia para ser levado à prática.”

Renata relembra que, mesmo sem a existência da internet, o acesso ao universo da música independente era possível. Apesar das dificuldades que enfrentavam, muitos músicos se dedicavam à produção de música instrumental, e a qualidade de muitas das produções brasileiras era incontestável.

A década de 1980 foi culturalmente rica. Surgiram bandas de rock e pop que até hoje frequentam o gosto popular. Havia muito acontecendo na época e na cena instrumental não era diferente. A produção nesse segmento crescia cada vez mais, inspirada pelos festivais de jazz, que levavam para seus palcos artistas estrangeiros e também brasileiros, ela relembra. “Nessa época, tinha muita gente da MPB fazendo músicas muito boas, que a gente tocava em instrumental: Milton Nascimento, Djavan, Ivan Lins, Gilberto Gil etc”. Também escutava aqueles que admirava e a inspiravam musicalmente, entre eles os baixistas Jaco Pastorius, Nico Assumpção, Stanley Clarke, Arismar do Espírito Santo, Marcus Miller e Arthur Maia.

Quando falamos sobre música — considerando a ausência dos benefícios trazidos pela internet — e sobre músicos — pensando naqueles que não contavam com o amparo comercial das grandes gravadoras –, nos referimos a um período em que conhecer algo novo era um projeto que exigia dispendiosa energia para ser levado à prática.

A Revista Bizz era um dos veículos que jogava luz na música instrumental | Foto: Reprodução/Musicosmos

Naquele momento, os interessados em conhecer novos sons, aqueles que ainda não pertenciam às listas das mais pedidas, tinham de se dedicar a encontrar discos nas lojas especializadas ou nos sebos, onde era possível garimpar verdadeiras obras-primas. Às vezes, era preciso esperar muito para conseguir tais discos, encomendá-los, especialmente se fossem de artistas estrangeiros.

O que hoje, graças à internet, depende somente da disposição para descobrir novos interesses musicais, naquela época representava uma verdadeira odisseia.

Com o destaque que os artistas do meio instrumental vinham tendo, as pequenas gravadoras e selos passaram a movimentar boa parte do que era produzido. Compositores afinados, instrumentistas de inquestionável talento e, em muitos casos, gênios da música, assim como suas interpretações primorosas, enriqueciam os catálogos dos independentes. “Foi a época em que o jazz fusion também entrou no cenário mundial”. Renata se lembra de jazzistas surgidos com a novidade que era o fusion. Entre os músicos que para ela marcaram época estão Miles Davis, com Mike Stern na guitarra, Grupo Um, Chick Corea, Grupo D’Alma e Nelson Ayres.

Alguns artistas e produtores também encararam o desafio e, ao lado das pequenas gravadoras e selos, levaram a música instrumental brasileira aos toca-discos dos ouvintes. Foi o trabalho deles que ajudou a aproximação entre o público e essa música, impulsionando os convites de casas de shows e bares para que artistas da cena instrumental se apresentassem em seus palcos.

Muitos desses espaços se tornaram importantes pontos de encontro entre os músicos e o seu público.

Vera comenta a expectativa gerada pelos lançamentos de discos, esperados por todos os fãs e amantes da boa música. “E como era importante o autógrafo! Ele acontecia com a venda do disco, por ocasião das apresentações. Era a ferramenta para divulgar o nosso trabalho”.

Muitos compositores e instrumentistas dedicavam-se exclusivamente à música instrumental brasileira. Havia aqueles que não se intimidavam e enveredavam pela mistura de ritmos, aventurando-se pela variedade de estilos musicais. Por isso mesmo, a qualidade dos discos lançados nos anos 1980 foi surpreendente, garantindo que muitos artistas fossem beneficiados pelo conhecimento gerado com as obras desses que viveram a efervescência da música instrumental no Brasil naquela época.

