Um novo formato para educação em Jornalismo

Como o curso de Jornalismo da Escola de Comunicação, Artes e Design — Famecos, da PUCRS, está transformando o ensino do jornalismo

Mudanças exigem transformações. Com base nesta premissa, alguns cursos de jornalismo têm realizado experiências para inovação no currículo. Com as mutações em termos de plataformas disponíveis, padrões de consumo de conteúdo, relação com o público e financiamento, o meio acadêmico é o ambiente ideal para mirar novos horizontes e repensar o jornalismo. Funcionando cada vez mais como um laboratório para experimentar e propor novos modelos de conteúdo e informação. Dentro desse espírito, gostaria de compartilhar as mudanças recentes que foram realizadas no quinto semestre do curso de jornalismo da Famecos (recentemente renomeada como Escola de Comunicação, Artes e Design — Famecos), da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O objetivo é construir uma nova visão do que um currículo de jornalismo pode oferecer. Estas transformações foram reunidas dentro do que estamos chamando de Projeto V. Neste texto, procuro descrever a estrutura do projeto, apontar as dificuldades inerentes ao desafio e projetar os ganhos em potencial para a educação em jornalismo.

O projeto envolve duas inovações principais. Por um lado, o olhar interdisciplinar: seis disciplinas (cadeiras) diferentes foram integradas, funcionando como um grande projeto. Por outro, há uma inovação metodológica: parte-se da premissa de um aluno muito mais ativo, que deve ser uma parte fundamental da maneira como o conteúdo de aula é construído. Neste sentido, o espírito do processo é de se apostar menos em aulas expositivas, e mais em uma construção coletiva. A metodologia norteadora foi a da Aprendizagem Baseada em Problemas . Outro texto de referência foi Se eu tivesse um jornal, de Jeff Jarvis, cuja tradução também foi publicada no Medium pelo Farol Jornalismo, no que tange à maneira como ele pensa comunidades e a relação do jornalismo com elas.

As disciplinas

Ao todo, foram reunidas em torno de um projeto único as disciplinas previstas no currículo no quinto semestre. São elas: Assessoria de Imprensa, Produção e Edição em Radiojornalismo, Telejornal, Produção em Jornal, Produção em Jornalismo Online e Empreendedorismo em Jornalismo.

Antes, cada disciplina trabalhava conteúdo de maneira isolada. Hoje, a produção é conjunta, entrelaçada. A inter-relação entre as linguagens, dessa forma, é constante, com estímulos claros para os alunos pensarem em diferentes mídias e plataformas para contarem histórias. O objetivo é permitir uma formação interdisciplinar, em que os alunos enxerguem o jornalismo como algo não contido em um formato, mas como uma prática que o transcende. Esta maneira de pensar não é novidade no mercado, mas está menos presente do que poderia na produção universitária.

É comum encontrar alunos com visões tradicionais da sua própria formação, limitada pelos pilares tradicionais de rádio, TV etc., ignorando assim a possibilidade de uma formação mais integrada. O objetivo do projeto, portanto, é formar um aluno mais atento à possibilidade de enxergar o jornalismo a partir de uma visão ampla, conectada com a prática, mas sem deixar de lado os princípios éticos que conduzem o exercício da profissão.

O tema central inicial deste projeto único, que se modifica a cada semestre, é água. Optou-se por um tópico amplo e atual, com diversas ramificações e consequências na vida cotidiana. Este tema foi informado apenas na segunda semana de aula, de modo a gerar expectativa e engajamento dos estudantes.

Integração entre professores

O planejamento e a organização do projeto ocorreram intensamente desde o segundo semestre de 2017. Ao todo, 18 professores estão envolvidos no processo, entre disciplinas e planejamento. Estes meses foram dedicados à criação um cronograma conjunto: todas as disciplinas seguem uma estrutura subjacente básica, sem desrespeitar seus rituais e suas dinâmicas específicas.

Um dos maiores cuidados desse processo foi reconhecer e respeitar as diferenças de abordagem e origem de cada professor, procurando integrá-los dentro de um projeto em comum. Esta costura foi possível graças a uma estrutura flexível. Cada disciplina mantêm avaliações próprias, com o acréscimo de pontos avaliativos do grande projeto.

Ao mesmo tempo, as especificidades de cada professor se tornaram ainda mais importantes, uma vez que é previsto momentos de troca ao longo do semestre: durante a disciplina de jornalismo online, por exemplo, em um determinado momento haverá uma participação de um professor de vídeo, para ajudar a pensar em coberturas ao vivo via plataformas digitais. Existem no mínimo três espaços pensados para intervenções como essa durante o semestre. Além disto, a metodologia prevê que as disciplinas envolvam mais conteúdo “sob demanda”. Serão oferecidas oficinas ao longo do semestre. Tratam-se de áreas acessórias ao que prevê cada matéria, mas que serão inseridas no programa ao se mostrarem fundamentais para os alunos realizarem o projeto.

A visão do empreendedorismo

Dentro desta nova mentalidade, o empreendedorismo assume uma posição crucial. A ideia não é simplesmente que os estudantes lidem com linguagens diferentes, mas que, a partir desta experiência, experimentem como criar e gerir um produto de conteúdo. É este o papel da disciplina de empreendedorismo: gerar uma sensibilização quanto à atitude empreendedora e dar ferramentas para que os estudantes saibam gerenciar seus projetos e entender como organizar um produto de informação.

