Discografia selecionada Beach Boys: Parte 2

André Silva
May 29, 2018 · 30 min read

A saga continua: André Silva (A) e Miguel Amado (M) fazem justiça à banda dos irmãos Wilson & agregados, metendo a boca na obscura sobrevida dos Beach Boys, anos 70 adentro. Existe vida após Pet Sounds. A primeira parte pode ser lida aqui.

Sunflower

Brother Records/Reprise, 1970

Ostracizados das paradas, mas pirando na criação

A: Você sabe o contexto desse disco? É a primeira tentativa da parceria Brother Records/Reprise desde o Smiley Smile ter batido no prédio e pego fogo. Vi uma entrevista com o gerente de vendas deles dizendo que era impossível empurrar o single (faixa 3) pros DJs de rock porque os Beach Boys já não eram “legais”.

M: Porque escolheram errado também. É uma das piores do álbum. "Slip On Through" (faixa 1) seria matadora.

A: Verdade. Mas como funciona? Brianzão tava de volta do hospital? O som é bem diferente, mas menos hard rockeiro do que o 20/20.

M: Acho que é o mesmo esquema: Brian manda as músicas dele e o resto se vira como pode com uns pitacos dele. Mas a capa tem ele. "Slip On Through" é do Dennão e, tirando um cowbell ou algo parecido, é espetacular.

A: É muito rebordosa hippie a capa com essas criancinhas hahaha… Mas é bem massa mesmo, até o sino de vaca. O arranjo da segunda é melhor do que 80% dos do disco anterior também, com os sininhos. Será que dá pra arriscar dizer que o Dennão é o tutor da banda nesse segundo momento? Logo antes do Carl assumir…

M: Pelo que vejo, ainda é o Brian na verdade. Ele assina varias músicas, é capaz que, como era uma nova gravadora, ele tenha sido motivado ou se motivou a aparecer mais. O interessante de "This Whole World" (faixa 2) é notar a diferença de voz do Brian e do Carl. O Brian canta o comecinho e o Carl depois. Notei isso agora.

E dá para saber porque o Bruce Johnston adora esse álbum e não gosta de Friends: o safado tem dois créditos nele.

A: Hahaha… Realmente. O Friends já é açucarado, mas esse aqui tem momentos bem mais suaves, tipo “Deirdre”. Mas primeiro, vamos a essa música single ridícula, "Add Some Music To Your Day"… Qual a ideia por trás dela? “Os Beach Boys-arte, Beach Boys-moleque voltaram com coros angelicais?”

M: Horrível. E "horrível" dos Beach Boys sempre tem o Mike Love. Cara, eu te disse, toda música que quer ser uma ode à existência de música é horrível. TODA. A ideia é “Beach Boys vagabundos”

A: Bom, não sei se isso é verdade, mas para eles terem que enaltecer textualmente a Música duas vezes em dois álbuns seguidos, é sinal de que algo não ia bem.

M: Outro sinal que essa música não é boa: todos os integrantes cantaram menos Dennis Wilson. Certeza que ele falou “sério que vocês querem fazer essa merda? Vou beber bourbon e traçar alguém.”

A: Não é à toa que ele salva a pátria logo em seguida, com mais um impulso roqueirinho tipo anos 50, com pianinho e tudo mais.

"Got To Know The Woman"

M: Então, eu ia falar que o segundo tipo de música dos Beach Boys que odeio é o “somos roqueiros, meeeo”. Mas essa música é boa. Tirando o “máo, máo” escroto do Mike Love no fundo. O coro, no fim, de mulheres que dormiram com o Dennis também é legal.

A: Agora “Deirdre”. Eu gosto muito dessa música, a melodia é bonita, embora seja a mais mela-cueca, de longe.

M: Hahahahaha, total. Cara, Brução manda bem demais com essas canções mela-cueca. Concordamos com isso? Eu amo o refrão. AMO. Um dos melhores refrões combinando a galera.

Johnston’s “Deirdre” was later sampled in the 1995 Super Nintendo Entertainment System game, EarthBound.

A: Sim, é sensacional! O comecinho nebuloso, os metais, a paradinha com solo de baixo. Os coros não são naquela linha palhaça da surf music de auto-plágio. Será que a música toca igual no Earthbound?! Ou então é daquelas versões vagabundas?

M: POIS É. Não sei, vale procurar.

Nota: Procuramos. Está aqui

Aliás, "Deirdre" foi lado B de "Long Promised Road" em um single. COMPRARIA FACILMENTE ESSE SINGLE.

I wrote all the music for the song and started writing the lyrics with Brian although that’s not his strong point, even though we must remember that Brian wrote all the lyrics for songs like “Surfer Girl” and “’Til I Die”. So “Deirdre” was kind of my song and I split it 50/50 with him. It’s really about 99% my baby.

A: Só não supera Kokomo, óbvio.

M: OLHA ESSE BRUÇÃO ABUSADO “LETRAS NÃO ERAM O FORTE DE BRIAN”

A: Oloko! Não falei que ele colocou as asinhas de fora no 20/20?!

M: KKKKKK

"It’s About Time". Outra do Dennis, junto com Al e um outsider.

A: Nunca pensei que o Al Jardine teria bolas para co-escrever uma coisa tipo Motown animal dessas. Quer dizer, estamos falando do cara que propôs "Sloop John B" e "Cotton Fields" para gravar.

M: MY GRANDFATHER AND ME, CARA

A: Se tem uma mácula no Pet Sounds, é essa! Mas esse som aqui é um absurdo: deve ser a primeira faixa dos Beach Boys com uma virada de bateria e, logo de quebra, tem umas percussões malucas com bongô, atabaque e o escambau. Como essa não foi o single? O Joe Cocker poderia cantar em cima e ninguém choraria falando “uuuui… os Beach Boys de novo não”.

