Perfil #1

Walter Franco é alvo das tintas de Joca Reiners Terron em 17 retratos

Walter Franco e essa coisa toda: 17 retratos de um artista irretratável

para o Sig, com saudades

1.

O cantor Walter Franco entrou no palco. Era alto e magro, estava descalço, vestia-se de branco e carregava seu violão. Estranhei seus cabelos curtos, diferentes dos sacudidos pela platéia e das fotos dele próprio em seus discos. Eu pensava em uma fotografia em particular, a que estampa a capa de Revolver, sua obra-prima de 1975. De parecida, a túnica que ele usava só tinha a idêntica cor do terno branco meio beatle da foto do disco. Não havia muita gente para assisti-lo naquela noite de 1990, os demais alunos da Unesp de Bauru andavam esparramados pela quinta-feira à noite que encobria o campus, entre cochilos nas classes de semiótica ou no populoso bar do Baiano, a 300 metros dali. Apesar das longas pernas, o músico se deslocava vagarosamente ao caminhar até o centro do palco, parecendo se locomover noutra densidade temporal, saído quem sabe da quinta dimensão compreendida pelo camarim. Então eu me perguntava o que os músicos consomem antes de se apresentarem ao vivo. Deve ser algo ótimo, pois eles parecem levitar ao entrarem em cena.

O cantor Walter Franco se sentou em posição de flor de lótus no palco, observou as cabeças salpicadas lá e acolá, logo acima das cadeiras de fibra de vidro alaranjadas do auditório aberto, respirou o cheiro bom de mato que a brisa trazia do bosque ao redor do campus e sorriu.

2.

O sorriso do cantor Walter Franco visto da porta entreaberta do Estúdio do Silvinho, no bairro do Sumaré em São Paulo, era o mesmo que vi há vinte e sete anos, no show em Bauru. Do fundo do corredor, ele acenou para mim, me convidando a entrar. Era véspera do show que faria em 28 de abril, mesmo dia em que aconteceria a greve geral contrária à reforma previdenciária a ser votada no Senado.

Estamos em 2017, o ano que começou em 2013 e tampouco dá sinais de acabar. O clima de polarização política que grassava pelo país na véspera da greve permanecia isolado do lado exterior às paredes revestidas, e não devíamos temer a intrusão de barulho ou de bombas.

O ensaio já começara quando cheguei. O cantor Walter Franco me apresentou à banda, dizendo que todos deveriam ter um amigo com meu nome. Eu me sentia excitado e ao mesmo tempo envergonhado por assistir de perto a um de meus compositores preferidos, numa cadeira a um metro de onde ele triscava cordas de seu violão como se receasse machucá-las.

Logo reconheci “Serra do Luar”. Foi a primeira canção de Walter Franco que ouvi, aos 13 anos de idade, só agora vejo isso, eu, embasbacado diante da tevê mal sintonizada na apresentação dele no Festival MPB Shell de 1981: “Viver é afinar o instrumento/ De dentro pra fora/ De fora pra dentro/ A toda hora/ A todo momento/ De dentro pra fora/ De fora pra dentro”.

São versos que alguém pode carregar pela vida como uma espécie de mandamento pessoal.

Walter Franco em ensaio, 2017 (Foto: Joca Reiners Terron)

3.

No ensaio, só me toquei do lugar em que estava nos últimos acordes da canção seguinte. O estúdio da rua Capital Federal era um dos pontos preferidos de meu amigo Sig “Vela aberta” Simondi, cujo apelido se devia ao título do maior sucesso de Walter Franco, parceria póstuma com Cid Franco, autor da letra e pai do cantor, e também uma piada interna entre nossos amigos poetas, pois essa era a única música que o Sig sabia arranhar ao violão nas festas.

Naquela mesma semana, não por acaso, fazia dois anos que o Sig fora caçar long plays usados em alguma rua lotada de sebos com os melhores discos do mundo, no paraíso do lado de lá desta vida.

Sig costumava frequentar a roda de chorinho que acontece no Estúdio do Silvinho às sextas para se recordar do pai, Sérgio Simondi, um assíduo frequentador do pedaço.

