Sábado de Blues: Blues Brothers — Muito Mais que um Filme


Uma coisa que eu sempre tentei fazer nessa coluna foi produzir textos que façam o leitor se sentir como se estivesse conversando comigo sobre blues. Eu poderia produzir longos textos com “cara de jornalismo” aqui, mas acho que textos assim sobre blues você encontra em qualquer lugar. Por isso a ideia sempre foi tornar tudo muito pessoal, não apenas na linguagem, mas no que eu falo.

Porém, desde que comecei a escrever a coluna, eu sabia que alguns textos seriam muito mais pessoais que os outros. Esse de hoje é um deles. Afinal, vou falar justamente da banda que me fez descobrir o blues, num tempo em que eu ainda nem sabia direito o que era blues, apenas um gênero de música diferente do rock e normalmente tocado por negros.

Foi nos anos 80. Como quem estava vivo na época lembra, foi a década que as locadoras explodiram no Brasil. E, um dia, visitando uma locadora — como eu sempre fui apaixonado por cinema, especialmente cinema clássico, eu era sócio de todas as locadoras do meu bairro — alugamos uma comédia chamada Os Irmãos Cara-de-Pau. Lembro que eu conhecia mais os atores que a história do filme… Mas lembro que eu e meu irmão, cinco anos mais velho que eu, ficamos maravilhados com aquilo. Não apenas com o filme, mas com as músicas.

Poucos anos depois, compramos a trilha do filme em vinil. Era uma época que meus pais viajavam sempre aos finais de semana para uma casa que tínhamos no interior, e bastava eu e meu irmão ficarmos sozinhos em casa para aquele disco — ou outra trilha sonora de um filme da mesma época, A Pequena Loja dos Horrores — começar a tocar no máximo. Meu irmão fazendo o almoço, eu arrumando a mesa e nós dois dançando pela casa, cada um ao seu modo.

Não foram nesses sábados que eu aprendi o que era blues. Mas foi dançando com meu irmão em casa que eu entendi que música boa é aquela que você faz se esquecer — e, mais importante, deixar de se importar — com tudo o que está ao seu redor. Você dança no meio da sala porque, naquele momento, existe apenas você e a canção. E não qualquer música que faz isso. Essa música, nessa versão, sempre fez isso comigo:

Somente muitos anos depois, quando comecei a ouvir blues de verdade, que eu aprendi que aquela banda, que se chamava Blues Brothers (o nome original do filme) não existia apenas no filme ou havia sido criada para lá. Algumas bandas nasceram em filmes: os irlandeses do Commitments e os malucos do Spinal Tap fizeram shows e lançaram discos depois de serem criados no cinema. Mas os Blues Brothers já existiam e o filme foi apenas um pedaço de sua história. Eu não fazia ideia disso, e acho que até hoje muita gente nem desconfia disso.

Na verdade, o embrião da banda surgiu quatro anos antes do filme, durante o programa Saturday Night Live, em 1976. E, para isso, precisamos falar um pouco dos seus líderes, os comediantes Dan Aykroyd e John Belushi. Como boa parte dos integrantes das primeiras gerações do SNL, eram amigos e passavam boa parte do tempo juntos.

“Jake Blues”, Muddy Waters, Johnny Winter e “Elwood Blues”

Um dia, conversando sobre música, Belushi contou que estava desencantado com o rock, que era seu gênero preferido, mas não o despertava mais emoção alguma, e todas as músicas pareciam ser cópias do sucesso anterior. Foi nesse momento que Aykroyd começou a apresentar a música negra, sua grande paixão, ao amigo. Belushi enlouqueceu com aquilo e começou a ouvir blues e soul o dia inteiro, quase como um adolescente que descobre o rock. Não demorou muito até descobrirem que Belushi não apenas sabia cantar como tinha uma voz que parecia feita para esse tipo de música. E demorou menos ainda para que a ideia de fazer algum quadro voltado a esse assunto começasse a nascer.

E foi assim que os Blues Brothers fizeram sua estreia no Saturday Night Live… Ou, ao menos, algo que ainda se tornaria os Blues Brothers. Com o nome de Howard Shore and His All-Bee Band” (Howard Shore, que anos depois faria trilhas como O Senhor dos Anéis, foi o primeiro diretor musical do programa). A banda interpretou um clássico do blues, I’m a King Bee, de Slim Harpo… Com todos vestidos como abelhas, para fazer graça com o nome da música.

