Medo na infância

Crianças estudantes na Cidade Estrutural revelam que se sentem desprotegidas, sozinhas e um pensamento desconfiado do amanhã

Alice Leite

As 15 crianças estão em roda na sala de aula. Elas me olham surpresas, faço a apresentação, mas já têm ideia do que uma repórter faz: “É uma pessoa que entrevista os outros”, disse uma delas. Ansiosas por esse momento, as crianças se organizam e olham atentas. Entrego as folhas de papel e peço um desenho. Lanço a seguinte pergunta: “Para vocês, o que é violência?”. A primeira resposta que escuto é “estupro”. Do olhar da repórter para o olhar delas. Aqui é o que elas pensam que interessa. O menino sorri com a ideia de que acertou a resposta. As crianças arriscam outras alternativas para a questão: “ladrão”, “roubo”, “facada”. As definições ecoam pela sala. Começam a apontar os lápis e a desenhar. No papel, elas esboçam algumas impressões de mundo. O que as palavras significam? E os desenhos? O que as carinhas alegres ou confusas podem representar? É difícil dizer, afinal, essas crianças têm apenas seis anos.

Os alunos estão há exatos 13,3 quilômetros do centro do poder, no Centro de Ensino Fundamental 2 da Estrutural (CEF 2), um dos bairros mais vulneráveis do Distrito Federal. A reportagem aplicou um questionário em sala com 27 crianças de 8 a 14 anos, além de conversar e recolher desenhos sobre a temática com outro grupo entre 6 e 7 anos. As famílias concordaram com a conversa com resguardo das identidades deles. Apesar das estatísticas que serão mostradas a seguir, há o olhar confuso, os relatos e as brigas na hora do recreio.

No papel, crianças de seis anos esboçam algumas impressões do que é violência para elas.

O cotidiano desses meninos se assemelha ao de muitos outros pelo Brasil, onde 28 crianças e adolescentes morrem por dia. A maioria são meninos, negros, pobres e moradores de periferias e áreas metropolitanas de grandes cidades. Negligência dos pais, insegurança na escola, o medo de brincar na rua e as marcas de um ambiente violento transparecem nos depoimentos.

O retrato da realidade de crianças que moram em regiões periféricas, como é o caso das crianças da Estrutural, parte de princípios muito básicos da sensação de insegurança. Dentre as 27 crianças entrevistadas, 24 responderam que nunca se sentem protegidas pela polícia. Em relação ao bairro em que moram, 61% das crianças afirmaram que às vezes ou nunca se sentem seguras.

Escute o material em áudio sobre esse tema. Neste podcast, a psicopedagoga da escola CEF 2, Elaine Honorato, conta a experiência no colégio e como ela vê a situação das crianças na Estrutural.

Para a Defensora Pública, Eufrásia Maria Souza, que atua como coordenadora da Defesa dos Direitos da criança e do adolescente no órgão, a proteção da criança deve ser assegurada pela família, sociedade e governo. “Qualquer violação pode ser comunicada ao Conselho Tutelar diretamente, órgão de proteção, incumbido pela sociedade de zelar pelos direitos de crianças e adolescentes, ou ligando para a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos através do número 100, assim como acessando o aplicativo chamado Proteja Brasil”, adverte.

No Brasil, as situações de negligência, violência psicológica, física e sexual são os crimes mais comuns, segundo o balanço do Disque 100. As violações atingem principalmente as meninas, que são as vítimas em 45% dos casos. A faixa etária mais atingida é de 8 a 11 anos. Confira abaixo mais dados sobre violência infantil no Brasil:

Na Estrutural, as crianças que foram entrevistadas mostraram uma realidade ainda mais dolorida. Todas as crianças que conseguiram terminar a pesquisa marcaram que só às vezes acreditam que podem ser felizes quando crescer. A falta de perspectiva de viver uma vida segura, saudável e feliz preocupa ainda mais do que a percepção precoce sobre a violência.

Esta reportagem reconhece o espaço de voz que as vítimas das mais variadas violências devem ter, por isso, através das respostas aflitas, dos desenhos e das falas tímidas, o Esquina tentou mostrar a realidade vivida por esse grupo de crianças. Vale ressaltar que essa matéria não se propõe a ser um artigo sobre o tema. Para isso, recomendo duas pesquisas acadêmicas que estudaram a questão mais a fundo.

Veja livros e filmes que também foram feitos a partir da percepção de crianças:

Para ler mais sobre a experiência em sala de aula com as crianças, veja a matéria publicada na Revista Esquina:

Veja também reportagens sobre violência doméstica e relacionamento abusivo nesta Edição do Esquina On-line.