Ge, Lis, Renata e Vera com Jô Soares | Foto: Reprodução/Musicosmos

Misturas

Elas ainda eram crianças quando se lançaram ao universo musical. Conheceram a música erudita e escolheram a popular para a jornada do grupo. O aprofundamento no conhecimento sobre música, a dedicação ao seu instrumento e a vontade de conhecer mestres da música popular garantiram a essas crianças o que mais desejavam: fazer música popular, instrumental, de qualidade. E a qualidade da música delas era apreciada pelos colegas de profissão e pelo público.

Muitos definiram o som do Grupo Kali como Brazilian Jazz, mas suas integrantes deixaram logo claro que faziam música instrumental e prezavam a diversidade. Elas se identificavam mais com o fusion, termo que se aplica à fusão de estilos musicais, em busca de algo novo.

Os anos 1980 marcaram a era fusion e isso se refletiu na sonoridade do Grupo Kali.

De acordo com Vera, “O Kali não era um grupo de Brazilian Jazz, e sim um grupo fusion, que tinha em seu repertório composições em ritmo de frevo, como “Locomotiva”, e de samba, como “Ubachuva” e “Pitu”. Vera conta que o Grupo Kali também tocava temas fusion que adoravam: “Mood Swings”, do guitarrista Mike Stern, “Roof Garden”, dos compositores Al Jarreau, Jay Graydon e Thomas Canning, e “Elektric City”, de Chick Corea.”

Desde o início, as integrantes do Kali já entendiam bem de misturar sons e estilos. Apaixonadas pela bossa e pelo jazz, abertas à influência dos ritmos brasileiros e adeptas da liberdade para o improviso, elas se mantiveram leais à própria música e declinaram das propostas que exigiam a inclusão de vocal no grupo. Foi então que veio aquela que honrava o desejo do grupo e que possibilitou o lançamento do disco Kali.

As integrantes do Kali também mantinham agendas independentes dos trabalhos do grupo, mas este se mantinha como projeto principal. Trabalhavam, individualmente, com artistas de diversos estilos, mas houve vezes em que o grupo todo acompanhou certos artistas, entre eles o trombonista Bocato e a cantora Eliete Negreiros. E também o cantor Ritchie, ao lado do tecladista Sacha Amback, do saxofonista Hugo Hori e do percussionista James Muller.

O grande mérito do trabalho do Kali se concentrava na competência e talento de suas integrantes. Na época do lançamento do disco, outras bandas femininas foram formadas, entre elas a de pop rock Sempre Livre, do Rio de Janeiro, e a de punk rock As Mercenárias, de São Paulo.

Kali na Ilustrada ao lado de Eliete Negreiros em 29 de janeiro de 1985 | Foto: Acervo Folha

Kali foi o primeiro grupo feminino de música instrumental no Brasil. O valor desse feito se fortalece em diversos aspectos, mas em particular na qualidade da música produzida. Para Vera, ele era único, um grupo instrumental formado somente por mulheres, que quebrou tabus e deixou sua marca e contribuição registradas na história da música brasileira. Para Mariô, o Kali foi muito importante para sua própria história. Foi um período de profissionalização, reconhecimento do trabalho, muita exposição e esforço prazeroso, altamente gratificante. Renata gosta do disco, especialmente por ele ser bem vivo e verdadeiro, além de ter marcado a sua estreia nos estúdios de gravação. Gê relembra com carinho de quando o grupo tocou com Eliete Negreiros. Com essa cantora, o Kali fez uma sessão de fotos de divulgação e uma delas acabou publicada na primeira página do caderno de cultura da Folha de São Paulo, com a manchete “Eliete Negreiros estreia hoje, com banda feminina”. Este foi mais um ingrediente que ajudou a banda a ser convidada para gravar o disco.

No que se referia à produção nacional, as integrantes do Kali compartilhavam muitas preferências musicais. Com o lançamento do disco, elas passaram a fazer parte do mesmo catálogo de alguns dos artistas que admiravam. Kali é um dos mais de quarenta discos lançados pelo selo Som da Gente, que em seu cardápio musical também trazia Hermeto Pascoal, Grupo D’Alma, Banda Metalurgia, Grupo Medusa e Cama de Gato.