M: Então, sobre a bateria, fiquei chateado que não foi o Dennis tocando. Eu odeio isso dos Beach Boys. Porra, tem um baterista bom, tem um guitarrista bom. TOCA A MERDA NO ESTÚDIO. Os caras contratavam mais gente que a GM nos anos 70.

A: HAHAHAHA… Quem é então? O Hal Blaine?

M: Earl Palmer:

Palmer played on many recording sessions, including Little Richard’s first several albums and many other iconic Rock & Roll songs. According to one obituary, “his list of credits read like a Who’s Who of American popular music of the last 60 years.”

Amongst the many artists he worked with, included: Frank Sinatra, Phil Spector, Ricky Nelson, Bobby Vee, Ray Charles, Sam Cooke, Eddie Cochran, Ritchie Valens, Bobby Day, Don and Dewey, Jan and Dean, the Beach Boys, Larry Williams, Gene McDaniels, Bobby Darin, Neil Young, the Pets, and B. Bumble and the Stingers, as well as jazz sessions with David Axelrod, Dizzy Gillespie, Earl Bostic, Onzy Matthews, and Count Basie, and appearing on blues recordings with B. B. King. He was also in demand for television and film scores. [Obituário de Earl Palmer no Guardian, 2008]

A: Grande Earl. Merece o monumento ao baterista desconhecido, pelo jeito.

M: O menino era bom.

A: E essa "Tears in the Morning"? Com um acordeãozinho portenho rolando solto?

M: Horrível. Existe uma razão para ele só contribuir com uma música por álbum. Esse era o tamanho do poço. Mas a entrada no refrão é legal: "I GOOOOT TEAAARSSS".

A: A mudança é um golpe. Mas, pô, o cara foi abandonado pela esposa que esperava por um filho ou só bancou o Manoel Carlos pra compor uma novela triste?

Lose a wife change my life we’re not together

A canceled future well it’s hard on me

Gone you’re gone are you gone forever

Hope you love the baby I’m never gonna see

M: Um ano depois ele cantava "Disney Girls". Uma das minhas maiores questões é saber se o que ele canta nessa música é verdade. Aí, ela se transforma de uma música mela-cueca, ou só um sonho, tornando-se a mais depressiva da história.

Pesado mesmo. Vamos ver a vida de Brução... Não tem nada dele. Engraçado que um dia, procurando sobre ele dei de cara com uma notícia de que ele era multimilionário, do tipo 200 milhões em patrimônio. Mas era pegadinha.

"When I was there, my crazy, wacky, wonderful friend Kim Fowley was there"
(Bruce Johnston sobre levar o Pet Sounds para Londres e Lennon e McCartney ouvirem com ele.)

Eu, se fosse o Brução, já mandava um “vocês vão tentar, mas não vão conseguir superar. USA! USA! USA!”

Cara, estou vendo uma entrevista do Brução e ele fala de uma música do Dennis que eu não conhecia. Porra que música do caralho.

A: Qual é?

M: “Angel Come Home”. L.A. Album. Que nem eles devem lembrar. Cara, a entrevista é muito boa.

RCM: Recount your memories of the Beach Boys live shows in the late ’60s supporting an album like Friends. Some of those tracks appear on the new box set.

Bruce Johnston: During that Friends era, we were wearing the white suits and I remember doing some of the songs from Friends, which to me was a very weak album although the track Friends is fabulous. Listen to the bass on it, it’s 6/8 jazz acoustic bass. I did not like the Friends album because I thought it was wimpy. I don’t think we were doing anything where Brian was at full strength. We had to do some of the Friends stuff on the road and it just used to make me wince because it was wimpy.

No fim ele fala “André Silva, vai se foder”.

A: Frágil? O quase-membro que poderia ser letrista de sertanejo universitário tem seus momentos de destaque, mas esse julgamento é ERRÔNEO.

M: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

A: “All I Wanna Do”: Mike Love e Brian Wilson definitivamente não eram uma boa combinação nesse disco.

M: Sabe uma coisa que acho engraçada? Gosto bastante do efeito no vocal do Mike. Essas músicas sobre "dar amor ao mundo" enchem o saco. Mas não adiciona nada mesmo.

A: Essa é a faixa datada da época, que mostra como eles piravam no mellotron, em ecos e sons de baterias diferentes. Por esse lado é uma curiosidade, mas bem furreca artisticamente.

"Forever"

M: Porra, é uma música bonita. Adoro o "Foreeeever" até o refrão e o “I’ve been so happy loving you”. E o "save, save, save me my baby". Enfim, proibida para diabéticos, mas é bonita. Curiosidade: o (ator) John Stamos subia no palco para cantar essa música com eles depois que o Dennis morreu.

A: Tava procurando quem é John Stamos… O cara do "Full House"? Poxa vida… É bem bonita mesmo. A voz do Dennis, quando ainda conservada, era a mais bonita.

"Our Sweet Love"

M: Lindo piano. Voz maravilhosa. PONTO.

A: Sim. Mais uma composição do Brian dada de presente pro Carl, precursor espiritual do Robinson anjo.

M: Cara, será que o Bruce tem razão? O Brian tem algumas letras muito pentelhas.

A: Bom, é o cara que escreve "Vegetables". Por outro lado, as letras do "Pet Sounds" têm parceria com o Tony Asher e são boas. As com o Van Dyke são uma loucura, mas tem umas legais. Me parece alguém consciente das limitações, até certo ponto. Talvez o Smile tenha quebrado essa noção…

M: Li de novo a letra agora. Não é ruim não, peguei pesado, o Bruce ainda está errado.

