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Depressão: doença real, incapacitante e que preocupa a OMS

A depressão atinge 4,4% da população mundial atualmente. O crescimento do número de diagnósticos é um alerta: é preciso levar a sério nossa saúde mental


“Me chamavam de folgada, preguiçosa. Falavam que era drama, falta do que fazer ou para chamar atenção” relata Daenerys*, de 22 anos, diagnosticada aos 17. Entre sintomas como mudanças de humor, descontentamento, cansaço, sofrimento emocional, solidão e ansiedade, a jovem encontrava-se em um quadro de uma doença incapacitante que vem preocupando a Organização Mundial da Saúde: a depressão.

A revista médica Lancet recentemente publicou um estudo que mostra a depressão como uma das principais patologias incapacitantes no Brasil.

Para configurar um quadro de depressão, explica a psiquiatra Josianne Martins.

“O quadro depressivo é caracterizado por sintomas como tristeza, perda de interesse ou prazer nas suas atividades, alteração de peso, dormir demais ou dificuldades para dormir”, explica a psiquiatra Josianne Martins. “Os sintomas devem ser persistentes na maior parte do dia, quase todos os dias e estarem presentes há pelo menos duas semanas para se encaixar num quadro patológico.”

Entre as outras características estão a fadiga e falta de energia, sentimento de inutilidade e incapacidade, culpa excessiva, falta de concentração, capacidade diminuída de pensar e tomar decisões, medo de morrer ou pensamento suicida. “A longo prazo, o transtorno depressivo aumenta o risco de doença cardíaca, diabetes e obesidade”, adiciona Josianne.

Letícia*, de 26 anos, foi diagnosticada com depressão há quatro meses. “Por alguns dias, eu sentia como se eu simplesmente não quisesse funcionar. Sair da cama era difícil e eu só queria dormir e desaparecer” conta. “A sensação era como se eu fosse uma boneca de trapos caída na cama”.

“A depressão afeta meu cotidiano diretamente, porque eu tenho momentos em que estou muito bem e outros em que me bate um vazio enorme. Me dá uma vontade de chorar e de desistir de tudo o que estou fazendo durante o dia” relata Ana Luíza de Franco de 22 anos, diagnosticada com a doença recentemente. “Pelo mais feliz que você esteja momentaneamente, essa tristeza parece que não se cura jamais.”

“Eu sentia como se não tivesse mais um corpo e passava o dia todo contemplando sobre a finitude da vida, sobre como todo mundo estava morrendo e não tinha como fugir disso” revela Daenerys. “Era uma angústia enorme em todos os meus momentos acordada”, explica.

A depressão se desenvolve a partir da redução de algumas substâncias cerebrais chamadas de neurotransmissores, sendo os mais importantes a serotonina, noradrenalina e dopamina. Essas substâncias estão diretamente relacionadas às sensações de prazer e animação.

A dopamina, por exemplo, é responsável pela sensação de recompensa e conforto após alguma atividade, além de estar relacionada ao controle de movimentos, aprendizado, humor, emoções, cognição e memória.

A noradrenalina está ligada ao estresse, ao sistema de alerta e à ansiedade. Ela ainda é responsável diretamente pela alteração da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos.

Já a serotonina está associada à felicidade, ansiedade e tranquilidade, agressividade, raiva e irritabilidade. Ela participa também de outras funções importantes no organismo, como apetite, controle de temperatura, sono e sexualidade.

“O adulto deprimido também pode experimentar sintomas adicionais, como alterações no apetite ou peso, abuso de álcool ou drogas, alterações do sono e da atividade psicomotora, diminuição da energia, sentimentos de desvalia ou culpa, dificuldades para pensar, concentrar-se ou tomar decisões” explica a psiquiatra Natália Goulart.

Dados da OMS (em inglês)

O diagnóstico médico é essencial para a identificação precisa do quadro depressivo, além do acompanhamento psiquiátrico e psicoterápico. No entanto, o Brasil encontra um problema sério em relação à saúde mental pública: de acordo com dados coletados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 6,71% dos profissionais da “força tarefa” da saúde mental do país são psicólogos (3,22%) e psiquiatras (3,49%). O restante é formado por assistentes sociais e enfermeiros.

Daenerys, fora do quadro de depressão há um ano, ressalta a importância de um tratamento profissional. “As pessoas precisam parar de ter medo de procurar ajuda. Acho importante as pessoas procurarem tratamento da linha que acharem melhor, mas com consciência do que estão fazendo e terem paciência durante o processo.”

