A trajetória e as lutas do MST

Especial VI Congresso Nacional do MST


São 30 anos de lutas, vitórias, avanços, retrocessos, polêmicas, e sobretudo resistência, amor pela Terra. As cicatrizes provocadas pela criminalização midiática, o forte investimento estatal no agronegócio e tantas outras dificuldades enfrentadas ao longo de sua caminhada fazem do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra cada vez mais consciente do seu tempo. É inspiradora a sua capacidade de mobilização para garantir a luta pela democracia de fato. A incorporação de outras pautas de lutas, tendo a Reforma Agrária como a mais urgente e necessária de todas, reflete como o movimento vem se ressignificando ano após ano.

Assista o vídeo da transmissão da Mística de abertura do congresso.

“Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. / Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. / Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. / Pra que serve a utopia? / Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” Eduardo Galeano

A Mídia NINJA participou deste momento histórico. Veja agora o compilado de 5 dias intensos em Brasília (DF) registrados pela equipe NINJA e ainda os relatos de Oliver Kornblihtt, fotógrafo argentino que veio em missão acompanhar o congresso.

#SomosTodosSemTerra

“Espero que esse sexto congresso anime: fogo, pensamento e compromisso como sempre. Recebam um abraço à distância e saibam que sempre terá gente comprometida com a luta por um mundo que signifique pátria e terra, mas para para todos, não para alguns.” Pepe Mujica
PÁTRIA E TERRA PARA TODOS

O maior movimento social do mundo, como classificou Noam Chomsky — filósofo anarquista norte-americano —, surge no final do período de ditadura militar, utilizando ocupações e atos públicos como ferramentas de enfrentamento ao latifúndio. Em sua trajetória protagonizou ações históricas como a marcha de 1997, que levou 100 mil pessoas a marcharem juntas com o Movimento em Brasília, denunciando ao mundo as injustiças cometidas contra o campo, no interior do Brasil.

Congresso em números

Hoje, o MST contabiliza 350 mil famílias assentadas em 8 milhões de hectares de 1200 municípios no país. São mais de 100 cooperativas e mais de 1900 associações em assentamentos. A luta do povo sem terra é reconhecida no Brasil e no mundo e possui diversas conexões internacionais. Só em seu 6º Congresso Nacional, que aconteceu na última semana em Brasília, reuniu 250 convidados internacionais, representantes de 27 países. Os números são frutos de conhecimentos adquiridos e compartilhados por homens, mulheres, crianças e idosos com os mais diversos tipos de formação. Tamanha diversidade, abrangência e tensionamento político criaram um grande movimento, orgânico e transformador.

Reforma Agrária Popular

“O sonho do MST nunca foi pequeno: a Reforma Agrária ou políticas agrárias mais justas e equitativas. Fazer com que a Terra possa acolher a todos para nela trabalhar e viver, no respeito a seus limites e possibilidades para nós e para nossos filhos e netos.”

Leonardo Boff, em comemoração dos 30 anos do MST

Um novo marco para a Reforma Agrária no Brasil. É o que pretendem centenas de famílias organizadas pelo MST. Partindo do ponto de que a distribuição de terras cresce de forma inversamente proporcional ao avanço do agronegócio, e que a conjuntura política e econômica dos últimos anos apontam para a não realização da Reforma, a necessidade de que as pautas e estratégias de luta sejam atualizadas é ainda mais latente. Há também demandas que se tornaram mais urgente nos últimos anos: Cerca de 37 mil escolas no campo foram fechadas, a saúde, em especial da mulher, vem sofrendo consequências ainda mais sérias por conta do uso exagerado de agrotóxicos, as condições de vida do trabalhador pioram e cerca de 90 mil famílias vivem em acampamentos no interior do Brasil.

Assista trechos da transmissão ao vivo do debate sobre Reforma Agrária Popular durante o Congresso

Houve uma mudança nos últimos anos em nosso programa agrário e construímos o que chamamos de proposta de reforma agrária popular. No período anterior, dominado pelo capitalismo industrial, havia ainda a possibilidade de uma reforma agrária do tipo clássico, que representava democratizar a propriedade da terra e integrar o campesinato nesse processo. Porém, agora a economia mundial é dirigida pelo capital financeiro e internacionalizado. No campo, esse modelo implementou o agronegócio, que exclui e expulsa os camponeses e a mão de obra do campo. Agora, não basta apenas distribuir terra, até porque o processo em curso é de concentração da propriedade da terra e desnacionalização”

Leia na íntegra a entrevista de João Pedro Stédile, para a Revista Fórum.