A velha dualidade aqui, verão e inverno.

A: Sim. Mas vale lembrar que o Al deu uma mão na letra. Mas o Bruce Johnston é o cara que ocupou a faixa instrumental do disco anterior com uma composição dele, então o fator puxa-tapete não deve ser ignorado.

M: Verdade.

"At My Window"

M: Eu gosto bastante dessa porra de instrumento, seja o que for. E da voz do Bruce. Tirando os efeitos de pássaro pentelhos, é uma música engraçada porque não deveria ser legal, mas é. E de novo tem um acordeão, dessa vez mais legal.

A: Música terrível, por favor. Parece uma trilha rejeitada da Disney.

M: KKKKKKKKKKKKKKKKK, eu me sinto culpado por gostar dela. Mas eu gosto. Outra coisa engraçada: se fosse qualquer banda fazendo essa música todos diriam: bom, eles estão loucos, a janela é LSD, os pássaros são anjos e o acordeão é a gravadora. Mas não, o Bruce Johnston devia estar falando sério. Por isso eles não eram cool mais.

A: Eles levaram a sério essa estupidez de “pop barroco” e resolveram fazer uma música árcade.

M: Eu gosto. Foda-se.
E odeio essa música final.

"Cool, Cool Water"

A: Olha, eu não vou discutir com você porque você é burro.

M: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK. Sobra da porra de Smile. Ali o poço estava secando já.

A: Foi a música que os caras da Reprise/Warner ouviram para botar fé na distribuição do disco de antemão. Eu não faço ideia de que sentido isso pode fazer comercialmente em um milhão de anos, mas é uma loucura que eu gosto de ouvir nesse disco. Mas tem carinha de Smiley Smile, sem dúvida.

M: kkkkkkkkkkkkkkkkkk, realmente. Ela é tão comercial quanto Fanta Toranja.

A: Hahahaha. Olha só:

As discussions on a stronger lineup ensued, Warner A&R executive Lenny Waronker visited Brian’s Bel Air mansion (site of the ‘Brothers Studios’ home recording rig on which most of the current material had been cut) and he was stunned to hear Cool, Cool Water, a song of Brian Wilson’s and Mike Love’s that Brian had performed alone at his piano for Lenny.

Waronker was deeply moved by the sheer beauty of Cool, Cool Water, whose inspired simplicity seemed to dovetail with the transcendent commercial complexity of Brian’s masterpiece of four years earlier, Good Vibrations. Waronker deemed both songs to be works of great intuitive grace, and made a mental note to himself: “If I ever get the opportunity to produce Brian, I’d encourage him to do something that combined the vividness of Good Vibrations with the non-commercial gentleness of Cool, Cool Water.”

M: Quem diria que o cara mais louco naquele momento era o da gravadora e não o Brian?

A: Pois é! Aí fica claro que os anos 70 foram uma avalanche de drogas nas mentes das pessoas.

M: Cara, olha a história bizarra desse pianista Darryl Dragon: ele tinha uma banda com a mulher (Captain and Tennille), que foi famosa, teve alguns hits. Ele tocava com um chapéu de marinheiro e o Mike Love chamou ele de capitão e pegou. Ele tocou com os Beach Boys nos 70 e sumiu depois da banda com a patroa cair nas paradas.
Em 2009, foi anunciado que estava com Parkinson e em 2010 a mulher SE DIVORCIOU DELE.

A: Que linda história de amor…
Acabo de ler que o Sunflower atingiu o 151º lugar nas paradas de álbuns… Ou seja, fracassão. É um álbum mediano. Talvez um pouquinho melhor que o 20/20 nos pontos altos e pior nos pontos baixos.

M: Ele é bizarro. Não é um álbum que gosto de ouvir. Não é ruim. Mas não gosto de ouvir. Nem as músicas boas me animam a ouvir. A sobra do Smile é ruim. As músicas do Carl não são boas. Enfim, não gosto.

A: Acho engraçado ele ter sido reavaliado positivamente pela Rolling Stone depois de décadas. Tem bons momentos, mas não faz sentido.

M: Ele não está na lista de 500 melhores da Rolling Stone?

A: Sim. E deve perder até dos últimos discos da fase surf deles em qualidade. Vai entender esse revisionismo do rock…

M: Eles quiseram entrar na nossa moda “hey, o pós-Pet Sounds é fudido”, mas no cara ou coroa caiu o álbum errado. Era o Friends. Ou Surf’s Up. Ou Holland.

Clássicos: Nenhuma

Favoritas: Deirdre, Slip On Through (consenso)

Nota: 7,5

Surf’s Up

Brother Records/Reprise, 1971

A garotada vai amar essa guinada melancólica!

"Don’t Go Near the Water"

A: Depois de ver o Sunflower sendo solenemente ignorado, Al Jardine e Mike Love cogitam filiar-se ao Partido Verde. Já dá pra ter uma ideia do tom melancólico do disco com essa faixa, mas a letra sobre poluição da água encaixa mal.

M: CARLÃO ARREGAÇANDO AS MANGAS AGORA. OS BEACH BOYS SÃO HYPE TAMBÉM

A: Por que hype?? Acho que é a coisa mais distante do que eles eram na época desse disco!

M: Esse disco foi feito para tentar colocar os Beach Boys nos círculos hype, motivados pelo novo empresário. Inclusive estabelecendo uma ligação com o Grateful Dead.

Surf’s Up’s creative direction was largely influenced by newly employed band manager Jack Rieley, who strove to reinvent the group’s image and reintroduce them into music’s counter-culture.