“É difícil procurar ajuda” relata Letícia. “O médico recomendou que eu buscasse uma terapia, mas não encontro nenhum lugar público. A maioria dos psicólogos particulares que eu procuro cobram preços que eu não posso pagar”. Para casos como o de Letícia, existem opções de atendimento popular gratuito em Brasília, como o Centro de Formação do UniCEUB, localizado no Edifício União, na quadra 1 do Setor Comercial Sul.

Além disso, há o CAEP da Universidade de Brasília e o CPA da Unip. Outro centro universitário que oferece serviços de atendimento é o Iesb, que cobra uma taxa simbólica de 1% da renda familiar declarada.

Aumento no transtorno

A presença da depressão se mostra maior com o passar dos anos. Segundo dados da OMS, de 2005 a 2015, o número de pessoas deprimidas no mundo inteiro aumentou em 18,4%, o que contabiliza 4,4% das pessoas do planeta com o distúrbio. Para colocar em números mais concretos, são cerca de 268 milhões de pessoas diagnosticadas no mundo.

A Ucrânia é o líder mundial nos diagnósticos de depressão (dados da OMS)

O Brasil ranqueia como o país mais deprimido da América Latina e o segundo de todas as Américas, com 5,8% da população com depressão. São aproximadamente, 11,5 milhões de brasileiros diagnosticados, perdendo apenas para os Estados Unidos, com 5,9% da população afetada.

Segundo Josianne, o mundo de hoje expõe cada vez mais os indivíduos ao adoecimento. “As pessoas são cobradas por resultados positivos desde a infância, não conseguem manter uma alimentação saudável e muito menos fazer exercícios físicos regularmente” explica. “A qualidade de sono e tempo para o lazer geralmente estão prejudicados, o convívio com a família é reduzido, o desenvolvimento de resiliência e de tolerância a frustração estão comprometidos”, completa.

A projeção da OMS para o futuro da doença mostra que a exposição a estes fatores se será um problema ainda maior: estima-se que até 2020, cerca de 322 milhões de pessoas também estejam deprimidas, aumentando a estatística e tornando a doença a segunda mais incapacitante.

“O dia a dia com cada vez maiores níveis de estresse no qual estamos inseridos, apresentando mais fatores desencadeantes para um episódio depressivo, além de deixar a população exposta ao desgaste e exaustão emocionais decorrentes desta rotina, o que predispõe ao surgimento da doença” enumera Natália. “Outro fator relevante é que hoje as pessoas procuram mais tratamento e abordam mais a existência da doença, tornando maior o número de diagnóstico que anteriormente passariam batidos.”

Estigma

Ainda com dados alarmantes, como o aumento de 416 milhões em 1990 para 615 milhões em 2013, apesar da presença de sintomas fortes e avisos constantes da OMS, os relatos das pessoas diagnosticadas mostra que o estigma social sobre a depressão ainda é muito grande.

O aumento do número de pessoas deprimidas de 1990 a 2013 foi vertiginoso, segundo os dados da OMS.

“Quando fui diagnosticada, a opinião das pessoas ao meu redor foi dividida, mas em todos os casos eu perdi a minha autonomia” explica Daenerys. “Tinha gente que me dizia que eu estava inventando, que era frescura. Também tinha gente que praticamente queria me forçar a fazer o tratamento medicamentoso, dizendo que eu sou doente.”

“Eu não costumo contar para as pessoas que tenho depressão porque muitas têm preconceito com quem tem. Por muitas vezes as pessoas simplesmente não entendem ou acham que você está fazendo ‘fita’, tentando aparecer ou então arranjando uma desculpa para não fazer as coisas direito” conta Ana Luíza.

Ouça um trecho da entrevista com Ana Luíza abaixo:

“Ouço com frequência que é tudo drama meu para chamar atenção das pessoas ou então que estou sendo preguiçosa, tirando a legitimidade da minha condição ou dizendo que eu preciso de uma religião ou um marido. Isso faz com que eu tenha vergonha e medo de buscar ajuda profissional” admite Letícia.

Conscientização

Para combater o aumento da doença em uma escala global, a OMS lançou a campanha Depression — Let’s talk (Depressão — Vamos conversar, em inglês), em combate à depressão para o Dia Internacional da Saúde. A medida teve início em outubro do ano passado e terá a duração de um ano. A ideia é difundir conscientização sobre a doença, indicando como identificar a doença no cotidiano, além de fomentar a busca por tratamento e ajuda.

Uma série de vídeos curtos produzida pela própria OMS foi disponibilizada no Youtube. Confira um deles abaixo:

Para ativar as legendas, clique na opção de ativar legendas em português no player do Youtube acima

Confira também a matéria feita para a Revista Esquina:

  • Pseudônimos escolhidos pelas entrevistadas, que não quiseram se identificar.
Veja ainda reportagem sobre transtorno de ansiedade nesta edição do Esquina On-line.
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