20 mil na rua e 30 anos de luta

Como sentir 30 anos de acúmulo nas mais cruéis lutas, físicas ou midiáticas, contra o poder estabelecido? Se durante o Congresso, com todas as movimentações, a organicidade do movimento podia ser sentida, durante a Marcha isso se cristalizou.

foto: Myke Sena/Mídia NINJA


Eram 3 kilômetros de filas devidamente espaçadas. Sem pressa, pois a batalha é longa. Pernambuco fazia a linha de frente. Cada estado em seu lugar, e segue a caminhada. O vermelho é marcante, e o sentimento também. Além da emoção, lucidez: “Dilma, liberte-se do Agronegócio”, dizia uma faixa. “E os 1600 camponeses assassinados?”. Barracas improvisadas com lona preta e cartazes de tamanho considerável formavam uma linha em frente ao Palácio do Planalto. Uma confusão, cruzes de madeira, um ônibus, balas de borracha, bombas de efeito moral. Um militante caído. Dois. De repente um cordão de integrantes da equipe de segurança afasta o que poderia virar um conflito mais sério. Um grupo menor protege o atendimento. Um terceiro grupo puxa a sequência da marcha rumo ao gramado do Congresso Nacional. A situação se acalma. O belo fim de tarde de Brasília é cenário pra um mar de esperança. Ninguém ali tá de brincadeira. De relance, em um dos milhares de bonés vermelhos, uma mensagem salta aos olhos um pouco torta mas nítida: “Pelos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas uma vida inteira de lutas”.

Assista o vídeo da transmissão ao vivo feita durante a marcha.

Bomba de gás lacrimogêneo é lançada contra os militantes do MST na Praça dos 3 Poderes em Brasília.

Para além da além da Reforma Agrária


A primeira forma de governar no Brasil foi dividir o território — de dimensões continentais — em 12 capitanias hereditárias. A época, o grande objetivo dos países europeus que ocupavam o Brasil (não apenas Portugal, mas também Espanha e Holanda, por exemplo) era a exportação em escala de quaisquer produtos que aqui houvessem. Caso a prospecção não trouxesse resultados imediatos, as terras férteis eram desmatadas e preparadas para grandes cultivos de, principalmente, cana-de-açúcar. As monoculturas e o latifúndio se confundem com nossa história. Cana, café e soja são estrelas da companhia, se revezando em diferentes períodos de glória, e continuam firmes e forte em sua representativa porcentagem do PIB.

O que há de diferente da época colonial para hoje? Muita coisa. A população indígena foi em grande parte dizimada, assim como a vegetação nativa. Cidades surgiram, se construíram, as capitanias se desfizeram, o império ruiu, a escravidão foi oficialmente encerrada e diversos outros fatos aconteceram e mudaram conjunturas no Brasil e no resto do mundo. Ainda assim, uma situação se mantém — apesar de mudanças pouco estruturais aqui e ali ao longo dos séculos: a distribuição de terras no país. Nunca houve, no Brasil, uma reforma agrária. Mais ainda: inserido em uma conjuntura singular, o país nunca deixou de flertar com o que hoje se chama de agronegócio. Outrora sustentadas pela mão de obra escrava, hoje as monoculturas são sustentadas por uma tecnologia irresponsável, que mecaniza o trabalho e aumenta a quantidade de produção através de sementes transgênicas e um uso imenso de agrotóxicos.

A chamada “Revolução Verde” veio a tona logo após a Segunda Guerra Mundial no mundo todo, e no Brasil nos anos 70, com um avanço terminal no uso de agrotóxicos, tecnologia, grandes áreas de cultivo e a monocultura como diretrizes de produção. A promessa era comida em abundância e de qualidade para todos do planeta. O Brasil, de joelhos, abraçou as alternativas. Assim como em todo mundo, logo foi se percebendo o tamanho do problema: aumento no número de doenças de consumidores e agricultores; surgimento de novas pragas resistentes a venenos; desaparecimento de sementes crioulas; degradação do meio ambiente; destruição de nascentes e poluição de córregos foram alguns dos pontos percebidos. A produtividade e o lucro dos grandes produtores ia sim, muito bem, no entanto esses e outros sinais já mostravam que o modelo não era sustentável.

Hoje os alimentos orgânicos são caros e inacessíveis à parcela mais pobre da população. Em média, no Brasil, se consome 5 litros de agrotóxicos todos os anos. Áreas indígenas, quilombos, pequenos agricultores constantemente perdem suas terras para grandes produtores ou extratores. A bancada ruralista, que representa uma centena de produtores rurais ligados a transnacionais com único objetivo de lucrar milhões, possui 160 deputados e 13 senadores, influenciou o enfraquecimento do código florestal e ataca inúmeras defesas constitucionais da terra. Além disso, ela impede com facilidade qualquer tentativa de reforma agrária. Em termos de comparação, o Movimento dos Sem Terra, que reúne mais de 400 mil famílias em todo o país, não conta com apoio tão passivo, apesar de ser muito mais representativo.

2014, um ano de mudanças, e todos se perguntam o que acontecerá com um mundo tão efervescente. A hora de cobrar a conta chegou, grandes degelos e o sumiço de cidades já são reais, assim como uma mudança visível no clima mundial, cada vez mais instável. O problema já foi percebido há anos, e o momento é de questionamento: e agora?