A: “Carl, você assume essa nova fase. Pode colocar uma música meio-engajada, que essa molecada hippie vai achar que vocês têm consciência social. E diminuam os coros e joguem bastante guitarra e teclados bem esquisitos. Esse é o futuro, cara.”

M: KKKKKKKKK. Mas "Long Promised Road" é sensacional. Que refrão, pqp. Um dos melhores da banda:

A: É verdade! Mesmo os teclados bizarros caem no gosto depois de ouvir algumas vezes.

M: Carlão palestrante motivador. Será que tem alguma coisa que ele cante e que fique ruim?

A: Acho que não. Nem essa faixa Whitesnake-trilha-sonora-da-sessão-de-malhação-dos-Beach-Boys.

"Take a Load Off Your Feet"

M: “Tome Conta dos Seus Pés”… E perceba o que você está comendo (refrão). O Brian estava completamente louco.

A: Sim. Esse é o momento em que ele começa a transformar as composições dele em fábulas. “Vegetables”, uns anos antes, era uma música com uma letra esquisita, mas nessa aqui as preocupações dele viram uma realidade paralela. Além de ser bem pentelha.

M: Horrível. Esse disco pede por Carl e só Carl, o resto é resto.
Mentira, tem a melhor composição do Bruce também. E uma sobra legal do Smile. Ok, sigamos em frente e esquece o de cima.

A: Espera aí. A letra dessa música bizarra é sobre o que? Quaaludes? Até o começo da faixa tem umas vozes fora de sincronia:

M: É uma colagem de memórias do Brian, provavelmente.

A: “Take a Load of Your Feet” foi escrita na época que o Brian abriu (brevemente) uma loja de comidas saudáveis! Hahahaha! E chamava RADIANT RADISH (rabanete radiante).

Parece alguém, no mínimo, letárgico.

"Disney Girls (1957)"

A: “Disney Girls” é uma sobra?

M: Não, acho que não. É sensacional. Eu gostaria de dizer que a versão do Garfunkel é melhor porque eu amo esse judeu, mas não é, Johnson acertou em cheio aqui.

A DÚVIDA É: É UM SONHO OU NÃO?

A: Cara, a DORIS DAY fez um cover dessa música. Acho que dá pra afirmar que ela ultrapassa barreiras.

M: Pois é. Mama Cass também (e linda).

A: Reparando bem, esse é um disco bem “contracultural” mesmo. Essa faixa romântica é uma realidade à parte entre nostalgia, imaginação e expectativas reais, o que é bem lisérgico.

O final dela é um soco no estômago.

FALA QUE É REALIDADE BRUÇÃO, UM SONHO SÓ É SACANAGEM.

Esse “I’m coming back” me lembra de uma… BETH I HEAR YOU CALLING

A: Pode ser, só que essa aí é fruto de uma mente pouco talentosa, digamos. Eu acho a ponte de “Disney Girls” sensacional também.

M: É uma música sensacional de um membro subestimado de um álbum subestimado de uma fase subestimada de uma banda subestimada.

A: Brução não é subestimado. Ele só tinha que ser mantido no lugar dele na banda, saindo do banco de reservas para jogar 5 minutos em cada álbum. Mais do que isso, sentia dor no joelhinho e se jogava no chão dando migué.

M: Mas quem conhece Bruce Johnston? E olha a pérola que ele entrega. E ainda mandou “Deirdre” que ouvi em loop nesta manhã porque o refrão é destrutivo.

A: Sim, sim. Mais um álbum jogado às moscas. Impressionante eles ensanduicharem essa música com dois pedaços de merda. A seguinte (“Student Demonstration Time”), para mim, consegue ser a pior do disco: é uma versão de “Riot in Cell Block #9” com uma letra “politizada” (leia-se “vamos conquistar os bolsos dos radicais chics com nossas músicas”) estúpida.

M: Sim, além da letra, tem o fator “Beach Boys fazendo rockões” que é o pior Beach Boys que existe. O Mike Love não acertou nada nesta fase da banda que falamos. Era o vocalista mais dispensável da história do rock.

A: Um homem de 30 anos cumprindo a cota do disco dedicada a lembrar que essa é uma banda de branquelos formada nos anos 50 é triste. Se fosse hoje, seria tipo um cara “revisitar a Tropicália” e lançar uma música pedindo “todo poder aos estudantes” contra o Alckmin.

M: Sim. Mas como toda merda pode ter um milho inteiro, duas coisas legais: o efeito de megafone na voz, como se fosse uma revolta, é interessante. E o coro puxado no fim pelo Carl é legal.

MAS VAMOS LOGO PARA UMA DAS MINHAS FAVORITAS DO ÁLBUM.

“Feel Flows”

M: Amo o Mellotron, amo a voz do Carl, amo o efeito na voz dele, amo o solo de guitarra ou seja lá que porra for. Enfim, sensacional. É do Carl e do Jack Rieley e a letra é uma rebuscação da porra, nível “Surf’s Up”.

A: Nossa… É daquelas que você termina e não faz ideia do que fala. Tem um solo de flauta, com guitarra e com um sax brotando do meio sem ser uma salada completa. A levadinha do piano é simples e gostosa. Muito boa. Os caras sabiam ser criativos mesmo com pressões comerciais da época: dava pra esperar eles tentando imitar o Led Zeppelin ou um AOR bem pau mole, mas olha isso.

M: E sem o Brian…

“Lookin’ At Tomorrow (A Welfare Song)”

M: E “Looking At Tomorrow”? Música mais 50/50 da História. Adoro que seja do Al e ele canta bem demais. Aí, depois começa um PAPAPAPAPAP PIPIPIPI PIUUUUUUUUUUU inacreditável.

