Você não precisa ser alguém na vida

Ou sobre como eu demorei 33 anos para encontrar um bom desodorante

The affair: puta trampo pra nada
“When I stop trying to become something, I discover that I am everything.”
David Loy
“Nós, como seres imperfeitos, limitados, grosseiros, presos no espaço e no tempo, imersos nas bolhas, sacolejando dentro do samsara, de um lado para o outro, nós não temos chance nenhuma! Mas nós não somos isso. Nós não somos isso. A chance não é dos seres que estão nessa condição, mas no fato de que nossa natureza profunda não é isso. Essa natureza profunda tem chance. Mas os seres que se reconhecem dentro das bolhas, como identidades, desejando isso, escapando daquilo, batendo aqui e ali, aspirando controle, tomando os objetivos de ter mais recursos externos para manipular as aparências e obter algum resultado, esses não conseguem. Sem chance. Não dá tempo e não tem como atingir. Porque qualquer coisa que eles atinjam é uma coisa construída dentro de uma bolha. Aquilo vai ser derrubado. Vocês olhem os seres poderosos, o que acontece com eles? Não importa qual a manipulação que eles consigam, ainda que super hábil, a gente pensa que isso é vitorioso, mas não é.” 
Lama Padma Samten

Sou preguiçoso. Fico sempre buscando a saída mais fácil. Toda vez que comparo o caminho do sucesso pessoal (tentar ser uma pessoa com uma boa história) com o caminho da iluminação (reconhecer a natureza livre de qualquer pessoalidade para beneficiar incontáveis seres), fica nítido o quanto a liberação é mais viável. A possibilidade da liberação é uma boa notícia para perdedores, fracassados, deprimidos, ansiosos. E somos todos.

Pense: eu demorei 33 anos para achar um bom desodorante (por indicação da Isabella Ianelli, atualmente estou testando leite de magnésia, aquele antigo: além de ser saudável e barato, funciona mais do que qualquer outro que já usei). Quando dei esse exemplo num curso no CEBB Rio, um pouco depois um amigo mais velho veio me perguntar: "Cara, já que mencionou, qual desodorante você tem usado?". Se não conseguimos nem resolver essa questão, qual a nossa chance ao almejar qualquer outra coisa na vida?

Da próxima vez que alucinar com alguém sendo realmente feliz em algum lugar, lembre-se: provavelmente essa pessoa ainda não está satisfeita com seu desodorante. Ela ainda não achou a solução perfeita.

Agora que resolvi o desodorante, preciso acertar um lance no banco, outro no apartamento, tem também algumas questões no trabalho, mas isso tudo é detalhe, já que a grande tarefa que me passaram é ser um marido melhor, um filho melhor, um ex-namorado melhor, um dono de casa melhor, um empresário melhor, um Gustavo mais fodão, acumulando aprendizados, viagens, superações, conquistas, amizades, projetos, novos desafios, propósitos, terapias, workshops de fim de semana, piadinhas internas, filmes e fotos de uma bela história.

Nosso sofrimento vem de estarmos sempre tentando ser alguém na vida. Tentamos nos afirmar como boa pessoa, tentamos fincar a bandeirinha em algum lugar, chegar a alguma história mais redonda. Tô me entendendo um pouco melhor na terapia, tô trabalhando para ser menos isso e mais aquilo no trabalho, comprei um livro para aprender a lidar melhor com meu casamento…

Se quiser entender esse funcionamento, observe uma pessoa que sofreu um grande baque (doença, traição, morte), veja como ela fica o tempo inteiro tentando entender aquilo, encaixar a realidade em sua narrativa de sucesso pessoal — mesmo que a pessoa tenha um ideal de sucesso mais refinado, daqueles que criticam as próprias noções de sucesso e felicidade, misturando arte, psicanálise e filosofias que tendem ao extremo do niilismo, por exemplo.

Quanto mais tentamos resolver e retocar a história na qual enfim somos alguém, mais escalamos o sofrimento. Somos como uma pessoa que derruba um copo de vidro no chão da sala, mas é incapaz de ficar parada, é incapaz de apenas olhar com curiosidade para a disposição dos cacos: na urgência de resolver, ela se corta inteira. Ou como alguém sentado por bastante tempo em uma cadeira: quanto mais tentamos nos ajeitar, mais nos entortamos.