Seu Sérgio havia morrido em 2013; o Sig morreu em 2015.

E agora eu estava ali, vendo e ouvindo o cantor Walter Franco tocar “Vela aberta” no estúdio tantas vezes frequentado pelo Sigão “Vela aberta” e também pelo seu pai.

Eu pensei no Sig, e fui percebendo como o cantor Walter Franco vem singrando diversos momentos importantes de minha vida.

Até perdi a respiração, desobedecendo ao meu mandamento pessoal de continuar a respirar enquanto permanecer vivo.

4.

Em algum dia de 1979 o cantor Walter Franco, decidido a homenagear seu pai, o ex deputado socialista e poeta Cid Franco, musicou “Vela aberta”, poema escrito por Cid, que morrera em 1971.

E ainda hoje ao conversarmos, no momento em que nos encontrávamos apenas eu e o cantor Walter Franco, 72 anos, sozinhos na coxia do Teatro Paulo Autran no Sesc Pinheiros, logo após a banda dele passar o som para o show desta noite de 28 de abril, imersos no silêncio do auditório vazio e pensando no burburinho da multidão que protestava ali perto, no Largo da Batata, mencionei o fato de ele citar o pai com frequência, ao que Walter assentiu, dizendo que Cid Franco merecia ser lembrado. Perguntei sobre a noção de espiritualidade herdada do pai, e ele desconversou. Disse que não era nada demais, que não era espírita, umbandista, cristão, budista nem nada disso.

Sou todo misturado”, disse o cantor Walter Franco, “essa coisa toda”.

5.

O futuro cantor Walter Franco atravessava os corredores da Escola de Arte Dramática, que então ocupava o prédio onde hoje é a Pinacoteca do Estado de São Paulo, na Praça da Luz, em frente à estação ferroviária. Elocubrava, talvez, as canções que ainda escreveria, ou via a si próprio no palco com o violão, explodindo cabeças. Evidentemente, em seus sonhos de garoto não podia antecipar que a plateia o vaiaria a pleno pulmão, mas deixemos Walter Franco com suas esperanças no porvir.

Da direção oposta, expulsando Walter Franco de seu devaneio, apareceu Alfredo Mesquita, o diretor da EAD. Doutor Alfredo, como o grã-fino teatrólogo era tratado, cumprimentou o estudante: boa tarde, Walter Franco. O futuro cantor e compositor devolveu a gentileza: boa tarde, doutor Alfredo, e cada qual seguiu para o seu lado.

Enquanto Walter Franco ainda se afastava, secretamente espantado com o reconhecimento de seu nome e de sua figura pelo diretor, ouviu o vozeirão chamando-o outra vez: Walter Franco!

Era doutor Alfredo, que falou: “mas um homem tão grande, e com um passinho tão curto!

E seguiu seu caminho a passos largos, deixando Walter Franco estupefato até o dia 28 de abril de 2017, quando nos encontramos no camarim do Teatro Paulo Autran onde ele tocaria naquela mesma noite e me contou essa história.

6.

Então, início dos anos 60, o quase cantor Walter Franco ainda não passava de um recém egresso da Escola de Arte Dramática. Naquela tarde em seu quarto, ele remoía expectativas e angústias típicas de alguém que acabara de terminar o ensino médio e devia escolher carreira universitária. Walter Franco dedilhava seu violão na tarde vazia, um tanto desconsolado, quando bateram à porta: era seu pai, o deputado estadual Cid Franco, poeta e radialista, primeiro vereador socialista eleito em São Paulo, um homem que migrara do materialismo marxista de sua formação política para uma espécie de socialismo espiritualista e místico. Também era a cara do Walter Franco futuro, só que com um bigodinho e o cabelo alisado para trás com Gumex. Ou melhor: no futuro, Walter Franco seria a cara de Cid Franco, só que sem bigodinho e sem Gumex. Advogado da causa dos pobres, homem justo que logo após o Golpe de 1964 teria seus direitos políticos cassados, Cid Franco, amigo de Drummond e de Bandeira, perguntou ao filho por que ele estava tão amuado. Largando o violão sobre a almofada, o ex ator iniciante Walter Franco, ex futuro advogado, disse que não gostaria de estudar no Largo do São Francisco, como o pai: queria ser compositor. Sem vacilar, com um sorriso tão direto quanto seu sobrenome, Cid Franco respondeu: “Puxa, que bom, a música também é uma forma de falar com Deus.