A: É a parte mais legal dessa música! Gosto bastante dela e deixá-la curtinha com esse scat foi uma boa escolha.

M: Eu gosto do órgão no fim. O foda dos Beach Boys é imaginar o processo criativo. AH, AGORA FALTA UM ÓRGÃO LOUCO de 5 segundos, COLOCA AÍ.

A: Provavelmente o som tava “vazio” e acharam que caberia. Benditos produtores dos anos 70.

“A Day in the Life of a Tree”

M: Nossa, agora é a porra da viagem completa do Brian. Olha a voz dele de baleia encalhada na banheira já. [P.S.: Erro nosso, a voz é de Jack Rieley]

A: Cara, o Brian Wilson é a árvore mais triste que eu conheço. Ele só aparece nesse disco pedindo socorro através das músicas dele.

M: Ele quase deixa um telefone de resgate no fim. Mas essa música é linda. Eu imagino ele chegando com essa música para o Mike Love. “Então, pensa que eu sou uma árvore, e meus galhos estão sofrendo…”

A: Hahaha… Pior que eu consigo imaginar até ele dançando bem devagar, imitando a situação. Sempre pulo essa faixa porque ela tem esse órgão arrastado, mas é uma bela música mesmo.

“’Till I Die”

M: Acho as harmonias vocais dela linda. “Eu sou uma rolha no oceano” depois de uma árvore com os galhos machucados. E a parte “Until I DIEEEEE” com a combinação de cada um numa parte. Linda.

A: Essa é um absurdo curdo. Esse é o primeiro e último fim de álbum espetacular da banda. O cara tava CONFINADO NA CAMA e escreve essas peças melancólicas maravilhosas, como é possível?! Olha essa letra:

Desolação completa.

M: Sim, sensacional.

“Surf’s Up”

M: Acho que é a melhor performance vocal do Carl. Maravilhosa. O Brian sabia quem tinha a voz na banda e não ficava putinho com isso, diferentemente do Paul Simon.

A: HAHAHAHA. Nunca confie em músicos dos anos 70 que escolhem escrever trilha sonora pra Disney. Isso diz muito sobre o ego de alguém.

M: A letra é outra porra de viagem.

Through its stream of consciousness lyric, the song details a man who experiences a spiritual awakening, resigns himself to God and the joy of enlightenment, and prophesies an optimistic hope for those who can capture the innocence of youth.

A: “Surf’s Up” ou “’Til I Die”? “’Til I Die” parece exatamente o oposto disso pra mim: alguém que se nota como uma titica no mundo, absolutamente perdida e com esperança, mas sem perspectiva, de alterar esse estado.

M: É bizarro, o Van Dyke é um porra louca. O Mike tava certo nessa. Xará de vez em quando acerta.

A: As músicas dele são umas charadas muito bem feitas. Muitas imagens bem construídas. Eu gosto disso. Me dá curiosidade de ouvir e tentar entender a história que ele conta. Mas geralmente isso é bem difícil sem ajuda. É desesperador acompanhar a letra e chegar no verso que ele fala: “Are you sleeping, Brother John?”

M: Tem vários versos que são quebras e isso que odeio.

A: A música toda é fraturada… Porque é sobra do Smile. Isso é meio chato mesmo. Mas essa é uma obra-prima.
Esse agudo monstruoso no final da primeira estrofe é do Brian?? Digno de Detonator.

M: Verdade.

A: Saca:

Carruagem pela névoa e uma lamparina acesa no celeiro lembram uma paisagem rural num tempo razoavelmente distante. Procurei o que é esse Auld Lang Syne: “old long times”, “aos velhos tempos”. Pode ser um poema de escritor romântico Robert Burns ou uma canção tradicional escocesa, uma espécie de canto para a passagem de ano.

M: Você viu a explicação do Brian?

It’s a man at a concert. All around him there’s the audience, playing their roles, dressed up in fancy clothes, looking through opera glasses, but so far away from the drama, from life. Back through the opera glass you see the pit and the pendulum drawn The music begins to take over. Columnated ruins domino. Empires, ideas, lives, institutions; everything has to fall, tumbling like dominoes. He begins to awaken to the music; sees the pretentiousness of everything. The music hall a costly bow. Then even the music is gone, turned into a trumpeter swan, into what the music really is. Canvas the town and brush the backdrop. He’s off in his vision, on a trip. Reality is gone; he’s creating it like a dream.

Dove-nested towers. Europe, a long time ago. The laughs come hard in Auld Lang Syne. The poor people in the cellar taverns, trying to make themselves happy by singing. Then there’s the parties, the drinking, trying to forget the wars, the battles at sea. While at port a do or die. Ships in the harbor, battling it out. A kind of Roman empire thing. A choke of grief. At his own sorrow and the emptiness of his life. because he can’t even cry for the suffering in the world, for his own suffering. And then, hope. Surf’s up! … Come about hard and join the once and often spring you gave. Go back to the kids, to the beach, to childhood. I heard the word of God; Wonderful thing; the joy of enlightenment, of seeing God. And what is it? A children’s song!

And then there’s the song itself; the song of children; the song of the universe rising and falling in wave after wave, the song of God, hiding the love from us, but always letting us find it again, like a mother singing to her children. … Of course that’s a very intellectual explanation. But maybe sometimes you have to do an intellectual thing. If they don’t get the words, they’ll get the music, because that’s where it’s really at, in the music.

A: Puta merda, que sensacional. Esse é um dos raros momentos em que o rock periga entrar pro alto escalão da Arte. Isso tudo em 4 minutos e pouco numa música linda. E o Brian compôs isso com o Van Dyke Parks na caixa de areia dele em cerca de UMA HORA.

