TEAR: pode entrar, a casa é sua

Por gabrielle estevans

Pesquisas, estatísticas e manchetes informam: nós, mulheres, ganhamos participação no mercado de trabalho e, notoriamente, aumentamos nossa importância na roda econômica. E embora tais feitos devam, sim, ser exaltados, ainda seguimos na labuta diária para conquistar o que nos é de direito. Ocupamos espaços, ampliamos vozes e endossamos a causa, é verdade, só que ainda há uma longa estrada a ser percorrida e vigiada para que alcancemos a igualdade. Basta analisar com atenção os dados do IBGE, por exemplo, para perceber que os números dizem mais do que querem que acreditemos: a taxa de ocupação das mulheres cresceu no Brasil nos últimos 50 anos — principalmente entre 1960 e 1990 — , mas da década de 90 para cá, entretanto, tal evolução foi refreada. Pulamos de 16,5% de mulheres em ocupação formal em 1960 para 43,4% em 1992, mas desse ano até 2009, no entanto, essa fatia aumentou inexpressivos 3,4% (chegando a 46,8%).

Profissionalmente, temos nos destacado em diversos setores, mas as funções que exercemos, os cargos e nossas remunerações seguem defasadas quando comparadas com os equivalentes masculinos — como a jornalista Nana Soares explanou nesse texto precioso.

Nessas batalhas cotidianas também sentimos, muitas vezes, o peso da solidão.

Somos cobradas integralmente e, diversas vezes, não sobra tempo nem para lançarmos um olhar de autocuidado para nossas demandas mais genuínas. Ficamos ilhadas: existem outras na mesma situação que eu? Compartilhando das mesmas angústias? Existe um espaço que nos acolha? Uma rede com a qual possamos compartilhar nossas experiências e na qual nos apoiemos para dar um passo além?

Para aquelas de nós que querem empreender, há um horizonte que, aparentemente, é mais promissor. De acordo com o levantamento mundial Global Entrepreneurship Monitor (GEM) de 2017, realizado em parceria com o Sebrae, mais da metade dos novos negócios abertos em 2016 foi fundado por mulheres. Já somos 7,9 milhões de empreendedoras e somos as mais interessadas em começar um novo negócio — a taxa de empreendedorismo feminino entre os novos empreendedores é de 15,4%, enquanto a masculina é de 12,6%.

Imagem licenciada por PRETA.

Numa segunda mirada mais atenciosa para a pesquisa, colocamos à prova nosso otimismo. Mesmo com todo o potencial empreendedor e de agentes de impacto positivo na economia, ainda temos de enfrentar uma verdadeira corrida de obstáculos para cruzar a linha de chegada de um iniciativa próspera e estável: nossos negócios têm vida mais curta e, por isso, somos a minoria, quando a métrica são empresas já estabelecidas. Além disso, para além dos números, sabemos que nossas empresárias também têm menos redes de contatos e suporte e que nem sempre somos as convocadas quando os negócios são maiores ou mais inovadores.

Nesse contexto desproporcionado, há ainda de se destacar um outro problema gravíssimo. De acordo com a pesquisa Quem São Elas, da Rede Mulher Empreendedora (RME), apenas 32% das empreendedoras informais e microempreendedoras individuais são negras — em microempresas e empresas de pequeno porte esse número chega a cair para 20%. Por trás desse panorama, existem fatores impulsionados pelo racismo estrutural que permeia toda a nossa sociedade — como o acesso ao crédito, que, segundo a Small Business Administration, (SBA) é três vezes mais negado a empresários negros do que a brancos, no Brasil.

Entre as empreendedoras, mais da metade (52.06%, segundo pesquisa da Mosaic Brasil) estão concentradas na região Sudeste do país. Parte delas alocadas em São Paulo, conhecida há muito como a terra das oportunidades e que há anos lidera a lista das cidades com maior oferta de emprego no Brasil. E, mesmo assim, a Paulicéia não foge à regra das outras capitais brasileiras: ainda é um lugar hostil para mulheres trabalhadoras e empreendedoras.

Caso você seja mulher, deve ter chegado até essa parte do texto desesperançosa, talvez um pouco zonza de perceber mais uma vez que, para nós, existir é resistir. A intenção, com essa carta, não é que nossa potência esmoreça, mas que, conscientes do contexto em que estamos inseridas, consigamos subverter a lógica que nos foi imposta. O desejo é de que, juntas, consigamos transmutar a história que nos foi contada e que passemos nós mesmas a empunhar a caneta que escreverá nosso futuro.

E se, no meio desse universo adverso para nós mulheres, uma casa fosse capaz de acolher nossos sonhos e impulsionar nossos movimentos? Se houvesse um espaço capaz de abrigar e potencializar nossas histórias?

Parece convidativo, não parece? E esse lugar não só é possível como, muito em breve, também estará de portas abertas para quem de nós quiser frequentá-lo e se beneficiar de sua teia.

Chega mais: a Casa TEAR é para você

Um ponto de encontro, um espaço de respiro, um lugar de crescimento pessoal e profissional. Essa é a proposta da Casa TEAR, uma casa colaborativa para mulheres que desejam empreender sua própria história.

Nela, mulheres de diferentes territórios encontrarão apoio para desenvolverem seus potenciais de protagonismo e realização por meio de programas de aceleração e mentoria e de cursos e grupos de estudo sobre educação empreendedora. Será um espaço inclusivo, com portas e janelas abertas para todas nós — inclusive para mães, num ambiente pensado também para receber os pequenxs. Um local em que as trocas, as conversas significativas e que o networking se desenrolam naturalmente para nos entregar propósito e para catapultar nossos movimentos pelo mundo. Tudo isso emoldurado por uma programação cultural afinada, pensada para inspirar e dar palco e voz para o feminino

Estamos erguendo este lugar. Construindo, a muitas mãos, esse espaço que é ninho e também trampolim: queremos acolher e receber muitas de nós e também queremos içar nossos projetos, iniciativas e negócios — seja empreendendo, seja inseridas no mercado de trabalho.

Se aí do outro lado da tela brotou um interesse em fazer parte ou uma fagulha de curiosidade pelo que está sendo arquitetado, se conecta com a gente. A revolução é feminina e é juntas que vamos mais longe.

Seguimos.


gabrielle estevans é jornalista especialista em gênero, cultura e desenvolvimento humano. Pesquisa, planeja e coordena projetos com propósito e impacto social.