E fechou tranquilamente a porta, mas na verdade tinha acabado de abri-la.

Walter Franco por Lourenço Mutarelli_acrílica sobre tela

7.

Quase uma década depois, em 1972, o poeta Régis Bonvicino, na ocasião com 17 anos, entrou no Teatro de Arena e viu o cantor Walter Franco com seu violão sentado em posição de flor de lótus no centro do palco exíguo. Ele ainda não sabia que no futuro ambos seriam parceiros em duas canções, “Até breve” (de “Respire fundo”) e “Corpo luminoso” (de “Vela aberta”). Ao lado do cantor Walter Franco, em sua mesa, Peninha Schmidt operava o som com mixagens avant la lèttre. O moleque poeta Régis teve suas convicções roqueiras balançadas naquela noite, sua cabeça chacoalhou e explodiu.

E ele saiu pela porta aberta por Cid Franco anos antes, em 1963.

8.

Em 1990, nas semanas seguintes ao show do cantor Walter Franco, me dediquei a procurar seus LPs pelos sebos de Bauru. Não encontrei muita coisa, pois esses discos eram raros então, como são hoje em dia, e ainda estavam por ser reeditados em CD, primeiro em 1992 numa edição da Rock Company, gravadora independente da cidade de Porto Ferreira, depois a versão dupla e remasterizada por Charles Gavin que trazia “Ou não”, a polêmica estreia de Walter Franco em 1973, e “Revolver”, de 1975.

Encontrei apenas o suplemento da coleção Nova História da Música Popular Brasileira (Editora Abril, 1979), que trazia Hermeto Paschoal, Djalma Correa, Tom Zé e o cantor Walter Franco, com duas canções de seu álbum de 1973: “Cabeça” e “Água e sal”.

A letra da primeira dizia: “Que é que tem nessa cabeça/ Saiba que ela pode explodir, irmão”.

Ao ouvir as duas faixas, minha cabeça explodiu.

E eu também saí por aquela porta aberta por Cid Franco, no dia em que Walter Franco se tornou cantor e compositor.

9.

O cantor e compositor Walter Franco está sozinho, debruçado sobre sua escrivaninha, neste momento em que agora o flagramos nas dependências da ABRAMUS, a Associação Brasileira de Música e Artes, no centro de São Paulo, onde ocupa o cargo de presidente. É possível que rascunhe um poema, quem sabe a letra de uma nova canção que explodirá essa coisa toda, nossas cabeças e corações.

Nos aproximamos devagarinho por trás de seu cabelo surpreendentemente curto, como se fôssemos uma câmera invisível ou os olhos de Deus, e observamos por cima de seu ombro: em vez de calcular rimas explosivas e métricas desmedidas, o presidente Walter Franco assina contracheques.

Desde que ocupou o cargo em 2002, primeiro como vice presidente da associação arrecadadora ABRAMUS, a convite do então presidente, o advogado Roberto Corrêa de Melo, o cantor Walter Franco não lançou mais discos.

Nós todos, que tivemos nossas cabeças explodidas por sua música, preferíamos que ele estivesse escrevendo poemas. Que o cantor e compositor Walter Franco não advogasse, mesmo que em causa alheia e nobre, mas vivesse de suas canções. Que ele não precisasse viver de música, apenas de vento.

10.

Era 1973, e o poeta infante Régis Bonvicino saiu de uma loja de discos com o long play do cantor Walter Franco. O disco tinha apenas uma mosca estampada na capa branca. À medida em que descia a Rua Augusta cada vez mais rápido com uma única coisa em mente (a vitrola de casa), o quadrado de papel nas mãos do poeta Régis Bonvicino se desdobrou em um branco pendão balançado pelo vento, um emblema branco da paz e da invenção empurrado pela brisa da liberdade que entrou pelos ouvidos de ao menos três gerações seguintes de poetas.