Kali foi o único disco lançado pelo Grupo Kali.

Contracapa do único e derradeiro LP | Imagem: Reprodução

Elas hoje

Renata Montanari começou com o violão popular, tocando junto com a sua prima, antes de iniciar efetivamente os estudos. Mais tarde, também estudou harmonia e arranjo. Durante muito tempo, a guitarra foi seu instrumento, até que decidiu voltar ao violão, aprimorando e aprofundando sua compreensão sobre o instrumento escolhido. Estudou com Paulo Porto Alegre, um dos mais importantes violonistas-compositores brasileiros, conhecedor do violão clássico e popular.

Em 2015, lançou seu primeiro disco solo. Entre o Som e o Silêncio traz composições autorais, com arranjos para violão solo e quarteto. Também conta com composições de Hermeto Pascoal e de Milton Nascimento e Fernando Brandt. Além do trabalho como instrumentista, compositora e arranjadora, é professora de violão e harmonia na EMESP Tom Jobim, em São Paulo.

“É um disco que eu gosto bastante. Foi um marco, eu tenho muito carinho por ele. Foi o primeiro disco que eu gravei. Hoje, depois de tanto tempo, é claro que a gente teria ideias diferentes, gravaria de uma maneira diferente. Mas, pensando na época, acho que o repertório foi superlegal. Era o que a gente sentia, né? Essa coisa do jazz fusion.”

Gê Côrtes vem de uma família de músicos, e o início dos seus estudos foi com os seus pais. Começou com o baixo elétrico e depois estudou baixo acústico com Luiz Chaves, do Zimbo Trio. Foi integrante da Orquestra Sinfônica Jovem, com a regência de Jamil Maluf, e da Orquestra Jazz Sinfônica. Contribuiu com vários projetos, tocando baixo acústico, e participou da turnê do disco Amigo, de Milton Nascimento, como integrante da orquestra Philarmonia Brasileira, regida pelo maestro Gil Jardim.

Fundou, com o violista e compositor Newton Carneiro, o 5 de Cordas, quinteto de formação tradicional, mas especializado em música popular de vários estilos. Tocando baixo elétrico, Gê foi integrante da banda Altas Horas, desde a estreia do programa homônimo, apresentado por Serginho Groisman e veiculado pela Rede Globo. Atualmente, é integrante da Jazzmin’s, big band feminina com repertório voltado à música popular.

“Na época, muitas portas se abriram para o Kali, para tocarmos em vários lugares, e também pra mim, como instrumentista. Até hoje ouço de músicos jovens, principalmente das meninas, que o Kali foi uma inspiração para a carreira deles. Tenho muito orgulho de ter feito parte desse projeto com minhas amigas Vera Figueiredo, Mariô Rebouças e Renata Montanari”, enfatiza Gê.

Mariô Rebouças começou na música estudando piano com sua mãe. Formou-se em administração e chegou a trabalhar na área. No entanto, depois de ganhar o prêmio de Revelação em Música Erudita, da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), decidiu-se pela música. Estudou piano erudito na Itália e em Londres. De volta ao Brasil, estudou música popular.

Trabalhou com diversos artistas, gravando e se apresentando em shows. Participou do projeto Sem Pensar, Nem Pensar, disco com letras de Itamar Assumpção musicadas pelo compositor, violonista e cantor Sergio Molina e interpretadas pela cantora Miriam Maria. Também gravou algumas das faixas do disco A Cidade Enfeitiçada, do compositor e instrumentista Paulo Gusmão.

“Acho que Kali reflete bastante a linguagem da época. Eu diria que ficou ‘datado’, de certa maneira, pois ouvindo todos aqueles timbres e efeitos de sintetizador, e a linguagem meio pop, meio fusion, a gente se transfere para os anos 1980. Dito isso, posso dizer que o disco ficou caprichadíssimo, os arranjos, o repertório, os solos, tudo foi feito com o maior empenho, o maior capricho, e era o melhor recado que podíamos dar naquela época.”

