Ateliê TRANSmoras
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Ateliê TRANSmoras

Tecendo saberes trans, a formação em produção cultural do Ateliê TRANSmoras

Texto por Antonia Moreira e Hiura F.

Produzir ajuntamentos trans que questionam as estruturas vigentes e possibilitam a construção de labirintos próprios de vida entre as rupturas e traumas do “cistema”, talvez seja a melhor forma de falar sobre o que o Ateliê TRANSmoras faz.

Diante de um cenário pandêmico, se torna ainda mais importante fomentar essa comunidade, uma população historicamente vulnerabilizada e que desde sempre sente na pele o isolamento, a exclusão e a suspensão social.

Em contrapartida à toda violência depositada sobre esses corpos, a comunidade trans vêm coletivamente reinventando, transmutando e gerando novos caminhos para lidar com os problemas antigos.

A formação em Produção Cultural foi mais uma estratégia para construir esses ajuntamentos, entendendo que uma revolução está acontecendo no aqui e agora. Este curso compõe parte de um escopo de tecnologias sociais desenvolvidas pela coletividade, que sempre teve como ponto de partida a moda, especialmente o corte, a costura e a transmutação têxtil.

A partir do entendimento de que não bastava apenas ensinar a costurar, mas também prover à rede criativa conhecimentos em negócios, gestão e comunicação, se fez necessária uma dilatação da noção de produção cultural para compreender as especificidades tanto da comunidade trans, como dos territórios que receberão esses profissionais.

Nesse sentido, o estímulo à construção de espaços saudáveis, pensando o espaço enquanto um território vivo favorece as potencialidades para a implementação da qualidade de vida, e sob esse aspecto, considerando o momento de pandemia que vivemos, as ferramentas digitais se colocam como uma possibilidade de repensarmos a consolidação desses ambientes virtuais também enquanto espaços de cuidado, afeto e in-formação.

A formação: Ateliê TRANSmoras se especializando em compartilhar sua experiência na produção cultural

A metodologia utilizada no curso de Produção Cultural é uma readaptação do que foi consolidado na formação Autonomia TRANS, realizada em 2020.

Dessa vez, contudo, um outro ângulo das ferramentas do Design Thinking foi utilizado, priorizando os trabalhos em grupo e principalmente a resolução de desafios dos territórios contemplados pelo projeto. Na formação anterior, a resolução dos problemas se colocavam a partir da descoberta de desafios individuais.

No curso, 10 alunas foram selecionadas, em absoluto pessoas trans e/ou negras. Durante 7 semanas e com mais de 16 horas de conteúdo, os encontros foram facilitados por Antonia Moreira, líder de planejamento e estratégia no Ateliê TRANSmoras, e contaram também com a participação de artistas e intelectuais, tais como abigail Campos Leal, Lino Calixto, Águi Berenice, Viviane Junqueira e Valter Morais.

O foco da formação foi apresentar os territórios da Rede TRANSmoras contemplados no projeto e fomentar investigações sobre possibilidades de produção cultural que resolvam problemas ou potencializam oportunidades dos espaços, a saber: Vista Vaskes, marca de roupas criada no âmbito do Xirê Axé dos Orixás; Transcooper, cooperativa trans ligada à Casa sem Preconceitos, espaço de acolhimento na cidade de Campinas; e o próprio Ateliê.

Com metodologias ativas, as participantes tiveram a oportunidade de conhecer mais sobre os territórios e seus desafios, tendo contato com técnicas de pesquisa, geração de consenso, ideação e planejamento para apresentarem propostas realizáveis no atual contexto.

No final, os três grupos atuantes durante a formação se juntaram e apresentaram uma proposta de financiamento coletivo recorrente, reunindo os três espaços, como forma de validar a narrativa atrelada aos territórios: todos são liderados por pessoas trans e têm conexão com a costura.

Os territórios: a Rede TRANSmoras

A Rede é um projeto do Ateliê TRANSmoras, que neste ano contou com recursos da lei federal nº 14.017, de 29 de junho de 2020 — Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc.

Enquanto agentes de uma rede criativa, o Ateliê TRANSmoras se posiciona como articulador de ajuntamentos trans, como foco no empoderamento econômico e social. No contexto de Campinas e deste projeto, foram contemplados os territórios Xirê Axé dos Orixás, liderado pelas irmãs Dil Vaskes e Katryna Serafim, e a Casa sem Preconceitos, liderada por Suzy Santos.