Ressalto que este esforço está conectado à visão de empreendedorismo como algo mais amplo do que a criação de empresas que visam o lucro. Pode ser aplicado a ONGs, projetos pessoais, iniciativas temporárias, projetos novos dentro de empresas estabelecidas, ou mesmo ser pensado como uma lógica de condução da própria carreira. O empreendedorismo, nesta visão, é uma atitude, mais do que uma virtude: é um posicionamento de criação e resolução de problemas. Observo ainda que, antes de chegar ao Projeto V, os estudantes do curso de Jornalismo da PUCRS já passaram por uma disciplina chamada Inovação em Jornalismo, que aborda conhecimentos básicos sobre gestão de produto e o pensamento inovador dentro da carreira jornalística.

Momentos e metodologias especiais

Construída esta estrutura básica, é necessário abrir os horizontes. Assim, foram pensadas dinâmicas especiais para pontuar o semestre e demonstrar diferentes frentes que os alunos podem construir dentro do jornalismo.

A primeira delas é uma hackathon. Durante o início do semestre, será reservado um momento para que os estudantes, já divididos em grupos, possam pensar em ideias inspiradoras. O tema central é “Como contar histórias de forma inovadora a partir de múltiplas plataformas”, com os alunos criando estratégias em torno disto. A organização de maratonas hacker já se tornou comum em uma série de empresas de mídia. Ela se torna importante aqui por proporcionar aos alunos um momento mais livre e lúdico de ideação, complementado por uma necessidade de prototipagem rápida.

Fora este, ao longo do semestre oficinas especiais foram organizadas para os alunos, durante as sextas-feiras à tarde. Elas são planejadas para colocar os estudantes em contato com mais atores, expandindo sua percepção sobre suas ideias e o que fazer com elas, tanto dentro do projeto quanto fora. Estão envolvidos o Idear, centro de empreendedorismo interdisciplinar, para dar assessoramento sobre como empreender com propósito, e o Ubilab, laboratório de pesquisa da Famecos no Tecnopuc, que discutirá a pesquisa aplicada em tecnologia e mobilidade. Aqui, aparece novamente o princípio de um olhar interdisciplinar para o desenvolvimento em jornalismo

Cuidados

Durante a organização do projeto, alguns cuidados tiveram que ser levados em consideração. Quanto à metodologia e a sua aplicação, foi importante haver uma separação dos grupos realizada pelos docentes, e não baseada na livre escolha. Isto aconteceu principalmente por dois motivos: por um lado, permite que se quebrem times formados apenas com base em proximidade, gerando a experiência de trabalhos mais diversos. Por outro, possibilita que as equipes sejam formadas com uma divisão equilibrada entre integrantes que fazem uma, duas ou todas as disciplinas do semestre. Com relação a isto, aliás, houve atenção especial para montagem de grupos em que houvesse um número consistente de integrantes que cursam todas as disciplinas do semestre. Eles são os responsáveis por conectar todas as partes do processo.

Este ponto projeta o próximo: a estrutura pedagógica foi montada de modo a evitar que alunos inscritos em menos disciplinas tenham um prejuízo ao fazer parte do todo. Da maneira como a estrutura foi pensada, um aluno cuja intersecção com o Projeto V é de apenas uma disciplina, por exemplo, será avaliado apenas pela parte que contribuir do projeto geral, além, claro, das dinâmicas específicas da sua disciplina. No caso de um estudante que participa apenas de Produção e Edição em Radiojornalismo, por exemplo, sua atuação será avaliada no que tange ao que foi feito em termos de áudio.

A matrícula em mais disciplinas do quinto semestre foi incentivada para aqueles que haviam deixado algumas delas para trás. Outros buscaram participar do projeto mais por motivação própria.

Conectado a isto, há uma preocupação constante em não deixar conteúdos previstos em cada disciplina de lado, evitando perdas. O que foi planejado em ementas está presente, apenas lecionado de maneira mais integrada e ativa.

Finalmente, com o Projeto V instalado na metade do currículo (quinto semestre), há um convite para que o próprio aluno repense sua atuação na segunda metade. Enquanto a primeira metade o auxilia de uma maneira mais introdutória a entender o que é o jornalismo hoje, após uma experiência diversa, ele está mais apto a imaginar o que o jornalismo pode vir a ser.

Um olhar adiante

O objetivo do Projeto V é repensar como um curso de jornalismo pode ser estruturado, com novas dinâmicas e experiências. Trata-se de uma ideia ainda em construção, é verdade. Como algo orgânico, ele certamente passará por modificações. Ajustes farão parte do processo. Mas até aqui, já é possível dizer que ele nos fez aprender muito. Especialmente quanto à necessidade de mudança e da abertura de horizontes quanto às formas de fazê-las.

O Projeto V é uma resposta do próprio jornalismo aos desafios contemporâneos impostos à profissão. Ele nasce no lugar de excelência para o desenvolvimento da reflexão e da prática jornalística: a universidade.