Capítulo II — Notícia falsa tem força porque gera lucro

Rariane Costa
Jul 17, 2018 · 4 min read

Fake news se espalham rapidamente porque é conveniente para muita gente

Confira o capítulo III — Imprensa: vítima ou culpada?

As fake news se espalham com força e rapidez porque são convenientes para muita gente, explica Rogério Christofoletti, professor e pesquisador do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Ele acrescenta que “empresas, governos e pessoas lucram muito com a propagação de conteúdos de forma viral, e para eles não importa se a informação é verdadeira ou não. Importa é sua capacidade de ser espalhada, absorvida e novamente espalhada”.

Com a popularização da internet e das plataformas digitais, os hábitos informativos se estenderam. Usuários ganharam um novo papel, não só de interagentes, mas também de produtores de conteúdo. As redes sociais têm sido um dos principais terrenos de criação e difusão de informações, inclusive, falsas. Com as tecnologias digitais, a divulgação de conteúdo se tornou mais simples, rápida e obteve um maior poder de alcance. Em relação a isso, a jornalista e doutoranda em Comunicação Taís Seibt considera que “há um potencial de personalização e disseminação das mensagens jamais visto”.

Neste cenário, escândalos envolvendo gigantes da tecnologia vieram à tona. Em 17 de março de 2018, o Facebook, empresa fundada e gerida por Mark Zuckerberg, foi acusada de divulgar informações de seus usuários. Dados de 87 milhões de pessoas foram captados e empregados sem autorização para personalizar notícias relacionadas às eleições presidenciais dos Estados Unidos (EUA), em 2016. O pivô do imbróglio foi a firma de pesquisas digitais Cambridge Analytics, fechada após o escândalo.

Em 2017, a consultoria de segurança cibernética Trend Micro publicou a pesquisa “The Fake News Machine” (A máquina das notícias falsas). Os resultados indicaram que, para manipular a opinião pública com a criação e disseminação de conteúdos falsos nas redes sociais, empresas cobrariam de US$ 200 mil até US$ 400 mil. Nestes casos, há inclusive a opção de criar uma celebridade digital e manipular processos de decisão públicos, sociais e políticos. Um exemplo disto, além da eleição de Donald Trump nos EUA, foi o referendo para a saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, que teve a mesma influência trabalhada em plataformas digitais.

Apelo emocional

É difícil compreender os motivos que levam as pessoas a compartilharem boatos diariamente. Embora existam muitas estratégias para que esse tipo de conteúdo tenha alcance e visibilidade, a disseminação de notícias falsas acontece principalmente por ação de usuários da internet. É comum atualmente que indivíduos ativos nas redes sociais não chequem as fontes de uma notícia que passa pelo feed, e muitos nem terminam de ler a informação antes de compartilhá-la ou sequer começam a leitura, ficando nas manchetes.

Um dos recursos utilizados para aumentar a dimensão das fraudes é o apelo emocional empregado nas mensagens, um gatilho para o compartilhamento. “O emocional faz com que as pessoas não criem um critério”, coloca a psicóloga e professora Susana Gib Azevedo. Segundo ela, a tática dificulta que os leitores raciocinem na hora de checar a veracidade de uma notícia. Para Taís Seibt, uma das razões que explica porque o fenômeno é tão recorrente está no fato de que algumas crenças servem como critério decisório. “Se for uma informação que confirme uma expectativa ou uma convicção, também há uma tendência maior para que a pessoa compartilhe isso”, argumenta. Susana Azevedo acrescenta que a curiosidade natural do ser humano é outro grande intensificador desse padrão.

A ideia de que as fake news se propagam mais rapidamente entre as pessoas de baixo grau de instrução ou condições econômicas não passa de um mito, alega Taís Seibt que também criou, junto com Tiago Lobo, a Filtro Fact-Checking para fazer de forma profissional a checagem de informações.

“Quando falamos de educação para mídia como ferramenta de combate às notícias falsas, não estamos falando em grau de instrução, e sim de uma compreensão mais ampla sobre como funcionam as coisas. Isso independe dos anos de estudo formal e das condições econômicas de cada um”, destaca Taís Seibt.

Redes sociais dinâmicas como o Twitter têm um modo de operação propenso a disseminação de fake news, já que tem limitação de caracteres que torna as chamadas curtas e diretas. Por isso, é comum acontecer o fenômeno conhecido como clickbait, ou “isca para cliques” (tradução livre). Os produtores de notícias falsas utilizam manchetes atrativas para que o leitor não sinta necessidade de ler o resto do texto e compartilhe sem conhecer todo o conteúdo. Taís explica que esse problema foge das mãos do usuário:

“Solucionar isso passaria por uma reengenharia do site que depende mais do próprio Twitter do que do usuário, a quem se recomenda não compartilhar sem pensar“.

Outro fator importante no combate à propagação das fraudes é a capacidade de alcance dos influenciadores digitais que acabam ajudando a disseminar boatos mesmo que não deliberadamente. Muitas vezes, figuras públicas praticam o clickbait ou se mostram irresponsáveis sem verificar as fontes ao ler a informação. A única forma de lidar com isso requer cuidado constante, prestar atenção no que se lê antes de compartilhar.

Editorial J Famecos

O Editorial J é o laboratório de Jornalismo Convergente da Famecos/PUCRS que produz conteúdo multimídia para diferentes plataformas (impressas, eletrônicas e digitais).

Rariane Costa

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Editorial J Famecos

O Editorial J é o laboratório de Jornalismo Convergente da Famecos/PUCRS que produz conteúdo multimídia para diferentes plataformas (impressas, eletrônicas e digitais).

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