Madalena


Era a tempestade presa em carne. Dava seu ar de graças por aí desde a meninice, tirando sorrisos dos outros com seus grandes olhos amendoados, só para desviar a atenção de alguma arte ou bagunça que ocupava sua cabeça no momento.

Mas agora já não era mais menina. Em menos tempo do que volta da lua nova tinha ela largado a ingenuidade e a graça da infância por uma malícia tempestuosa que já vinha desde cedo querendo dar as caras. Tão rápido que ninguém havia se dado conta, tratando-a ainda como a criança arteira do olhar profundo. Mudado tudo isso num dia de terça-feira, em que ela passava suave pelos canteiros da praça e recebeu um comentário numa roda de jovens qualquer:

— Má rapaz, vocês viram Madalena?

Foi o suficiente para que toda a mocidade (e até alguns da velha guarda) começassem a desviar os olhos para a jovem moça que discorria pelas ruas um andar harmônico num compasso em quatro tempos. A alguns poucos era retribuído o olhar, aquele mesmo olhar profundo, mas que agora ao invés de arrancar sorrisos acometia aos (des)afortunados uma profunda crise do ser. Mergulharam em seus olhos e viram neles um cantinho daquela tormenta, a antítese encarnada, que encanta por seu próprio perigo e incerteza. Caíam então em profunda angústia, lamentando questões da vida e da morte, frequentemente se reunindo em rodas de bar cantando sambas tristes ao redor de uma garrafa de cachaça.

Tinha total consciência do que fazia e, apesar de se apoderar de várias paixões, não retribuia sequer uma. Era sua diversão colecionar amores chorosos. Certa vez um filho da alta classe numa de suas viagens de visita à família do interior, recebeu de Madalena, naquelas costumeiras voltas pela cidade, uma vista e um sorriso de canto, despretensioso, deixando a ele só o gosto dos cabelos ao vento e o lamento na graça e no balanço de sua saia rodada.

Deu até dó.

Acometido de uma tremenda cólera, ofereceu à ela primeiro seus mimos e jóias, depois suas músicas e chamegos, então todo seu corpo e amor e, por fim, sua dignidade. Não tinha o menor interesse por nada disso. Deixava por menos e ia subir nos telhados para ver as estrelas ou entrava vestida no mar sentir o baque das ondas. Fugia de batizados e casamentos para as festas da turma do samba e do jazz. Não se engarrafa uma tempestade.

Numa dessas festas perseguiu à ela o nosso Don Juan desalentado: grudou em suas canelas, arrastado pelo chão, implorando teu amor e a mão em casamento. Recebeu um seco “eu não quero você”, sem mais nem menos. Foi um tiro certeiro. Os olhos afundaram no crânio como quem acabou de ver o fantasma do trisavô de quem nem sabia o nome. Abaixou a cabeça, virou o rosto, e foi embora arrastando os pés e os longos braços no chão, percorrendo o caminho da angústia. Depois de uma breve pausa, o percussionista deu três toques na baqueta e a festa, como era de se esperar, continuou.

No amanhecer do outro dia surge um cadáver ensopado na fonte rasa da praça. Largado de bruços, com olhos vazios, logo atraiu a atenção do povo, aglomerando ao redor na espera dos oficiais. Tal mal impregnou no corpo que deixou todo o brio vermelho escorrer por um fio delgado do canto da boca, espalhando moroso por todas as frestas entre as lajotas da praça. Bastou um fôlego daquele cheiro forte e saturado para cravar a análise do legista:

Padeceu do mal de amor!


Obrigado por ler! Essa é a segunda da minha (série?) de crônicas, esta em especial inspirada num trecho do livro “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel G. Márquez. Convido à ler o meu primeiro texto, se ainda não conhece. Por fim, se gostou, recomende!

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