Como criei uma rede social em dez semanas e aprendi que inovação independe de tecnologia

Uma síntese do que foi a minha jornada de um ano em Stanford, na JSK Journalism Fellowships, e como encarei o desafio de melhorar a colaboração entre jornalistas investigativos no mundo

Sem tempo de ler? Assista a um vídeo de 3min46s em que resumo a minha pesquisa

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Cena de uma aula que fiz na escola de design-thinking de Stanford, com os alunos espalhados em diferentes países: a mentalidade da colaboração envolve controlar nossos egos (Foto de Guilherme Amado)

Muitos jornalistas chegam a Stanford, universidade da Califórnia onde passei dez meses como pesquisador convidado, com idéias de soluções mágicas para os problemas complexos que os inspiraram a se candidatarem para a John S. Knight Journalism Fellowships. Eu era um desses dez meses atrás. Acreditava que uma nova rede social era a melhor maneira de promover a colaboração entre jornalistas investigativos ao redor do mundo. Seria uma espécie de Facebook ou LinkedIn para repórteres, uma plataforma em que você digitaria o nome da pessoa ou da empresa que você está investigando e encontraria parceiros em potencial que estivessem fazendo o mesmo em qualquer lugar do planeta. Num passe de mágica, isso faria com que novas iniciativas de colaboração transnacionais florescessem exponencialmente. E eu, então um analfabeto em programação, estava preparado para passar todo o meu ano de pesquisa construindo esta plataforma. Tolinho…

Stanford roda em outra frequência, e o protótipo da rede social estava pronto em dez semanas. Com ele em mãos, depois de testes, constatei que muitos jornalistas, talvez a maioria, não gastariam tempo registrando-se em uma plataforma deste tipo. Basicamente porque eles não entenderiam os benefícios que aquilo traria no dia a dia. Descobri que jornalistas ainda teriam que aprender por que deveriam colaborar e como isso melhoraria o trabalho deles. Algoritmos não seriam capazes de resolver as dificuldades que temos ao trabalhar em grupos. Percebi que teria que ir mais fundo na minha pesquisa.

A rede social foi construída por uma equipe formada por minha colega chinesa na JSK Xin Feng e duas cientistas da computação de Stanford, Kristy Duong e Po Tsui. Nós quatro fomos um time em uma aula organizada pelo Departamento de Jornalismo de Stanford, a JSK Fellowships e o Brown Institute for Media Innovation (um think tank de Stanford e da Universidade Columbia, em Nova York, voltado para a inovação em mídia). Essa experiência em si me ensinou a primeira das muitas lições que aprenderia sobre colaboração no jornalismo.

O protótipo me mostrou que algoritmos não solucionariam um problema cultural (Foto de Guilherme Amado)

Foi a primeira vez que integrei uma equipe com pessoas de backgrounds tão diferentes, usando o design-thinking, um método de inovação centrado na experiência do usuário, como linha mestra para o nosso trabalho. O principal benefício do que a d.School (a escola de design-thinking de Stanford) chama de “colaboração radical”, reunindo pessoas de diferentes origens e disciplinas em torno de um problema, é que você o analisa a partir de múltiplas e diversas perspectivas. Isso é particularmente eficaz quando estamos diante de problemas complexos ou quando devemos tentar criar soluções inovadoras.

Uma equipe multidisciplinar pode ser benéfica em todas as fases do design-thinking, mas ela é especialmente valiosa quando os profissionais de diferentes áreas participam das fases de empatia e definição (os dois primeiros dos cinco estágios básicos do design-thinking), o que nos ajuda a entender melhor a perspectiva do usuário e a definir com mais exatidão qual é o problema que estamos tentando solucionar.

Foi mergulhar no problema que eu estava tentando solucionar — a dificuldade de jornalistas investigativos para colaborar — que me mostrou que eu poderia tornar minha pesquisa bem mais ampla e incluir mais perspectivas para estudá-lo.

Percebi que poderia me tornar um especialista nesse campo da colaboração no jornalismo. E decidi ter uma visão geral dele, estudando de cara as quatro escalas de colaboração:

• Dentro de equipes, entre editores e repórteres de unidades de investigação em todo o mundo.

• Dentro de redações, entre diferentes departamentos e em equipes multifuncionais, formadas por editores, repórteres, programadores, designers, fotógrafos, repórteres de vídeo etc.

• Entre profissionais e redações de um mesmo país, mas distantes geograficamente.

• Colaborações transnacionais, entre jornalistas e redações que estejam em países diferentes.

Além das quatro escalas, defini quatro ângulos para a minha pesquisa: comportamento, gênero, geografia e tecnologia.

Ao analisar a colaboração nas quatro escalas sob esses quatro ângulos, consegui mapear muitas dificuldades que nós, jornalistas, enfrentamos ao colaborar.

Nos meus dez meses em Stanford, entrevistei 47 jornalistas e scholars para refletir sobre os desafios que os jornalistas têm em cooperar. Em vez de me concentrar unicamente em uma solução tecnológica, como a plataforma que pensei antes de chegar, comecei a pensar outras maneiras de promover a cultura de colaboração no jornalismo. Meu desafio seria mudar mentalidades.

Meu foco passou a ser o que julguei adequado: pessoas, não máquinas.

O número de perguntas começou a crescer. Cada vez percebia mais e mais dificuldades para colaborarmos. Felizmente, com as interrogações, passaram a vir algumas conclusões.