Clássicos: “Surf’s Up”

Favoritas: “Surf’s Up”, “Feel Flows”, “Disney Girls (1957)” (consenso)

Nota: 9

Carl & The Passions

Brother Records/Capitol, 1972

Nós adoramos música negra

"You Need a Mess of Help to Stand Alone"

M: Você já viu o vídeo deles tocando isso em um estúdio da BBC? Playback maldito, só Carl cantando, mas é legal mesmo assim. Dennis no orgão, Blondie no baixo, Ricky Fataar na bateria e Mike Love bizarro. E engraçado que os comentários de fãs de Beach Boys são tão iguais que vendo o vídeo eu pensei o mesmo. Fiquei procurando o Dennis e fiquei feliz quando ele apareceu.

A: Tem aquele “Captain”, não? No piano.

M: Sim! No piano. Ele ficou nessa época e até numas músicas do Holland ele participa também.

A: Pode crer. Legal é aquele “hit” dele que você mostrou outro dia… Aqui nessa fase a banda já tinha se assumido como uma banda de “rock californiano” mais do que como "Os Beach Boys", né? Desde o Sunflower, aliás.

M: Sim, acho essa música muito boa. Influência de funk e soul, até pelos dois sulafricanos que estreiam.

"Here She Comes", então, fica mais claro isso.

A: Parece uma versão mais funkeada e legal dos Doobie Brothers.

M: Verdade. Adoro os Doobie Brothers. Esses Beach Boys do vídeo e do álbum eram os Beach Boys modernos, algo bastante intencional, até por isso veio o (Blondie) Chaplin e (Ricky) Fataar. Não dava mais para fazer o que faziam em 64. Por mais que o Mike Love quisesse.

Nota: no começo dos anos 70, com Dennis Wilson de cama por uma queda de moto e a ausência de Brian Wilson e depois Bruce Johnston, a banda contratou dois músicos sul-africanos, o guitarrista/vocalista e algumas vezes baixista Blondie Chaplin e o baterista Ricky Fataar.

A: Sim. Mas o pentelho teria seu momento de “glória” em questão de poucos anos…Você por acaso já ouviu essa banda Flames, que o Chaplin integrava? Parece que chamaram a atenção do Carlão aí.

M: É, então... Mais uma banda que recebeu o rótulo "seminal", que na verdade quer dizer "fedidos que ninguém gostava, mas o sindicato dos jornalistas culturais pentelhos resolveu abraçar por algum motivo".

Sim, não estou tão motivado a ouvir. Mas o trabalho deles nos Beach Boys é sensacional. Imaginativo. E tiveram espaço para criar, cedido pelo Carl, o que deixa tudo mais legal.

A: A Brother Records chegou a produzir disco deles, não sabia. Nem que o Ricky Fataar também era dos Flames. Nem que o Bruce Johnston tinha picado mula da banda (!) nesse disco.

M: Sim, “Disney Girls” subiu à cabeça.

"He Come Down"

M: É o disco dos Beach Boys homenagem à música negra. "He Come Down" parece gravada em uma igreja do Alabama. Ajuda o fato que agora com o Blondie eles tinham mais uma voz sensacional para brincar. Óbvio que o Mike Love ia meter sua meditação e o guru na letra, mas tudo bem: a música ainda é sensacional.

A: É o gospel do Maharishi… Como o Mike Love dorme tranquilo à noite depois de um negócio desses?

M: Hahahaha. Desconsidera um pouco isso. Ela é um pouco ecumênica. Cita Jesus Cristo também. E o final é de chorar.

A: Totalmente!

"Marcella"

A: Esse disco tem mais vocalizações legais do que o Sunflower! Acho até que mais que o Surf’s Up, tirando o material da fase do Smile.

M: Essa é a típica música vagabunda com nome de mulher para emplacar na rádio. Mas funciona ao vivo.

A: Poderiam rebatizá-la de “Do It Again… Again”. Mas é mais legal que “Do It Again” no instrumental: esse solinho de guitarra duplicado é mais inovador.

M: Sim, verdade. É uma visão mais moderna, fora da caixa.

A: Valeu pelo esclarecimento, Steve Jobs.

M: HAHAHAHA.

A: E mais um final interessante, com o crescimento das vozes, o piano e a combinação vocal de todos no fim. Adoro quando eles fazem uma parede que cada um canta uma parte, como em "California Girls", e dá um jeito de combinar.

"Hold On, Dear Brother"

M: Chaplin tem uma voz do cacete mesmo. Linda música.

A: Gosto muito dessas steel guitars de música country à Gram Parsons. Entraram com os dois pés nos anos 70.

M: Isso que ia falar. Os Eagles só tinham um ano, mas também fizeram algo semelhante. Ou seja, ninguém copiou ninguém, era o “espírito da época” mesmo.

A: Ah, os Byrds e os Flying Burrito Brothers foram precursores nessa onda em alguns anos, não? A essa altura, já tava se popularizando bem no rock.

M: Sim! O que estou dizendo é que várias bandas beberam dessa fonte, inclusive os Eagles e agora os Beach Boys.

A: Entendi.

"Make It Good"

A: Ooooooooh…. O Dennão voltooooooou….

M: É bizarro que ele era um pegador bêbado que fazia músicas hipermelosas (e boas). "Make It Good" não é a melhor dele, nem desse álbum. Mas é sempre algo digno de ouvir.

A: Sim. Uma música orquestrada é uma barra de gelo nas costas no meio desse disco. Embora o arranjo seja bonito e dê emoção à letra — que é estupidamente simples.