O filme Before the devil knows you're dead (de Sidney Lumet) e a série The affair (de Hagai Levi e Sarah Treem) são bons exemplos dessa operação do carma. Essas obras e nossa vida deveriam começar com essa citação de Shantideva:

“Aqueles que desejam escapar do sofrimento se apressam indo diretamente em direção a ele. Pelo próprio desejo de felicidade, pela ilusão, eles destroem a própria felicidade como se ela fosse um inimigo.”
—Shantideva

Como ensina a grande Elizabeth Mattis-Namgyel (leia The power of an open question), o que chamamos de mundo ou de vida não é um fenômeno consertável ("fixable"). Nós também: nossa identidade nasceu de condicionamentos, começou torta, não tem como desentortar, não tem como resolver. Se fizermos tudo certo, no máximo ganharemos algumas estrelas no jogo da felicidade condicionada, só isso. A insatisfação continuará impregnada em nossos olhos.

Se tentamos fugir do extremo da reificação para o extremo da negação, se tentamos não ser ninguém, se desistimos de ser uma pessoa melhor, isso é outro modo de tentar resolver, igualmente inútil. Um exemplo de visão além dos extremos, da timeline recente da Elizabeth:

"If you seriously consider your part in infinite interdependence, it doesn’t allow you to become bloated by your achievements or collapse into insignificance."
—Elizabeth Mattis-Namgyel

A mente que começa a se familiarizar com a realidade além dos extremos, a mente que começa a perder a esperança de encontrar o desodorante perfeito, essa mente não nos leva a parar de usar desodorante, mas a não mais viver a partir desses referenciais. Claro, seguimos aprendendo as habilidades mundanas do funcionamento de uma boa pessoa, mas nossa vida não se resume a isso, não estamos de fato nos construindo a partir desse processo e portanto estamos além de qualquer sensação de sucesso ou frustração quando o desodorante perfeito começa a manchar todas as nossas camisetas. Nosso relaxamento vem de saber que não há resolução, ao mesmo tempo em que nos divertimos com a tarefa de remover as manchas e achar um desodorante melhor. Ou seja, isso não mais tem o poder de nos distrair da vida ampla, do que fazemos assim que passamos o desodorante meia-boca e vestimos a camiseta meia-boca com nossa identidade meia-boca.

O tempo em que paramos de tentar ser alguém é exatamente o tempo que dedicamos a soltar enredos, bolhas, impulsos, resistências, contrações, hábitos que chamamos de "eu". Na exata medida em que paramos de tentar chegar a algum lugar, começamos a reconhecer onde estamos. Sempre que damos uma pausa em nossa saga autocentrada, é inevitável a alegria de perceber e impulsionar a vida ao redor. Equilíbrio, sabedoria, amor e compaixão se abrem. É isso que sempre estivemos buscando. É só isso que temos a cultivar e a oferecer. Namoros, projetos e desodorantes são apenas meios hábeis para nos relacionarmos e nos movermos por compaixão. Desse modo, podemos apreciar o aspecto impermanente e sempre meio caótico desses meios hábeis, já que nossa casa é estável. O problema é quando tentamos morar e nos identificamos com esses processos impermanentes e caóticos.

Para terminar essa anotação meio solta, deixo um trecho de ensinamento do Lama Padma Samten e um vídeo bem engraçado do Mooji, professor advaita da linhagem de Papaji e Ramana Maharshi ("What happens when two nobodies meet?").

Que em 2016 a cultura do sucesso pessoal — da carreira, do crescimento, do lifehacking autoajuda, da ruminação psicologizadora sobre o conteúdo de nossas histórias, da manutenção, da transformação causal, do storytelling como sentido da vida, do empreendedorismo espiritual—não atazane nosso fluxo mental, não governe nosso tempo, nossa energia, nosso foco, nossa vida. Que possamos parar, olhar bem ao redor e agir além de qualquer necessidade de ser alguém, além de qualquer pressão para construir uma identidade vencedora.

“Os bodisatvas não estão transmigrando de um galho para o outro. Eles surgem por bodhicitta e a energia deles não precisa da visão de um galho prometido, eles não estão buscando um lugar confortável.
A história deles não é traçada pelos apegos, pelas visões, pelos contatos, pelas frustrações, pelo que eles obtiveram de vantagens e desvantagens… Eles não pegam aquilo tudo e dizem “Eu sou isso”. Eles realmente não fazem isso. Se alguém apresentar aquilo tudo para eles (“Você nasceu, fez isso, gostou daquilo, aqui está sua mãe, carteira de identidade…”), eles vão dizer: “Isso não sou eu”.
Se a gente consegue ultrapassar a aspiração do galho prometido e gerar uma energia autônoma, aí nós temos uma boa chance de avançar dentro de bodhicitta. Aí nós podemos usar a dimensão livre. A dimensão livre vai nos fazer sorrir. Ela tem um olhar maroto junto.”
—Lama Padma Samten

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