Precisamos controlar nossos egos, e jornalistas homens precisam aprender com as mulheres como colaborar melhor

A primeira foi que o principal obstáculo que nós jornalistas temos para colaborar são nossos egos. Alguns de nós sabemos controlá-los melhor do que outros, mas os mais egocêntricos têm dificuldade de ver o mundo além de seu ponto de vista, além de seu umbigo. No jornalismo, não é diferente. E, para colaborar com sucesso, precisamos baixar a bola de nossos egos. Nosso trabalho tem a ver com nossa missão como jornalistas e não com nossos nomes assinando as reportagens, com prêmios ou com os holofotes que os furos trazem. Quanto mais você entende que o seu trabalho não é sobre você, mais colaborativo você se torna como jornalista.

A perspectiva de gênero me mostrou que nós, jornalistas homens, temos muito o que aprender com as mulheres. Elas definitivamente colaboram melhor. Ainda não encontrei uma resposta para isso —talvez seja porque elas administrem melhor seus egos, talvez porque o papel tradicional da mulher dentro de casa fosse, em parte, o de fazer todos colaborarem. O fato é que, no geral, as mulheres reproduzem em seus locais de trabalho essa atitude colaborativa. Os jornalistas devem se inspirar no comportamento de suas colegas de trabalho. Homens, apenas prestem atenção e tentem aprender o que elas fazem de maneira diferente de nós quando estão em grupo.

O ângulo geográfico me inspirou a começar a criar um mapa de assuntos em que jornalistas de cada país possam colaborar. A coincidência de interesses em colaborar é um dos segredos para que os dois (ou vários) lados envolvidos tenham por que cooperar entre si. Essa pesquisa de interesses geográficos permitiu que eu percebesse, por exemplo, a necessidade que repórteres chineses têm de colaboração nos Estados Unidos, em reportagens sobre funcionários públicos chineses corruptos que constantemente fogem da China para lá. Por outro lado, os americanos precisam de jornalistas chineses para, por exemplo, cobrir melhor empresas americanas, como a Apple, na China.

Este é apenas um exemplo das diversas dependências mútuas mundo afora que podem fomentar a cooperação. Comecei a criar um mapa de diversas coincidências como esta. Elas tendem ao infinito. O fluxo de pessoas e dinheiro em uma economia cada vez mais globalizada facilita muito mais a correspondência mútua de interesses entre parceiros em potencial que estejam em países diferentes.

Finalmente, a perspectiva tecnológica me mostrou quais plataformas ainda precisamos desenvolver para colaborar melhor, e de quais já dispomos para tanto. HackPack.press e Hostwriter são boas maneiras de conectar freelancers com a indústria. O Project Facet, da jornalista Heather Bryant, JSK Fellow 2016–2017, ajudará na interação entre as redações. Pessoas interessadas em jornalismo de dados devem prestar atenção em projetos como The Den, da Global Editors Network. No entanto, acredito que ainda há espaço para uma plataforma capaz de conectar a comunidade de jornalismo investigativo, como imaginei quando cheguei a Stanford. É algo que será útil nos próximos anos, depois que mais e mais jornalistas entendam a importância da colaboração.

Devemos treinar jornalistas como colaborar

A colaboração entre jornalistas ainda está em sua infância. Eu acredito que precisamos realmente investir tempo divulgando os benefícios da colaboração e convidando as pessoas a experimentar o seu poder. Pensando nisso, desenhei em Stanford um workshop de jornalismo colaborativo transnacional, um treinamento de 1h30min que ensina qualquer repórter de qualquer parte do mundo a criar sua rede de jornalistas para obter mais informações, mais habilidades e mais impacto para sua reportagem.

O workshop de jornalismo colaborativo transnacional, em Nova Jersey, em maio: qualquer repórter de qualquer parte do mundo pode aprender a criar a sua rede para colaborar (Foto de Thomas E. Franklin)

Nos Estados Unidos, fiz o workshop duas vezes, uma em Stanford, na Califórnia, em abril, e a outra na Universidade Montclair, em Nova Jersey, em maio. No Brasil, fiz no fim de junho no congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o maior encontro de jornalistas da América Latina. A versão mais longa, em Stanford, durou três horas e reuniu cinco instrutores que puderam se aprofundar em boa parte dos aspectos da colaboração transnacional.

Mas, mesmo no workshop mais curto, é possível que o jornalista aprenda, entre outros pontos:

· Como encontrar parceiros e combinar interesses usando os métodos existentes.

· Como adotar uma atitude colaborativa em diferentes escalas de colaboração.

· Como lidar com o seu editor durante o projeto.

· Como monetizar colaborações transnacionais.

· Como conduzir uma comunicação segura com seus parceiros.

Minha jornada em Stanford fortaleceu minha crença de que a perspectiva colaborativa é fundamental para vigiar os poderosos da maneira adequada. O fluxo de dinheiro ilegal e de malfeitores é cada vez mais global, e nós jornalistas precisamos estar aptos a inovar e a ir além de nossas fronteiras e recursos quando isso se mostrar necessário para realizar nosso trabalho a contento. A tecnologia tem desempenhado um papel fundamental nesse sentido, mas inovação é fundamentalmente sobre pessoas.

Precisamos mudar a cultura de nossas redações, mudar mentalidades, e ter mais repórteres e editores experimentando o poder da colaboração. O jornalismo precisa disso.

Porque, como eu digo, é impossível controlar os poderosos sozinho.

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