Todos os territórios, além de serem conduzidos por pessoas trans e negras e terem como objetivo atender essa comunidade, também desenvolvem tecnologias sociais próprias, que devem ser entendidas como gingas que possibilitam vida, como começamos a articular no início deste texto.

Hoje a Rede TRANSmoras mantém fortes conexões com outras cidades brasileiras, incluindo João Pessoa, São Paulo, Belém, Araraquara, entre outras.

Conclusões: a potência do trabalho coletivo

O curso foi potente pois possibilitou conexões únicas. No segundo encontro, a artista Manauara Clandestina, diretora criativa em desfiles do Ateliê, participou diretamente de Barcelona, compartilhando a experiência de produção do desfile “Brasil, o país campeão mundial de travestis”.

Artistas como abigail Campos Leal e Lino Calixto fizeram provocações sobre existência e ativismos nas artes que inspiraram reflexões filosóficas nas novas produtoras culturais em formação.

A experiência digital, embora complexa, teve momentos altos com o uso de salas dinâmicas na ferramenta Google Meet, além do Jamboard como plataforma de exposição de ideias e geração de consenso.

Outro ponto alto identificado em dinâmicas de feedback foi o próprio conhecimento, por parte das participantes, da história dos territórios, contribuindo assim para a memória coletiva trans da cidade de Campinas. Esse é um ponto que o Ateliê TRANSmoras pretende puxar com mais força em projetos futuros.

Como ponto de aprendizagem esteve o cansaço atrelado ao momento complexo em que vivemos, com algumas baixas na turma. Embora o curso contasse com bolsa-estímulo, um acompanhamento mais próximo e efetivo foi visto como necessário para retenção completa das pessoas alunas. Em próximas edições o trabalho de consultoria será mais priorizado, com a sugestão das próprias alunas apoiarem umas às outras em suas jornadas.

Por fim, consideramos o curso exitoso em sua proposta, com feedbacks positivos das participantes e resultado prático para os territórios, que se encontram mais articulados e com produtoras culturais capacitadas a assumir liderança em projetos.

Enquanto proponente, o Ateliê TRANSmoras está cada vez mais apto a oferecer formações e cursos especializados em grupos vulnerabilizados, entendendo dinâmicas e demandas específicas que, quando atendidas, garantem melhor absorção, uso e impacto dos conhecimentos, tendo o digital cada vez mais enquanto potência, e não barreira.

Conteúdos da formação: conjuntos de saberes torcidos e retorcidos

exercitar o músculo da imaginação: introdução a imaginação preta radical. abigail Campos Leal.

Linguagem e poética na gestão contemporânea. Lino Calixto.

Gestão de projetos e mobilização de recursos. Viviane Junqueira.

Desmistificando o Design Social: Duplo Diamante e 5 Porquês. Hiura Fernandes.

Introdução à produção cultural e o desafio do trabalho coletivo. Antonia Moreira.

Produzindo moda e desfiles, experiência do Ateliê TRANSmoras. Antonia Moreira e Manauara Clandestina.

Oficina de ideação. Antonia Moreira.

Oficina Prototipagem. Antonia Moreira, Viviane Junqueira e Valter Morais.

Sessões de co-criação. Antonia Moreira.

Facilitação básica para saúde energética em tempos de pandemia. Águi Berenice.

Agradecimentos

Camila de Almeida, da Arco Hub, pelas mentorias fantásticas.

Viviane Junqueira e Valter Morais, por também comporem o núcleo que pensou a pedagogia desse curso.

Vicenta Perrotta & Rafa Kennedy por mais uma vez apostarem em novos formatos de cursos dentro do Ateliê e contribuírem para que tudo acontecesse.

Referências para esse texto

Autonomia Trans: Uma formação voltada à viabilidade econômica de projetos sociais. Antonia Moreira, 2020.

“Transfeminismos”, Paul B. Preciado. N-1 Edições, 2015.

Manifesto Transmutação têxtil: tecnologia travesti. Bioncinha do Brasil. Fort Magazine, 2020.

Milton Santos, O espaço do cidadão. Ed. Nobel, 2000. “O cidadão é o indivíduo num lugar”

Toolkit de Design e Inovação, Arco Hub de Inovação, 2019.

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O Ateliê é um espaço coletivo de produção artística e de cultura LGBTQIA+. Busca-se a ressignificação do discurso hegemônico, patriarcal, CIS, racista, higienista e excludente, acolhe corpos dissidentes e empodera com vivências, oficinas e fomento para geração de renda.

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