Lutar também é uma forma de estudar

— Sem Terrinha, em resposta ao repórter de uma emissora de televisão, durante a Ocupação do MEC


Os Sem Terrinha e o direito à educação no campo

Durante o 6º Congresso do MST uma equipe de 150 educadores e formadores acompanhou as crianças que participam das atividades da Ciranda Paulo Freire, onde os Sem Terrinha passavam o dia enquanto seus pais acompanham as plenárias. Cerca de 750 crianças de 0 a 12 anos protagonizaram um ato na porta do Ministério da Educação para reivindicar a melhoria na educação no campo. Nos últimos 10 anos, foram fechadas 37 mil escolas do campo foram fechadas e algumas susbtítuidas por ônibus que levam as crianças para escolas urbanas. A ocupação no Ministério rendeu intervenções, música, teatro e chamou a atenção do ministro José Henrique Paim, que foi até o local conversar com as crianças e ouviu a leitura do manifesto pela educação no campo.

Assista o vídeo da transmissão ao vivo feita durante o ato

Sem feminismo não há socialismo


O debate sobre o feminismo também está dentro das lutas do MST. A reconstrução de valores, a inversão de papeis, a complementaridade de esforços e a emancipação do sistema patriarcal são desafios de toda a sociedade e que os Sem Terra também defende.

“A construção do setor de gênero possibilitou um novo significado da luta pela terra, onde todos e todas sentem-se sujeitos participantes de um processo de mudança.”

— Leia na íntegra a reportagem de Kelli Mafort, da coordenação nacional de gênero o MST sobre a criação do setor de luta feminista

Saudação Aleida Guevara ao 6º Congresso Nacional do MST

Esse ano, pela primeira vez entre as 6 edições do congresso nacional, o MST realizou uma mesa para debater o feminismo e o papel da mulher no campo, importância delas para uma alimentação saudável e a a força da luta feminina. Participaram representantes do movimento, da Via Campesina e da Marcha Mundial das Mulheres.

Veja na íntegra depoimento de Anita Prestes durante o congresso:

Entrevista com Anita Prestes no 6º Congresso do MST

Lutar e construr a diversidade sexual no campo


“Muita gente no MST tem essa opção. As relações no Movimento são mais próximas, aí a gente acaba se descobrindo mais e se aceitando também, né? A vivência no MST permite a gente ter uma aceitação melhor, tanto pessoal quanto coletiva”, acredita Nilton, que atua na secretaria estadual do Paraná.

Leia na íntegra o texto do MST sobre a diversidade sexual no movimento.

Oliver Kornblihtt, colaborador NINJA, conversou com um dos militantes do movimento que deu um depoimento sobre sua escolha sexual e a vivência no movimento:

“Há três dias conheci Josué. A primeira pergunta que me surgiu quando o vi foi: Como é ser gay no campo? Como é ser gay no MST? Quando lhe perguntam diz “Porra cara, essa é uma história muito grande”. Estive três dias o perseguindo para que conte sua história. Não é que o Josué não goste de falar, lhe encanta contar sua história com todos os detalhes, hoje passamos 2 horas conversando. Ele contando e eu escutando.

Josué vive assentado em Tremembé, uma região rural do Vale do Paraíba em São Paulo, milita no MST há 5 anos. Não foi fácil chegar até aqui, mas sempre teve muito claro que o seu objetivo era conseguir sua terra e também sempre teve claro que não iria renegar nada do que ele era pra conseguir.

[…]

Quando lhe pergunto se o que lhe aconteceu é comum ao MST me diz que em todos esses anos de militância ele falou com vários companheiros, muitos deles gays e ninguém viveu nada parecido, ou pelo menos nada que lhe contam. Quando lhe pergunto porque não abandonou o movimento quando foi expulso do primeiro acampamento me disse que ele tinha um objetivo maior que era conseguir a terra, que tudo que lhe aconteceu lhe obrigou a enfrentar dentro do movimento o que ele tinha sido incapaz de enfrentar fora da cidade.

Josué é hoje um dos líderes da juventude do MST em São Paulo, todos seus companheiros sabem de sua sexualidade e ninguém cria problemas com isso. Ao mesmo tempo, não é algo que se manifeste explicitamente. Pergunto se consegue se imaginar convivendo com um homem no terreno de Tremembé, e me diz que tem um casal de mulheres vizinhas morando juntas, que nunca encotrou ao companheiro com quem queira compartilhar sua vida e me pisca os olhos… gatinho.”

Leia o relato completo.


Leia mais:

Veja aqui a análise de João Paulo Rodrigues, da direção nacional do Movimento.

Leia na íntegra a entrevista de um dos coordenadores do MST para o Repórter Brasil

Veja o compilado de relatos de Oliver Kornblihtt sobre sua vivência no Congresso.

Confira o resumo de matérias que o MST publicou a cerca do IV Congresso.

Assista o vídeo da transmissão ao vivo feita na Marcha dos 30 anos do MST

Like what you read? Give Mídia NINJA a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.