Em sua casa, ao colocar o disco para rodar na vitrola, a mosca da capa começou a crescer em direção ao poeta Régis Bonvicino, soltou-se e entrou em sua boca.

11.

Em 1991, eu e meus amigos poetas da faculdade estávamos em Rio Claro, em uma república de outros amigos onde acontecia uma festa. Tínhamos vindo de Bauru de trem, numa viagem hoje impossível, na qual bebemos dezenas de cervejas Antarcticas no vagão restaurante, servidos por um garçom com mais de cem anos de idade. Durante aquela viagem, saímos para a ligação entre os vagões para fumar e nossos cabelos compridos eram engolidos pelo vento da liberdade, que, como costuma dizer o cantor Walter Franco em seus shows, ao instigar a plateia a cantar em sua companhia, “é uma voz”.

Ao final da festa, o Sig apareceu com um violão emprestado e cantou a única música que sabia tocar, “Vela aberta”.

Eu ainda não conhecia aquela música. Aquela foi a primeira vez que ouvi “Vela aberta”.

12.

No começo de abril de 2017, conversei longamente com o cantor Walter Franco pelo telefone. Precisei reunir coragem antes de ligar. Mas, ao ouvir aquela voz cálida de radialista (coisa que ele realmente foi em 1965 na Rádio Marconi, antes de gravar seu primeiro compacto, “Tema do Hospital”, trilha da novela “Hospital”, transmitida pela TV Tupi em 1971), de imediato senti meu coração se tranquilizar. Marcamos um café na casa dele para a semana seguinte.

Na tarde combinada, porém, liguei para o cantor Walter Franco antes de me dirigir à Bela Vista, onde ele morava, e sua voz não lembrava mais a do locutor místico irradiando bondade de apenas uma semana atrás. Na segunda-feira seguinte ele sofreria uma intervenção médica sobre a qual não deu mais detalhes. Estava preocupado. Não poderia falar comigo. Eu também fiquei preocupado. Ele sentia muito, mas havia sido pego de surpresa.

Eu também senti muito medo.

13.

A voz do cantor Walter Franco ao telefone ou nas canções pode alcançar timbres e notas que soam apaziguadoras ao ouvinte. Não me refiro às colagens sonoras do álbum “Ou não”, como “Cabeça”, e mesmo à canção “Canalha” (que ele compôs no rastro de John Lennon e da Terapia do Grito Primal do dr. Arthur Janov), mas aos hinos concêntricos de “Coração tranquilo” e “Eternamente”, ou de canções como “Govinda” (cantada em sânscrito), “Respire fundo” e “Divindade”. A paz proveniente dessas músicas, cuja estrutura circular e repetitiva induz o ouvinte a um estado semi catatônico que beira a iluminação mística e ao satôri, é a paz do próprio timbre de Walter Franco (“é muito bom/ poder cantar/ em qualquer tom”), do vento de sua voz. Algo semelhante ocorre na audição de baladas como “Serra do luar” ou “Vela aberta”, de grande beleza lírica.

Apenas conversando, essa mesma voz é capaz de aquietar os ruidosos músicos que acompanharão Walter Franco no show do dia 28 de abril no Teatro Paulo Autran. Ao lado de seu filho, o citarista e compositor Diogo Franco, o cantor está quieto por causa de um incidente acontecido em seu trajeto de ida ao Sesc Pinheiros. Ele pegara um UberPool por engano, e se chateou com a companhia inesperada de outros passageiros. Enquanto isso, os músicos Marcelo Guanabara (teclados), Gui Vitali (bateria e tabla), Daniel Kid (baixo) e Raulito Duarte (guitarrista) se divertem, recordando episódios de Alberto Marsicano (1952–2013), através de quem Diogo e Vitali, alunos do citarista, se conheceram.

A bagunça diminuiu quando Walter Franco soltou sua voz hipnótica, contando histórias do passado. Os músicos deixam de ser uma banda para logo se tornarem uma classe de atentos estudantes ao redor de seu mestre zen.

14.