Já é possível ver muitas coisas que seriam incorporadas à banda, como Belushi e Aykroyd à frente do palco praticamente uniformizados — Aykroyd já até mesmo usava o chapéu por baixo das antenas — e o carisma de Belushi em cima do palco, que chama a atenção quando ele começa a se atirar de costas no chão diversas vezes até voltar para o microfone e cantar como se nada tivesse acontecido.

E, apesar de ser apenas um sketch, isso acendeu uma fagulha na dupla, que passou a se reunir no Holland Tunnel Blues Bar, bar que Aykroyd havia alugado, e começaram a ensaiar. Como diversos músicos de blues apareciam no bar, não foi difícil recrutar grandes talentos para formar uma banda.

Se pensarmos apenas em alguns dos músicos que integram a banda no filme de 1980, já se tem uma ideia disso. Matt “Guitar” Murphy chegou a ser guitarrista na banda de Howlin Wolf. Steve “Colonel” Crooper e Donald “Duck” Dunn, respectivamente guitarrista e baixista, eram companheiros na Booker T & The M. G.’s. O baterista Willie “To Big” Hall era da banda de Isaac Hayes.

Ou seja, a ideia passou longe de ser uma “aventura”. Além de músicos experientes, o próprio Aykroyd já tinha um pouco de experiência no assunto, por tocar diversas vezes com a Downchild Blues Band, uma das primeiras bandas de blues do seu país de origem, o Canadá. Logo, a banda estava afiada o suficiente para começar suas primeiras apresentações. E não havia lugar melhor para sua estreia oficial, já como The Blues Brothers Band, que o SNL. E foi o que aconteceu em 22 de abril de 1978, quando eles foram os convidados musicais do programa.

A qualidade do vídeo não é boa, mas ele é histórico por mostra a primeira vez que a banda apareceu com o visual que a tornaria famosa. A partir daí, os irmãos Blues sempre usariam esse visual, que os torna quase desenhos animados. O interessante é que Aykroyd nunca escondeu as influências do visual: o fato da banda ser liderada por duas pessoas é inspirado nas duplas de soul music (que, assim como eles, cantavam e dançavam) como Sam & Dave. Os ternos vieram dos músicos de jazz dos anos 40, que usavam essa roupa para apresentarem um tom respeitável. E os chapéus… Isso eles pegaram de John Lee Hooker.

A banda voltaria a aparecer em novembro do mesmo ano no Saturday Night Live, sempre interpretando grandes sucessos de blues, soul music e rhythm and blues. Em sua terceira e última participação no programa, eles apresentaram uma música que se tornaria quase um cartão de visitas da banda, junto com Everybody Needs Somebody: Soul Man.

O primeiro disco da banda.

A história poderia ter acabado por aí, já que eles nunca mais participaram do SNL. Mas, a esta altura, a banda já tinha vida própria. Já haviam lançado seu primeiro disco, Briefcase Full of Blues e se apresentam regularmente, em shows “normais”. Claro que o SNL ajudou, mas a qualidade musical da banda, mais o carisma da dupla central — o que inclui suas dancinhas estranhas — fez com que os Blues Brothers ganhassem fãs a cada dia.

Além disso, o talento dos dois para a comédia fazia o show crescer ainda mais. Nesse ponto, um dos grandes momentos do show era Rubber Biscuit, uma das poucas músicas que Elwood assumia o vocal principal.

Mas o grande astro era mesmo John Belushi. A cada show, ficava claro que ele parecia ter nascido para fazer aquilo. Comandava a plateia com a experiência de um veterano, e, junto com sua voz e seu carisma, levava o público ao delírio. E, mais importante: sem jamais fazer graça com as músicas. Para mim, essa sempre foi a grande qualidade dos Blues Brothers: o humor estava no visual, no modo de dançar e se comportar no palco.

Mas, a hora que a música começava, a atitude era de respeito total — quase uma reverência, na verdade — ao blues e ao soul. Afinal, a banda era formada por músicos profissionais e experientes, e liderada não por dois comediantes, mas por dois fãs apaixonados por esse tipo de música que, coincidentemente, faziam comédia. Claro que a comédia os ajudava no palco, mas ela era apenas uma ferramenta. Os Blues Brothers nunca foram uma banda de comédia, eles foram uma banda de verdade. Essa interpretação de I Don’t Know, ainda em 1979, deixa isso claro. É de arrepiar.

