O ressurgir da cultura açoriana no Rio Grande do Sul

Por Thiago Mendes e Fernanda Alves

Mestre em história e incentivadora da cultura no município de Gravataí, Célia já tinha interesse no povoamento do território gaúcho quando viajou pela primeira vez para os Açores, em 1988. O intercâmbio, custeado em parte pelo governo açoriano, dispunha de cursos e palestras acerca da cultura do arquipélago português e deu à, até então, funcionária da secretaria de cultura do município a confirmação da necessidade de estreitar — ainda mais — os laços entre o Rio Grande do Sul e as ilhas dos Açores.

Célia Jachemet, presidente da CAERGS. (FOTO: Fernanda Alves)

De volta de viagem, o primeiro passo dado por Célia para o ressurgimento da cultura açoriana no município foi, junto com outros historiadores locais, fundar a Sala Açoriana, instituição que tinha como principal trabalho o resgate da linguagem portuguesa nas escolas. Brinquedos, brincadeiras, cantigas de ninar e ditos populares utilizados no dia-a-dia e que eram iguais ou muito semelhantes aos encontrados no arquipélago, foram incorporados durante as aulas evidenciando uma marca clara deixada por aqueles que foram um dos primeiros povos a habitar o estado.

Com o passar dos anos, Célia e os demais pesquisadores da cultura açoriana em Gravataí foram dando passos mais longos — a destacar a criação do Rancho Folclórico, grupo de danças açorianas do município — em busca de uma Casa dos Açores no estado gaúcho, mas para isso era necessário mais do que pesquisas e projetos, era preciso um prédio.

No final dos anos 90, sem dinheiro para aquisição de um terreno e com encontros sendo realizados nas garagens de suas propriedades, os estudiosos foram até o prefeito pedir por uma sede temporária. Para espanto de todos, dois dias depois a prefeitura de Gravataí cedia a eles o “Solar da Magnólia” ou ainda “Casarão dos Fonseca”, uma antiga construção açoriana em ruínas localizada no centro da cidade. Era tudo o que Célia e seus colegas queriam.

Em três anos, com o dinheiro do próprio bolso, os pesquisadores restauraram o prédio, mantendo a arquitetura o mais fiel possível à original. Assim surgia a Casa dos Açores do Estado do Rio Grande do Sul (CAERGS).


Fundada oficialmente em março de 2003, a CAERGS, uma instituição sem fins lucrativos, passou a representar as diversas cidades de origem açoriana no estado perante às demais comunidades açorianas do Brasil e do mundo.

Única Casa dos Açores no Brasil não localizada na capital do seu estado, a CAERGS está subordinada ao Governo regional dos açores e funciona com o trabalho voluntário de sua diretoria, quadro de associados e investimento do governo açoriano. É membro do Conselho Mundial de Casa dos Açores da qual, neste ano, detém a presidência.

(FOTO: Fernanda Alves)

A Casa dos Açores tem o compromisso e a missão de disseminar a cultura açoriana, além de promover intercâmbios entre o Rio Grande do Sul e os Açores, viabilizar a edição de livros, encontros e palestras acerca do tema e auxiliar emigrantes e imigrantes junto às autoridades portuguesas e brasileiras, nos limites da lei.

Atualmente a Casa, presidida por Célia Silva Jachemet, conta com uma biblioteca açoriana, dois grupos de dança folclórico (mundialmente reconhecidos) e promove anualmente um dos maiores festivais folclóricos internacional.

Aberta ao público, a CAERGS está localizada na avenida Adolfo Inácio Barcelos, número 938, no centro de Gravataí/RS.