Buh D’Angelo: como uma mulher negra e periférica está revolucionando o mercado de TI no Brasil

Afroempreendedora existe e resiste com a intenção de driblar os preconceitos do mercado tecnológico e traz um olhar inclusivo para este universo

por Luciana Paulino

Toda ideia nasce com a intenção de solucionar um problema. Essa é basicamente a mecânica que atua sobre a ação de empreender. Em geral, a definição do empreendedorismo tradicional está ligada à capacidade de identificar oportunidades, solucionar problemas, agregar valores e contribuir de forma inovadora para a sociedade. O afroempreendedorismo vai além: também contém em sua essência uma ideologia e proposta de engajamento que alcança o público e transforma realidades. Além de, claro, gerar discussões urgentes sobre assuntos de extrema relevância como o racismo estrutural, empoderamento e emancipação financeira.

Nesse cenário de contradições e contestamento é que Buh D’Angelo dos Santos, empreendedora social de apenas 23 anos, desponta como uma das grandes potências do afroempreendedorismo brasileiro. Nascida na periferia de Guarulhos, município da região metropolitana de São Paulo, Buh é daqueles espíritos curiosos natos: “Eu desmonto aparelhos eletrônicos desde que me entendo por gente. O melhor de tudo isso é que meus pais adoravam esse meu comportamento e sempre me incentivaram”.

Durante a infância e adolescência, diz que não teve muitos amigos. Foi nos estudos que encontrou um refúgio para a solidão enfrentada na época. Formada em eletrônica, automação industrial e robótica, Buh, apesar da pouca idade para tantos feitos, possui uma trajetória profissional longa, atuando no mercado de tecnologia há mais de seis anos. “Ser mulher, negra e lésbica nunca foi um padrão da sociedade, imagina o que é a minha existência dentro do mercado de tecnologia?”, provoca.

Assim que concluiu os cursos técnicos na área de tecnologia, a empreendedora se candidatou a inúmeras vagas. O processo, no entanto, se mostrou um tanto quanto frustrante, já que não foi aceita em nenhuma das empresas na qual se inscreveu. Cansada da rejeição e em busca de um trabalho, em 2015 decidiu empreender e criou o que é, hoje, uma das iniciativas mais comentadas dos últimos tempos na área: a Infopreta — empresa de reparos e serviços de tecnologia que possui em seu quadro de funcionários exclusivamente mulheres negras, trans, homossexuais ou jovens em situação de vulnerabilidade.

Buh D’Angelo, em ilustração exclusiva de Priscila Barbosa para TEAR
“O empreendedorismo da pessoa negra sempre nasce da vivência dela. Eu senti na pele os preconceitos e a exclusão a que as mulheres lésbicas negras são submetidas, principalmente no ramo de Tecnologia da Informação.”

Um Raio-X da desigualdade na tecnologia

Segundo uma pesquisa da empresa de recrutamento global Harvey Nash divulgada recentemente, há apenas 8% de mulheres em cargos de gestão em TI no mundo. Com o levantamento, concluiu-se que menos de um terço dos funcionários de uma empresa na área de tecnologia são mulheres e que apenas 7% delas chegam a cargos de liderança. E a pergunta que fica é: desse percentual, quantas são mulheres negras? A pesquisa diz que menos de 1%.

E é exatamente nesse cenário hostil que a Buh D’Angelo surge como uma empreendedora de sucesso. E não é um empreendimento qualquer: a empresa criada por Buh é um exemplo genuíno de empreendimento social — ou seja, uma empresa que não visa apenas o lucro e sim a solução de problemas da sociedade, como a democratização do acesso à tecnologia a mulheres em situação de vulnerabilidade e o fomento de um mercado de tecnologia mais diverso. “Quando uma profissional chega para trabalhar na Infopreta, muitas vezes ela não conhece todos os macetes do universo de reparo de computadores. Mas eu não ligo e ensino tudo o que for preciso. O importante é que essa pessoa se sinta acolhida e encontre uma forma de emancipação social”, explica Buh, que exerce de forma genuína um dos pilares que mais acreditamos por aqui na TEAR, o de compartilhamento de ideias e projetos.

Note Solidário e a cadeia do bem

Angela Davis mencionou uma vez que quando a mulher negra se move, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social em que as mulheres negras se encontram. Buh D’Angelo leva essa filosofia ao pé da letra com o projeto Note Solidário, executado pela Infopreta.

A ideia funciona da seguinte forma: a empresa promove campanhas nas mídias sociais e pede às pessoas que doem para o Infopreta seus laptops que não funcionam mais. A empresa recolhe os computadores e investe os recursos necessários para que eles voltem a funcionar normalmente.