Aliás, o cuidado de Belushi e Aykroyd para deixar claro que os Blues Brothers não eram “Belushi e Aykroyd”, e sim Jake e Elwood foi tanto que eles até mesmo criaram a história da banda, que apareceu no encarte do seu primeiro disco. Eles teriam crescido juntos em um orfanato em Illinois e se apaixonaram pelo blues graças a um faxineiro do local. Assim, fizeram um pacto de sangue, cortando o dedo com uma corda que diziam ter vindo de uma guitarra de Elmore James.

Ou seja, também era o começo da história que levaria a banda para o cinema em 1980. Os Irmãos Cara-De-Pau (o título nacional é completamente equivocado mas fez muito sucesso) foi um projeto extremamente ambicioso. Assim como seus companheiros do SNL, Aykroyd e Belushi faziam cada vez mais sucesso na TV e isso se repetia nos cinemas. Para quem não sabe, 99% dos astros da comédia americana do cinema dos anos 80 vieram do SNL. Ambos já haviam estrelado filmes com relativo sucesso e decidiram que a melhor maneira de promover a banda — e sua paixão, a música negra — era levar os Blues Brothers para o cinema.

E o filme já mostra o prestígio que a dupla havia conquistado no meio musical, com participações que deixam o espectador de queixo caído. Como o texto é sobre a banda Blues Brothers e não sobre o filme (ou artistas convidados), deixarei os links aqui, sem interromper o texto, para quem quiser conhecer (ou matar a saudade): Ray Charles canta Shake Your Tail Feather, Aretha Franklin canta Think, James Brown aparece como um reverendo cantando The Old Landmark e Cab Calloway solta a voz em Minnie the Moocher.

Isso, claro, sem falar na cena que mostra uma banda de rua tocando Boom Boom, que é algo que qualquer fã de blues assistiria de joelhos: John Lee Hooker, acompanhado do lendário pianista Pinetop Perkins, do gaitista Big Walter e de músicos que formaram a banda de Muddy Waters. É uma aula de blues numa cena que infelizmente aparece inteira somente na edição especial do filme.

O filme foi um sucesso estrondoso, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. E não somente por causa da banda e das músicas, mas pela sua história, que coloca os músicos tentando salvar o orfanato em que cresceram e, no meio do caminho, arrumando problemas com tudo o que você possa imaginar: cantores country, neonazistas, polícia… E sempre com um humor deliciosamente anárquico, às vezes quase surreal — e que conta com uma das perseguições de carro mais ambiciosas de todos os tempos. Abaixo, o trailer original:

Para mim, ele tem uma importância enorme: afinal, foi a primeira vez que ouvi uma música chamada Sweet Home Chicago, quando eu ainda nem sabia que existiria um sujeito chamado Robert Johnson que se tornaria um dos artistas mais importantes na minha vida. Foi assim que ela entrou na minha vida. Talvez tenha sido assim que conheci o blues do delta, algo que eu também não sabia que existia.

Agora, a banda tinha tudo para estourar definitivamente, desta vez como um sucesso mundial. Afinal, ambos tinham planos para a carreira e para a banda.

Made in America: o segundo e último disco.

O primeiro disco havia chegado ao topo das paradas nos Estados Unidos em 1981, Made in America não repetiu o desempenho, mas foi bem também. Porém, o sucesso do filme fez os Blues Brothers se tornarem astros internacionais.

Mas em 1982 veio a tragédia. John Belushi foi encontrado morto em seu apartamento. Viciado em drogas, o comediante teve uma overdose por causa de uma injeção de speedball — que combinava cocaína e heroína. O caso foi parar nas delegacias quando Cathy Smith, que, entre outras coisas, era groupie de bandas de rock e traficante, assumiu ter ministrado a dose letal no comediante, o que lhe rendeu uma temporada na cadeia.

Mas o estrago já estava feito. Os Blues Brothers acabaram e a banda se tornou muito mais cult que bem sucedida. E o filme Os Irmãos Cara-De-Pau, que deveria ter sido apenas um pedaço de sua história, se tornou o ponto alto da trajetória de Jake e Elwood Blues.

Porém, o hiato durou apenas alguns anos, já que em 1988 a banda voltou… Não definitivamente, sempre com artistas convidados assumindo o vocal ao lado de Aykroyd. Um deles foi uma escolha extremamente “charmosa”: James Belushi, irmão de John, que assumiu em diversos shows a identidade de Zee Blues. E, em alguns dos shows, ele fazia mudanças na letra de Sweet Home Chicago, encaixando o verso “Eu vejo meu irmão Jake entrando por aquela porta dos fundos”, que se tornou quase uma marca registrada e fazia a plateia se emocionar (aos 1:10 do vídeo abaixo).

