[para Bhuvi Libanio]

você está entregue
a si mesma

olhos fechados
palma das mãos para cima
semblante sereno
a coluna ereta
em um ângulo de noventa graus

seus cabelos estão presos

/bonita como uma palavra/

o que vejo são novas posições
órgãos que se massageiam
por dentro

ligações que se renovam
ares que se inspiram

/tudo o que movimenta/

depõe
os fuzis que esses homens portam

vestida em sua malha
me lembra Marina Abramović
mas isso não significa nada nesta história

porque
você é uma dessas pessoas que simplesmente são

a despeito das granadas
dos acessórios
e da dificuldade de abrir as embalagens de plástico


[para a minha irmã Lenise Regina]

um homem olha para o lado esquerdo
para fora do quadro
para fora do poema
para fora dos buracos deste poema frágil

está sentado em uma poltrona confortável
mas não está confortável

seus cabelos estão penteados
sua camisa está passada
sua calça tem vincos
no pulso esquerdo há um relógio/

ele sentiu a música da pedra
o amor pela palavra que se cava/

descansa os braços sobre as pernas
em ângulos agudos//

o prometeu cego observa a paisagem//

atrás de si leva apenas escadas de madeira
e suas sombras


[para Flávia Péret]

ela não está no centro da festa
está no centro do quadro/
seu olhar de soslaio
captura quem a vê


HISTÓRIAS REAIS — exercício #1

[para a Flávia Péret]

ela sustém o próprio seio
a mão esquerda em concha

o cotovelo faz um ângulo bonito
mas não aparece no quadro

o mamilo aponta para cima
a sombra da mão logo abaixo do seio
a manicure por fazer

o sutiã está ao contrário
o fecho
quase na altura da cintura

a não ser pela textura da pele
pelas sardas
a mulher é um busto em praça pública
a evitar
que lhe tomem as medidas


a criança, o papel, o giz de cera
três, quatro anos

o som da porta
a professora sai

é tudo do que se lembra
antes da queda
antes dos gritos promovidos pelas marcas de botas

ortopé ortopé

tão bonitinhas as mocinhas
tão corajosos os varões

tão delicadinhas
tão brigões

nossos pepinos entortados

nossas abelhas-rainhas
nossos zangões

nosso azul da prússia
nossa rosa de Hiroshima

matizes monocromáticos
prismas bicolores
pães bolorentos

rendimentos de cópulas mesmerizadas

souvenires de uma guerra
em que gênero é general

que rompe cabeças e ossos e nomes de outrem, de outras, de outros afastados do pacto terrífico…


você se senta
diante da câmera
camisa preta,
braços à mostra
a expressão séria, algo dramática

quem olha você assim não sabe

se é um jovem judeu
ou judia

fluxos curtos
seus cabelos molhados
as sobrancelhas feitas
o desvio de uma ligeiramente mais arqueada do que a outra

os olhos, relaxados
enquanto adentram
nesse rio de sereias silenciosas

ancorados
cabeça ombro braços
as raízes desse salgueiro
à beira do mar desconhecido

uma foto
um retrato
uma bromélia

são fluxos
mas nada se adivinha em seu olhar

neste mundo em que gente é doença olhar seu rosto suspenso como um cântaro…


Nunca fui de querer publicar poemas, não via motivo para colocar meus poemas no mundo. Mas em janeiro/fevereiro de 2017, conversando com Bhuvi Libanio e Maria Esther Maciel, considerei o fato de que uma poeta só existe com livro. Naquela mesma noite dei nome para o volume: e outros poemas. Seria uma reunião do que escrevi entre 1998 — quando comecei — até 2017 e que eu considerava apropriado para publicação.

Alguns dos poemas haviam sido publicados em revistas e em edições experimentais, mas decidi inclui-los. …


Cindy Sherman, “Untitled film still #35”, 1979

Modernidade à tardinha

ah, nêga!

você é moderna demais pra mim!

é mais até que minha arte,

que new york,

sartre

ou godard

em bande à part.

você é muito mais moderna

que a aretha

com esse seu nome de três letras.

seu rabo de cavalo

é mais descolado

que gostar do vincent gallo

e seu olhar

que não quase não me vê

é mais blasé

até

que o de madame mallarmé.

ah, neguinha,

esta poesia xinfrim

tem um finalzim tão jequinha!

não tem nada de fog londrino,

não transgride-como-manda-o-figurino

e ainda canta, pra você,

um verso do agepê.

Omar, português

com anderson almeida e Leo Gonçalves

Omar Salgado, quanto do…


[imagem daqui: https://www.enjoei.com.br/p/onde-andara-dulce-veiga-machado-de-assis-34428030]

14.

(…)
Na entrevista maior, publicada na véspera da estreia, provavelmente a última antes de desaparecer, sublinhei algumas frases de Dulce Veiga:

“Canto porque cantar me dá um sentido.”

“Mas penso sempre que cantar é inútil.”

“Não quero nenhuma das coisas materiais que o canto poderia me dar.”

“Quero encontrar outra coisa.”

“Outra coisa que nem sei o nome, maior que eu mesma ou qualquer
canção.”

“Gostaria de desaparecer um dia.”

“Como desapareceram os bondes descendo as ruas, os coretos no meio das praças.”

(…)

68.

Eu perguntei:

– Você não quer voltar?

Ela disse:

– Nunca mais, eu sou…


parafernália s.f. 1 conjunto de objetos de uso pessoal; pertences, acessórios. 2 conjunto de apetrechos necessários a uma certa atividade. 3 coleção de coisas usadas e/ou velhas; tralha. (houaiss) rimbaud: il faut être absolument moderne. mcluhan redivivo. meios são massagens meios são mensagens. palavra escrita: um olho por um ouvido. a descoberta das coisas que nunca vi (oswald). começo de um século pagão. começo de um milênio. nascimento do olho ocidental (paglia) em meio ao caos do dissenso. império da fala: a fala é o melhor espetáculo encenado pelo ser humano (whorf/risério). em vez de destruir as aglomerações humanas é…

Leticia Feres

“Escrever é tornar-se, mas não é de modo algum tornar-se escritor. É tornar-se outra coisa.”

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