A incontornável experiência épica vem a galope


Não é tarefa simples produzir literatura ficcional urbana quando se vem de uma região onde há hegemônico apreço pela estética rural

Por Gustavo Machado

Na semana passada, falei por aqui sobre nossa extrema dificuldade em despir as bombachas. No bom sentido, claro. Refleti por uma semana, tomando mate, e sigo convicto: que não é fácil nadar de poncho. Em livre tradução: não é tarefa simples produzir literatura ficcional urbana quando se vem de uma região onde há hegemônico apreço pela estética rural.

Stephanie Gomes Pereira

Referência central no panorama da ficção gaúcha em seus matizes majoritários, Erico Verissimo cravou sua magnum opous, “O tempo e o vento”, como fundamento essencial do universo ficcional gaúcho. O mesmo Verissimo, porém, traçou os arquétipos essenciais às poucas experiências de romance urbano gaúcho aqui cometidas. Os protagonistas da quase epopeia “Clarissa”, ou da narrativa transversal “Caminhos cruzados”, têm a mesma robustez e densidade que Bibiana e Capitão Rodrigo; suas respectivas tramas não mostram menos intensa carga dramática que as encontradas ao longo dos volumes do já referido “O tempo e o vento”.

Na novela “Noite”, Verissimo flerta com a atmosfera de pesadelo em ruelas sombrias num enredo em que tudo é incerto, trazendo ao próprio universo notas de um autêntico roman noir. Curiosamente, graças a um pedido de Verissimo que Dyonélio Machado escreve “Os ratos”, considerado por muitos críticos o romance urbano fundamental de Porto Alegre.

Marco Couto

Por conta da transformação socioeconômica por que passou o Brasil na última quarta parte do século XX, após décadas de êxodo rural e mudanças nas matrizes de produção, a literatura brasileira acompanhou, em parte, esta mudança de um país majoritariamente rural para uma nação fabril e asfaltada, com populosos centros urbanos. Naturalmente, a literatura passou a expressar este novo cotidiano. Uma prosa urbana surgia tendo seus primeiros alicerces na literatura de Nelson Rodrigues, passando pelo existencialismo de Clarice Lispector, pelo realismo brutal de Rubem Fonseca, pela crua contemporaneidade de Patrícia Melo e Marçal Aquino, pelo policial pop do titã Tony Bellotto ou pelo minimalismo de Daniel Galera.

Já no Rio Grande, como é habitual, a transformação ou sobreposição de paradigmas estéticos se deu de maneira mais tímida. Mais lenta. E mais desconfiada. Imagine-se, então, a dificuldade dos autores que investem sua produção literária no estabelecimento de uma cultura ainda embrionária, a da literatura gaúcha urbana.
Marco Couto

Entre o grande público, se é que isto existe em termos de público-leitor brasileiro, ainda se espera que escrevamos essencialmente “histórias de gaúcho”, de preferência ambientadas em meados da Revolução Farroupilha. O mesmo acontece na maioria das transposições para cinema e televisão.

De outro lado, muitos autores da literatura gaúcha, ainda que premiados e traduzidos para outras pequenas editoras internacionais, lutam com dificuldade para acessar as bibliotecas, os eventos literários e o grande público leitor, caso insistam na temática urbana.

Com ou sem mercado, independentemente de haver ou não público, como autor do campo minoritário sinto uma vontade sincera e crescente de escrever uma saga rural. É sério. Talvez pela necessidade de atender a um chamado da natureza, quem sabe pela memória química que os painéis de Verissimo ainda fazem reverberar em várias gerações que antes de mim vieram. Talvez pelo mesmo processo que leva cineastas norte-americanos absolutamente urbanos à incontornável experiência do western. De todo modo — por ser gaúcho? –, uma certa birra me faz adiar este projeto por tempo indeterminado. Até lá, sigo com meus personagens de apartamento e suas cidades frias, escuras e molhadas. O chamado, porém, vem a galope.

**

Gustavo Machado é autor dos romances Sob o céu de agosto, lançado no Brasil, em 2010, e na Alemanha, em 2013, e Marcha de inverno, publicado em 2014. O autor escreve semanalmente neste espaço.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.