A banda prosseguiu durante todos os anos 90 fazendo shows especiais e pequenas turnês, até que Aykroyd resolveu levar o grupo de volta para os cinemas. Porém, James Belushi estava envolvido em outros trabalhos e não participou do projeto — em 2003, ele e Aykroyd gravariam o disco Have Love Will Travel, usando seus nomes verdadeiros.

Porém, Os Irmãos Cara-de-Pau 2000 trouxe outra novidade: “Might Mac” McTeer, outro “músico” que acompanhava a banda em algumas turnês, interpretado por ninguém menos que John Goodman.

O filme é muito inferior ao primeiro, mas os fãs não se importaram. Afinal, a esta altura a banda já era tão querida que os músicos participantes são um show à parte, indo de B. B. King a Eric Clapton, passando por Steve Winwood, Junior Wells, Bo Diddley, Isaac Hayes, Dr. John, Charlie Musselwhite, Koko Taylor, Wilson Pickett, Johnny Lang… É quase um quem é quem do blues e da soul music das últimas décadas. Clique no vídeo abaixo para assistir ao trailer.

Hoje os Blues Brothers continuam em atividade. Mas, mais importante que isso: a chama se mantem viva com diversas bandas que prestam tributo a Jake e Elwood Blues, em diversos países. Afinal, os Blues Brothers nunca foram um grupo de comédia ou uma banda inventada para um filme.

Eles são uma banda excelente de rhythm and blues… E todos os músicos de blues e soul entenderam isso desde o primeiro minuto. Afinal, como diz o trailer de Os Irmãos Cara-de-Pau 2000, não são os chapéus, nem os ternos, nem os óculos.

É a música.


Clique e Ouça — Músicas para Conhecer:

Desta vez, farei algo diferente. Ao invés de apresentar mais músicas dos Blues Brothers, vou pegar todas as canções que coloquei o vídeo ao longo do texto e, seguindo a mesma ordem, apresentar as versões originais, que merecem ser conhecidas.

Everybody Need Somebody to Love — Gravada em 1964 por Solomon Burke, considerado um dos maiores nomes da soul music de todos os tempos. Além dos Blues Brothers, Wilson Pickett e os Rolling Stones também regravaram a música — mas a versão mais famosa é mesmo a dos Blues Brothers, tanto que muita gente acha que a música foi composta por eles.

I’m a King Bee — A primeira apresentação dos Blues Brothers foi com um clássico do blues tradicional. Guitarrista e gaitista, Slim Harpo foi um dos grandes expoentes do gênero “swamp blues”, popular na Louisiana, onde ele nasceu, e se destacou por sua voz forte e anasalada.

Hey Bartender — Gravada em 1954 pelo pianista Floyd Dixon, ganhou uma versão ska por Laurel Aitken em 1961, que se tornou um enorme sucesso, antes de ser regravada pelos Blues Brothers em 1978.

Soul Man — Composta por Isaac Hayes e David Porter em 1967, Soul Man se tornou um dos maiores sucesso da dupla Sam & Dave, uma das maiores influências do Blues Brothers. A versão original chegou ao segundo lugar das paradas.

Rubber Biscuit — Foi gravada pelos The Chips, banda de doo-wop, em 1956. A versão dos Blues Brothers impressiona justamente porque Dan Aykroyd faz o vocal praticamente sozinho (na versão original, os integrantes da banda se alternavam para criar a melodia).

I Don’t Know — Nos anos 50, Willie Mabon se firmou como um dos nomes mais influentes do rhythm and blues ao gravar diversas canções que inspirariam diversos músicos dos anos seguintes. Uma dessas canções foi I Don’t Know, lançada em 1952 pela lendária Chess Records.

Sweet Home Chicago — Para saber mais sobre essa música e sua importância, sugiro que leia meu texto sobre Robert Johnson.

Bonus Track:
O filmes Os Irmãos Cara-de-Pau fez tanto sucesso que, anos depois, a publicidade brasileira se inspirou no filme (em especial no número musical de Cab Calloway, Minnie the Moocher, que linkei no texto), para criar uma campanha para a loja C&A, criando o personagem Sebastian que se tornaria extremamente famoso — e com direito a dois Blues Brothers tupiniquins. Assista aqui.


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