M: É só um esquenta para a pedrada do fim do álbum.

"All This Is That"

A: Se algum dia alguém te perguntar o que é AOR, você pode mostrar essa música ou “Aja”, do Steely Dan, pra essa pessoa.

M: HAHAHAHA, total. Ia falar que essa música podia estar no álbum de 2014 do Brian Wilson. Ou ser uma composição do Graham Nash.

A: Tem razão. As duas opções indicam que é uma das faixas menos inspiradas do disco. Mas os vocais são bonitos.

M: Não tem como não amar a combinação vocal, mais uma de 500 mil. Eles tinham uma química sensacional, não era só sobrepor cinco vozes masculinas e esperar que desse liga. E o Carl tem uma voz angelical, puta merda. Esse cara vendendo pamonha conseguiria um milhão por dia.

A: Hahahahaha…… Pra variar, o Mike Love faz uma alusão indiana na música. Dessa vez, ao tal de Jai Gurudev (ele fica repetindo o nome no tag final), um líder religioso que seria preso 3 anos depois.

M: Imagina o tanto de picareta indiano que se deu bem em Los Angeles nessa época…

"Cuddle Up"

M: A voz (de Dennis Wilson) já estava começando a cambalear (só comparar com “Forever” do Sunflower). Mas essa música, se não é a mais bela dele, é uma das mais. Sensacional. Também com o Darryl Dragon, do futuro Captain and Tennille.

A: Sensacional. A orquestra na medida, depois o piano calmo e um cello discreto. Violinos crescendo…

M: Pois é. Ele foi o que mais puxou o Brian mesmo, que nessa época estava atolado na banheira de casa.

A: Saldo final do disco: metade das faixas é inspirada e as outras enchem linguiça com um diferencial sonoro muito rico em relação à parcela de papagaiadas que vinham rolando nos álbuns anteriores. Achei um pouco disperso a partir de “Make It Good”, mas os novos músicos injetaram ânimo sensível.

M: Acho que o corte de bobagens se deve ao fato que são apenas oito músicas e agora tinha dois caras novos para contribuir. E não tinha o Brian chapado jogando suas composições e voltando para a cama. Não que as composições tenham sido todas ruins (longe disso), mas elas eram o lado “que porra aconteceu agora?” nos últimos álbuns, como Surf’s Up.

Clássicos: Nenhum

Favoritas:

A: "Here She Comes", "Hold On, Dear Brother"

M: "He Come Down", "Cuddle Up"

Nota: 8

Holland

Brother Records/Capitol, 1973

"Empinando pipa" e pendurando as chuteiras na Holanda

A: Antes de começar com a apreciação, você tem um bom contexto do álbum pra dar? Você levou no Perdidos no Ar aquela vez e eu não tenho familiaridade com o disco até hoje.

M: Então, é engraçado. Eu gostava de Beach Boys mas não conhecia nada, só o Pet Sounds. Não sei se é porque morava em Holambra e gostei da história deles irem pra Holanda gravarem. Mas peguei esse álbum quando tinha 15, 16 anos e achei espetacular. Tem umas verdadeiras pedradas como “Sail On Sailor”, “Trader”, “Only With You” e “Leaving this Town” e ainda uns tons progressivos de vez em quando, algo fora completamente do Beach Boys que é mais conhecido. Se não é meu favorito da banda, ainda pega Top 3 com certeza.

A: E por que cacete eles gravaram na Holanda? Não é só o título do disco, era algo como um novo projeto pra banda até onde sei… Ou não?

M: Sim, isso mesmo. Acho que eles queriam um novo cenário. Vamos lembrar que nos Estados Unidos eles estavam mais em baixa que racistas depois de Martin Luther King.

A: Campeão. Bom, SOLTA O PLAY, MAESTRO BILLY.

"Sail On, Sailor"

M: O mais impressionante dessa música é que ela era uma sobraça do na época naufragado Brian Wilson. Ele mandou pra galera, Blondie cantou e virou o single do álbum. Na cabeça do monstro (Brian), era uma música para o Ray Charles cantar.

A: … Algo que eu nunca imaginaria se você não comentasse. Pessoalmente, tenho um pouco de bode dessa faixa porque é quase o hino da rádio Antena 1. Mas é bem cativante e inovadora para a banda na época, com uns sintetizadores de fundo, guitarrinhas discretas e tal.

M: Hahaha. O Ray Charles até canta em um show com eles essa música, na década de 80. Eu amo o refrão, especialmente quando repetido no fim. E, pela quadragésima vez na carreira da banda, a sobreposição de vozes sensacional.

"Steamboat"

M: Essa música é basicamente um sonho, com um cara barbudo entrando nos 30 anos e com 100 kg cantando. Não é um sonho comum.

A: Um mostruário do “potencial” de Amsterdã que a banda deve ter aproveitado nos coffee shops ou no distrito da luz vermelha. Mas a música é bem delicada.

M: Hahahahaha. Curiosamente — e é algo que não sabia — , é do Dennis a composição junto com o empresário da banda. Ou seja, "steam" [vapor] deve ser disso mesmo. E olhe esse solo floydiano. PQP, amo esse álbum.

A: Pode crer! Podia estar em “Fat Old Sun” ou sei lá. É uma das coisas mais diferentes dos Beach Boys, mas ainda mantém a identidade da banda.

M: Sem dúvidas.

A: Agora, aquela pedrada longa e dolorosa.

"California Saga: Big Sur"

M: Começa a putaria do Mike Love e do Al Jardine. Porra, os caras estavam em Amsterdã por algumas semanas e com saudades da merda da Califórnia. CACETE, APROVEITA A CARALHA DA HOLANDA.