Contudo, a cabeça do cantor Walter Franco pode explodir, caso o retirem de seu ritmo totalmente particular e auto-centrado. Em Belo Horizonte, no início dos anos 80, quando começou a acompanhá-lo, o guitarrista Raulito Duarte recorda que se assustou ao ver Walter Franco interromper um show logo na primeira música. Segundo Raulito, o cantor Walter Franco tem um ritmo metabólico que conduz a banda, nunca o contrário, algo que o impede, inclusive, de tocar músicas alheias; naquela ocasião havia um fã muito afoito na primeira fila que cantava mais alto que o próprio cantor. Inconformado, Walter Franco cobriu o fã de esporros, e o cabeludo se transferiu para a última fila, permitindo enfim ao cantor retomar a apresentação. Horas após o término do show, quando o cantor Walter Franco saiu do camarim, o fã ainda o esperava debaixo dos galhos de uma goiabeira ao lado do ginásio para lhe pedir desculpas.

Walter Franco por Lourenço Mutarelli_acrílica sobre molde de costura

15.

Estamos em 1983, na segunda edição do Festival de Águas Claras em Iacanga, São Paulo. O cantor Walter Franco atravessou o pasto enlameado da fazenda Santa Virgínia em cima do carregador de um trator-escavadeira, única maneira de chegar ao palco onde se apresentaria em instantes. Ao se instalar, o cantor Walter Franco se aproximou do microfone e passou aos hippies esparramados pelas tendas e barracas um recado enviado pela organização do festival, pedindo que não “cortassem os canos d’água”.

O guitarrista Raulito Duarte, presente no palco, pergunta-se até hoje qual seria o sentido enigmático daquela mensagem, que só podia ter sido passada pelo cantor Walter Franco e por mais ninguém.

Agora, com a voz quase sumindo ao telefone, Raulito me diz que aquilo explodiu sua cabeça.

16.

É 2017, o ano que não vai terminar, estou sentado diante do poeta Régis Bonvicino, agora com 62 anos, na mesa do restaurante Ugue’s na Vila Buarque, e ele me diz que há uns poucos anos ouviu novamente o disco “Ou não” e percebeu coisas que não notava nele, apesar de estarem na cara.

“O disco é um retrato duro, fiel, talvez o melhor retrato, dos efeitos da repressão e da tortura do DOPS, da OBAN, da tortura física em si de Sergio Paranhos Fleury”, diz Régis Bonvicino. “Os gritos, os sons estranhos, os sons sufocados, o desespero, o intimismo, os agudos, as litanias, o jogo de silêncio e som não eram vazios, sem pertinência.”

“Ou não” é uma obra ímpar, de força inédita, única, é mais do que mpb, o que é raro. O long play “Revolver” foi uma transição, ainda com muito peso, para uma espécie de mercado, que se afirmava por aqui: os músicos tinham que viver de música”, prossegue o poeta Régis Bonvicino com ar cansado. “Walter Franco era um espírito muito livre para alcançar um público de escala.

A noite caiu velozmente, ou talvez faltasse luz. O poeta Régis Bonvicino soltou um soluço, e do interior de sua boca aberta saiu uma mosca.

17.

Naquela festa em Rio Claro, o Sig cantou “Vela aberta” de um jeito muito bonito, tão bonito quanto o cantor Walter Franco cantou a mesma música no ensaio no estúdio da rua Capital Federal onde me lembrei de meu amigo na semana em que se completavam dois anos de sua morte.

Nossas cabeças todas explodiram, e ainda estamos aqui catando os cacos pelo chão.

Sig ao lado do Beto Bombig, hoje editor executivo do Estadão. Foto tirada na república que eu morava em Bauru, numa festa (devia estar tocando "Vela Aberta"). (Foto: arquivo pessoal/Alberto Bombig)

Joca Reiners Terron é escritor (Cuiabá, 1968). Publicou livros de poemas e narrativas, além dos romances “Não Há Nada Lá”, “A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves” e “Do fundo do poço se vê a lua”, todos pela Companhia das Letras. Por este último, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional, em 2010. Traduziu obras de Enrique Vila-Matas, Richard Brautigan, Mario Levrero e Roberto Bolaño. Seu último livro é o romance “Noite dentro da noite” (Companhia das Letras, 2017)