Vera Figueiredo começou muito cedo na bateria. Aos oito anos, já participava de uma banda, As Feiticeiras. Formada em piano, usa esse instrumento para compor obras autorais. Lançou três discos: Vera Figueiredo & Convidados, From Brasil e Vera Cruz Island. Fundou o IBVF Brasil em 1990, uma escola de música e produtora de eventos. Foi precursora na produção de workshops no Brasil. Idealizou e realizou quinze edições do Batuka! Brasil, festival dedicado à bateria e à percussão que recebeu diversos artistas brasileiros e estrangeiros e figura na lista mundial dos mais importantes do gênero.

Participou de festivais de música em diversos países, sempre levando aos palcos do mundo seu conhecimento e paixão pelos ritmos brasileiros. Publicou o play-along Vera Cruz Island — Brazilian Rhythms For Drumset, pela editora americana Hudson. Foi integrante da banda Altas Horas, desde a estreia do programa homônimo, apresentado por Serginho Groisman e veiculado pela Rede Globo.

“Observando hoje, eu faria tudo diferente, principalmente o meu play. Não usaria uma bateria eletrônica como usei na época, porque aquele modelo tinha o som duro, sem profundidade. Mas é assim mesmo, vivendo e aprendendo. Caiu bem em algumas músicas como “Papai Sabe Tudo” e “Spiralen”. Mas isso não tira o brilho da obra e do bom conteúdo. Na verdade, estou escrevendo e escutando (o disco). Há quanto tempo não o escutava! Tudo muito bonito”, conclui Vera.

Crítica de lançamento do álbum no jornal O Estado de São Paulo | Imagem: Reprodução/Musicosmos

O legado

Reconhecer a importância de o primeiro grupo feminino brasileiro de música instrumental ter sido formado por instrumentistas de primeira linha, e também compositoras competentes, é reconhecer o valor de uma música criada e interpretada com conhecimento e talento.

A criação do Grupo Kali foi relevante e agregadora. Marcou a história da cultura brasileira, não só pelo disco que leva o nome do grupo como também pelo legado musical de Renata Montanari, Gê Côrtes, Mariô Rebouças e Vera Figueiredo, quatro artistas que seguem contribuindo para nossa riqueza musical. Suas composições e performances servem de inspiração para futuros grupos e artistas que desejam fazer parte do universo da música instrumental e enriquecer com obras fundamentais o repertório da Música Brasileira.

Carla Dias é natural de Santo André e vive desde 1995 na capital de São Paulo. Escritora, publicou sete livros: Azul, Livro das Confissões, O Observador, Os Estranhos, Jardim de Agnes, Estopim e Baseado em Palavras não Ditas. Baterista, é integrante da banda OsQuatro, ao lado de Raquel Pirozzi (voz), Paulo Pacito (guitarra/violão) e Marcelo Aisten (baixo). A banda vem trabalhando em um repertório autoral e algumas das canções são poemas de sua autoria musicados por amigos. Produtora cultural, atuou como diretora de produção em quinze edições do Batuka! Brasil, idealizado pela baterista Vera Figueiredo. Foi na casa onde o Grupo Kali costumava ensaiar, e que se tornou o IBVF Brasil, que conheceu os elepês aos quais se refere no artigo.

Este texto faz parte da série ÁLBUM — 10 ANOS: DISCOS PARA CONHECER promovida pelo Sesc Belenzinho no mês de abril de 2021 no ambiente digital. O ÁLBUM é um projeto que nasceu em 2011 e trouxe aos palcos da unidade a performance integral de discos importantes da história da música brasileira. Nesta edição virtual, 12 discos brasileiros de gêneros e épocas distintos foram selecionados para escrutínio de jornalistas, críticos e pesquisadores musicais. Confira o livreto com a série completa aqui neste link.

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Publicação digital do Selo Sesc

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