Buh D’Angelo e a esposa e sócia Danielle Esli, com notes doados para a campanha (acervo pessoal)

Depois do conserto as máquinas são doadas para jovens de comunidades carentes que precisam delas para estudar e promover sua capacitação profissional. “Se for preciso coloco grana do meu bolso para comprar peça. Eu tô ligada como é querer estudar e não ter recursos necessários. Por isso não meço esforços,” explica a empreendedora. Mesmo sem patrocínio, no último ano o projeto beneficiou mais de 80 estudantes e entregou máquinas para mulheres em todo o território nacional, mudando realidades pelo Brasil afora. “Entregamos notebook até em Manaus. Se conseguimos fazer isso sem dinheiro, imagina só o que dá para ser feito com um investimento maior?”, afirma, com seu olhar atento para os desafios do empreendedorismo social no País.

Para que a logística de entrega das máquinas dê certo, Buh e seu squad, contam com a ajuda de pessoas que se sensibilizam com o chamado via redes sociais — seja fazendo um “carreto solidário”, seja por meio de uma vaquinha virtual, para que o frete seja pago. O que importa é que a entrega aconteça, que as barreiras da acessibilidade de informação sejam quebradas e que a tecnologia chegue para todas as camadas da população, principalmente para mulheres negras em situação de vulnerabilidade social.

Em 2017, a iniciativa ganhou notoriedade internacional com o prêmio Wommen 20 Summit, promovido pelo G-20. “Foi um sonho realizado. É um pouco estranho, mas, às vezes, tenho a impressão que fora do Brasil conseguimos mais reconhecimento. Mas tudo bem. Enquanto tivermos forças e resistirmos, vou continuar fazendo meu trabalho lindamente” desabafa a criativa Buh.

Empreender para resistir (e existir)

Apesar da nomenclatura ter ganhado, recentemente, um viés hype — e branco — , o empreendedorismo já estava presente na vida dos negros brasileiros desde a abolição da escravatura. Homens e mulheres negros que eram marginalizados pela sociedade acabaram se tornando empreendedores como ferramenta de luta pela inserção social. As mulheres lideraram a cena que surgia comercializando produtos típicos de sua cultura — como vatapá, acarajé, caruru — para que pudessem criar renda e sustentar os seus.

Hoje, mais uma vez, as mulheres se mostram como protagonistas. Iniciativas como o Afrobusiness, que tem como uma de suas fundadoras e idealizadoras Fernanda Leoncio, atua de forma institucional e integra profissionais negros, gerando negócios entre eles e promovendo o empoderamento econômico. Já a Feira Preta, empreendimento social da produtora cultural Adriana Barbosa, vem fomentando o empreendedorismo e capacitando empreendedores há mais de 15 anos em todo território nacional.

Segundo pesquisas realizadas pelo Instituto Locomotiva, cerca de 52% das pequenas e médias empresas do País são comandadas por negros. Em um primeiro olhar, esses números podem representar um avanço social para o Brasil que sempre negligenciou as relações de trabalho das pessoas negras, mas se colocarmos uma lente sob esses dados perceberemos que grande parte desses empreendedores enfrentam uma situação de precariedade e desvantagem de mercado.

Como aconteceu para Buh, abrir o próprio negócio foi a resposta encontrada por muitos negros para driblar o racismo em processos de recrutamento de empresas. Por isso, não podemos deixar de refletir que a cor da pele é componente central na estruturação das desigualdades, afetando o acesso ao emprego e a maiores níveis de desenvolvimento. No Brasil, negros vivem, estudam e ganham menos do que brancos.

Tarefa coletiva

Já vimos por aqui que a diversidade é um grande trunfo para que o empreendedorismo floresça e que decodificar a linguagem da economia criativa — como Buh faz de maneira orgânica e genuína para a sociedade civil — é uma forma de alcançarmos uma sociedade mais igualitária.

A mudança precisa ser sistêmica, dando acesso para que minorias possam empreender fora de um cenário de precarização. Um olhar mais atento ao entorno, por exemplo, pode ser um bom ponto de partida. Compartilhar o conhecimento com indivíduos que não se encontram na mesma cadeia de privilégio que a nossa é um passo importante para a mudança. Façamos como a Buh e multipliquemos nossos conhecimentos. Essa é a lógica da abundância: é melhor que cresçamos juntos. Quanto mais dividimos, mais teremos. Vamos juntxs nessa?


Relações Públicas paulistana, Luciana Paulino é apaixonada por viagens, uma boa canção e bons drinks. Atua como consultora de comunicação e está a frente da plataforma digital Black Bird de viagem e representatividade, que propõe um olhar mais inclusivo para experiências de viagem.