A: Essa deve ser a melhor coisa que o Mike Love fez. Valsinha maneira, gaita, guitarra com slide…

M: Mas não é ruim mesmo, com essa sendo a melhor das três. E eu adoro a virada no fim do piano e guitarra, do tipo “o sonho acabou, ainda estou com meus primos aqui no estúdio”

A: Olha, verdade. Mau presságio…

"California Saga: The Beaks Of Eagles"

A: Hahahahaha… Virou radionovela. Big Sur é um deserto nos Estados Unidos, né?

M: Não, é uma região costeira no norte da Califórnia. No centro na verdade

A: Ah, faz sentido, “Ventana Creek”. Muito dramática essa parte da saga. Mike Love é o surfista-filósofo, o garoto-Índia, o Surfista Prateado pentelho da banda.

M: KKKKKKKKKKKKKKKKK, não culpe Mike Amor. Mais amor, por favor. É do Jardine essa merda, que começava a procurar sua identidade além de pequeno anão guitarrista oculto da banda. Virou ecochato. POBRE ALÃO.

A: Quem é Robinson Jeffers? Aqui consta o nome dele na coautoria dessa joça.

M: Segundo a grande Wikipédia, um poeta americano que trata sobre a Califórnia e suas paisagens. Faz sentido.

"California Saga: California"

A: Essa faixa é Al Jardine puro: banjinho, aquele pé na “terrinha” e as harmonias vocais. Além do contato com esse meninão azul chamado Terra. Na letra ele segue a trilha do John Steinbeck (?!) e continua com a fixação com a água de “Don’t Go Near the Water”…

M: Essa musica é um nojo. Tentativa de musica folclórica regional sem ser em uma festa de bairro sempre fede.

"The Trader"

A: Podemos fechar o consenso de que esse é o auge do disco?

M: Carlão, né, cara. Acho que é o auge sim. Lado A e lado B, ambos bons. Letra sensacional, provavelmente inspirada na convivência com Blondie e Ricky.

A: O que é exatamente o tema? Comércio e colonialismo?

M: Então, como eu vejo: Lado A, visão do colonizador, conquistando e passando por cima dos nativos. Lado B, visão de vida do local. Obviamente tem toda a romantização, mas a ideia de abordar a visão de ambos, combinando letra e melodia, é uma coisa sensacional. Isso sem contar a sua voz espetacular.

A: Sim. Além de a letra e a ideia serem interessante, acho massa o fato de não ter um refrão. São realmente duas partes diferentes que formam uma música. Quanto à voz, Carlão aí já era o rei (momo) da banda.

M: Hahahahaha. A ideia é parecida com "Heroes and Villains", aliás, do irmão que só vestia robe nessa época. E sinceramente, prefiro essa 15 vezes à música do Smile.

"Leaving This Town"

M: Segunda das quatro pedradas seguidas. Piano e Blondiezão é receita para gostar. Mas é uma musica bem bonita mesmo.

A: É engraçado que ela cheira a Dennisão, mas ele é o único da banda ausente na autoria. E o Capitão.

M: Seria interessante ele cantando essa música mesmo. Pede quando você morrer, ele deve estar no bar do céu.

A: Hahahaha… Vou num “barco a vapor”, aposto que será convincente.

M: Hahahahahaha. Ainda mais em Amsterdã. A caldeira deve ser movida a maconha. Aí tem um sintetizador louco no meio da música

A: Que solo, amigo... Emerson, Lake and Palmer lançam no mesmo ano o último disco que eu considero bem legal deles (Brain Salad Surgery, do selo Manticore/Reprise), e o som dele é o termômetro para as tendências tecnológicas da época.

M: Sim, é totalmente in esse Holland mesmo. Não à toa fez um sucessinho. Elvis Costella Krall tem esse disco como um de seus favoritos na vida.

A: Fonte: Wikipedia.org

M: Hahahahaha

A: Esse som é uma espécie de balada soul de homem branco, com um órgão de igreja no meio junto… Bom trabalho, Beachões.

"Only With You"

M: A pedrada romântica de Dennis, que acontece nos últimos álbuns. Sensacional. Engraçado ele dar para o irmão Carl cantar, assim como Brian deu "God Only Knows". A versão solo do Dennis anos depois é muito mais “suja”, sensacional de ouvir também.

A: Pode ser. Mas, pra mim, essa é a que menos empolga no disco junto com a parte 3 da Saga no disco… ATÉ AGORA.

M: Sério? Nem esse piano no fim te empolga. Acho lindoooo.

A: Mela-cueca demais até pros padrões do Dennis. Ele já fez mais em outros discos, acho.

"Funky Pretty"

A: Em compensação, essa é sensacional.

M: Também acho. A "California Girls" funky. Carlão mandando demais. Todos cantando. QUE ALEGRIA.

A: É bom ver a família unida. Aposto que foram no Outback da Holanda depois da gravação no dia, para um jantar em família com refil de chá.

M: Hahahahahaha. E no fim, o Dennis casou com a mãe do Mike Love só para irritar ele.

A: É de um tato ímpar… Em compensação, acho a letra uma BOSTA. O título já sintetiza como é datada: “Gatinha chuchu beleza”.

M: Cara, pensando bem, o Dennis é o Paulo Maluf dos Beach Boys. Todo mundo sabia que ele não prestava, mas mesmo assim não tinha como não amar ele e querer que ele abrisse a boca e falasse.

Clássicos: “Sail On Sailor”

Favoritas:

A: “The Trader”, “Funky Pretty”

M: “Sail on Sailor”, “Leaving This Town“, ”Only With You”

Nota: 8,5

André Silva

Written by

jornalista & criador

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